Que resultados a crescente massa de projetos tem trazido para a cultura brasileira? Precisamos realçar a atual ideologia de produção e mostrar os limites desse discurso que tem produzido, além de muita confusão, um totalitarismo ao invés de uma semente evolutiva.

Não podemos crer que o pensamento único seja objeto de uma civilização que se pretende moderna e que vive, de tempos em tempos, de convergência de momentos. Não estamos falando dentro dessa fragmentação de uma cultura solidária, artística ou intelectual, tudo parece convergir para o território do dinheiro. É esta metamorfose que já não respeita mais as naturezas regionais. A cadeia do atual sistema violenta a informação para nos apresentar a cultura do dinheiro em estado bruto, sem luz, sem alma, sem criação. É aí que encontramos os limites da racionalidade dominante. Nesse perigoso imaginário de que a velocidade técnica é um poder cultural, temos um antídoto simples extraído das nossas realidades, como diz uma frase de um clássico e belíssimo samba de Paulo César Pinheiro e João Nogueira, “força nenhuma no mundo interfere sobre poder da criação”.

Um trabalho intelectual, artístico não pode ser confundido com disciplinas tributárias, dirigido de forma tão brutal pelo espaço geográfico que apenas exige uma pungente cadeia, uma reescritura de produção em série.

Temos que nos decidir, se estamos reivindicando aspectos específicos de políticas culturais ou se nos subordinaremos às técnicas hegemônicas do mercado. O conteúdo nesse território está compartimentado, e este é um dos problemas cruciais para quem se pretende diferente ou estratégico diante das outras atividades produtivas para merecer aportes públicos. Nesse estado banal aonde a cultura tem função igualmente banal, o processo histórico da cultura fica escasso pela própria rotina, e a riqueza dos sentidos cai em repouso na escala em que o campo de batalha imperativamente nos jogou. No emaranhado de técnicas, o homem pouco descobre ou faz uso da sua força criativa, pois cada vez menos natural toda a técnica artificial é que redefine as relações da plenária. E a cultura, nessa ordem material, transforma-se em um objeto qualquer de multiplicação, daí a idéia de tribo, de povo, de Nação e de Estado perde a consciência cósmica, a síntese que nos chega pela força da natureza, pelo talento imprevisível como força vital das nossas fusões e, consequentemente dos nossos estímulos.

Precisamos de um pensamento vivo e um modo de pensar a humanidade da cultura, nos poderes milagrosos da evocação que só a luz da criação pode ter a cultura como fenômeno essencial.

Hoje, como estamos a um passo de sermos prole dessa tirania do progresso técnico, a arte não terá qualquer função, porque pretensiosamente esse território que vive de desafinações e guinchos tem a cultura somente como atividade econômica e, consequentemente o seu pensamento busca especificações produtivas e não o exercício reflexivo da criação. Não é possível que não enxerguemos essas grandes distorções, inclusive a quebra da solidariedade social que sempre foi a marca da cultura do nosso povo. Essa colaboração positiva que faz a diferença em um país com interpretação multidisciplinar como no caso do Brasil, não pode viver do limite em que o aprofundamento da competitividade nos mergulhou. A equivalência brasileira na cultura tem em sua natureza conceptiva referências humanas de admirável gratuidade. Esse virtuosismo “universal” estabelecido aqui pela globalização financeira precisa ser enquadrado e, ao mesmo tempo respeitar as diversidades e assuntos que abrangem os nossos múltiplos sentidos.

Isso que aí está, uma indecisão pasmosa que hipnotiza gestores, artistas, consagrando a unicidade técnica como motor único da cultura, com certeza nos levará, em grosso modo, a uma espécie de rumba-fox, aonde o agudo fere a definição de sociedade criativa e nos empurra para essa feira de porcarias absolutas.

O barulho do mercado é grande, os cantos dos vendedores ambulantes cheios de tiques esquizofrênicos, ignoram as redondilhas maiores da cultura nacional. A dicção da indústria cultural está cheia de defeitos, pois tenta aportuguesar o insuportável processo industrial ensandecido a mando da atividade econômica globalizada. Estamos perdendo os parâmetros, as referências para cairmos numa fórmula aplicada como se a cultura do Brasil fosse uma grande empresa, exigindo de cada cidadão o individualismo arrebatador e possessivo, desrespeitando com suas finalidades pragmáticas, o valor da cultura como base principal nas relações sociais como ordem natural do território brasileiro.

Não sei aonde tudo isso vai dar ou aonde a velocidade hegemônica pretende chegar. De imediato podemos ver que a uniformidade em detrimento à pluralidade tem aprofundado a disfunção da cultura como liga que discute as noções de tempo e espaço no território brasileiro. Além do quê, a gravidade da situação, cheia de metas e estatísticas, não está ao alcance de todos, ao contrário, cada vez mais se torna benefício exclusivo de uma pequena parcela que acaba regulando a vida coletiva da cultura para, a cada capítulo, impor uma política cultural comandada por empresas/corporações.

Até quando adotaremos esse critério de avaliação mecânica que a contabilidade global vem nos impondo como condição de organização e sobrevivência? O poder público, o Estado não pode se deixar usar pelo apetite dessas empresas, pois esse intercâmbio de alguma forma está tornando cada vez mais densa a presença da influência do globalitarismo na cultura do cidadão.

A sociedade empiricamente já percebeu que a liberdade e a dignidade da cultura hoje dependem de ajustamentos para se tornar dócil às técnicas contemporâneas de alienação generalizada.

Precisamos recolocar a cultura em seu lugar central e não viver acomodados com o período atual que, na realidade é uma crise promovida por empresas e pelo sistema de produção cultural. O Estado tem que por um freio em tudo isso. Essa espécie de energia missionária do culto definitivado no seu organismo pobre que não distingue sequer tradição e modernidade em seus conceptos estéticos com sua crença monoteísta está nos enfiando goela abaixo, certa idolatria ao curandeirismo gestor.

Poucos percebem, mas a cultura hoje vive de uma autoria esotérica, de uma crendice, de uma superstição urdida por um eruditismo imediatista do mercado longe da parceria instintiva do povo brasileiro. Todos esses patuás, marcas, patentes, logos, são hoje objetos cerimoniais do caráter coreográfico que esbofeteia a cultura nacional. Estamos vivendo desse comer-e-beber vinte e quatro horas e a fumaça da tropa soberana do mercado é apenas uma variante de um sistema deformado que verticalizou todas as outras atividades produtivas que na cultura usam ora o bico de pena do erudito decalcado, ora a botina marrom do para-culturalismo imposto pelos pajés da corporatocracia e suas espingardas de cano curto.

É imprescindível e emergente afirmar um outro traçado, um outro plano para a cultura brasileira, algo que traga à baila os minuciosos e ricos aspectos da cultura do Brasil, obras de registros verdadeiramente colaborativos, frutos de árduos trabalhos e não dessa paulicéia desvairada dos ritmos batidos e repetidos pela obsessão coreográfica da dança das moedas.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

5Comentários

  • gil lopes, 24 de setembro de 2010 @ 9:41 Reply

    O estilo é o de sempre, mas e aí? Vamos acabar com a moeda? Qual é a proposta? Limar os logotipos? Acabar com o capitalismo está fora do baralho…qual é o caminho?

  • raul ellwanger, 28 de setembro de 2010 @ 0:43 Reply

    Gostei do artigo acima. Os “Pontos de cultura” atuais podem ser muito estimulantes para microcomunidades, mas qual é seu fruto cultural ?Alias, é mesmo cultural ? Na renuncia fiscal, é o Estado quem perde arrecadação, mas a seleção é feita numa otica empresarial/ideologica. O Estado não poderia abdicar das mesmas verbas, mas a escolha ser feita por um colegiado das entidades profissionais representativas de escritores, historiadores, musicos, pintores, coreografos, teatreiros,professores, psicologos, sociologos, historiadores, advogados, gestores culturais , publicitarios, jornalistas, comunicadores, etc. ?. Na cadeia produtiva da musica popular, radios e tvs não tocam musica brasileira deixando de gerar o mercado de trabalho e de serviços decorrente, sonegam direito autoral, cobram jabá para tocar o que tres empresas multinacionais querem vender nos proximos 90 dias, e o MinC (que bizarramente não se preocupa em nada destes assuntos) ainda inventa nova Lei de Direito Autoral que ninguém pediu, mas que aponta também a debilitar a propriedade intelectual de compositores. E estimula os baixateiros irmãos da pirataria, convidados como figurantes em encontros onde nunca se convidam entidades de compositores.Na contra-mão, Ministerio da Industria reclama da baixa taxa de registros de propriedade intelectual no Brasil. Pais que pode faturar exportando musica, encontra no MInC um grande adversario. Mas as telefonicas e portais, as grandes redes de radio/tv/cabo, que querem usar e vender musica alheia sem pagar, aplaudem e faturam. Que extranho !!! Raul Ellwanger, compositor.

  • gil lopes, 28 de setembro de 2010 @ 10:43 Reply

    Muito interessante a reflexão do Raul, temos que complementar isso. Precisamos virar a lógica da política anti cultural que nos domina, a que nos impõe e legitima a presença avassaladora do produto cultural estrangeiro, solapando nossa capacidade de utilizar nossos meios. É comum recordarmos de debates e críticas no passado e observarmos o marasmo do ambiente entupido nos seus canais de reflexão. Não há crítica, ou quando há é de um lado só. Queremos Imprensa Livre, mas livre mesmo, opiniões diferentes circulando. Imprensa Livre de uma opinião só é estranho, e mais que estranho, é EXtranho!

  • Carlos Henrique Machado, 28 de setembro de 2010 @ 12:53 Reply

    Grande Raul Ellwanger!

    Gostaria de dialogar, ponto a ponto, com você sobre o seu comentário.

    “Os “Pontos de cultura” atuais podem ser muito estimulantes para micro-comunidades, mas qual é seu fruto cultural ?Alias, é mesmo cultural ?”

    Sim, até porque o Brasil atual desconhece a sua origem, a sua arte popular, porque a pior tragédia brasileira construiu duas formas de aversão ao que nasce nas cabeças e nos corações do povo, sobretudo na busca artesanal que brota, em sua vasta presença, no território brasileiro e que é o alicerce de toda a nossa divina música.

    O Brasil precisa saber mais de si e fazer crescer o número de brasileiros que compreendem melhor os fios que tecem a sua cultura. E é aí, neste ponto, nos quatro cantos do país, que os pontos de cultura exercem a sua astúcia e abastecem os criadores para batizarem novas fundações em homenagem à figura do brasileiro comum que se entrelaça através dos seus sons. Uma produção que brota da terra e que chega às maravilhas sinfônicas de um gênio como Villa Lobos.

    O que não se pode mais, Raul, é admitir que, na abertura de novos negócios da cultura, a empresa encomende a mercadoria, pior, que ela estoque o material aguardando o momento, normalmente atravessado, de usá-lo, logicamente depois de devidamente editado. Vemos uma falsa renovação vinda dos mascates da grande mídia, vendendo evolução no atacado como se fosse figura simbólica majoritária da nossa cultura. Mellenium, GIFE, Itaú, Fundação Roberto Marinho são fábricas de uma teia restritiva, por isso as chuvas vindas dos pontos de cultura elevam a nossa descendência com as milongas, os maxixes, os xaxados, os jongos, os congos, o tambor de crioula, as catiras, sambas, choros e mais centenas de modas definidas pelo sentimento do povo brasileiro.

    O brasileiro médio, hoje, perdeu o sentido do ensino fundamental de suas origens. A arte popular sempre foi perseguida, interpretada pelos nossos refúgios “eruditos” como uma espécie de primitivismo tropical. Os mosteiros da “música oficial” não pisam nos terrenos caiçaras, vivem a quinhentos anos de uma exposição decalcada, de uma monografia barbaramente copiada da Europa do século XVII.

    Todo e qualquer compositor brasileiro, sob o ponto de vista de sua criação, foi tomado de forma extraordinária, pela divina contaminação que os microcosmos que, agora, chamamos de pontos de cultura, transmitem-nos e com um extraordinário cabedal de conhecimento e de espiritualidade.

    A nossa música é, na essência, marginal dentro do Brasil. Todos os dias vemos as gigantes da comunicação exibindo criancinhas pobres sendo incluídas por maestros estrangeiros bondosos que as incluem em alguma especialidade que até hoje ninguém abriu um campo de investigação sobre a tal inclusão pelas técnicas do universo erudito que exige a substituição da criação juvenil pela técnica escoteira ou lobinha. Um tipo de voluntarismo de trabalho violentamente remunerado à máfia da batuta.

    Quanto à questão dos direitos autorais, e isso eu sinto na pele, você deve imaginar que os nossos defensores liderados pelo ECAD, não nos apresentam qualquer transparência, por isso o alarido grego calculado que se faz de um grande atacadista na hora de arrecadar, e diga-se, por um preço elevadíssimo, o mesmo ECAD faz boca de siri e serve um conta-gotas na hora de beneficiar a imensa maioria dos músicos. O ECAD é uma das coisas mais rasteiras, para não dizer, imorais. Poderíamos até dizer que são preguiçosos na hora de nos beneficiar, mas não. Esses moços do ECAD têm um exército poderoso em seu serviço de arrecadação, legislando na base da força física com profundo caráter autoritário, já que adquire, por seus próprios critérios, a “defesa” dos direitos autorais dos artistas sem que tenhamos dado a ele nenhuma procuração. Precisamos primeiro saber da história do ECAD, dessa sociedade secreta para uma quase infinita quantidade de criadores brasileiros. Depois que resgatarmos as nossas obras que hoje são obrigatoriamente reféns do ECAD, aí sim, instantaneamente, com a nossa legitimidade de fato nas mãos, buscaremos com sucesso uma gama de possibilidades oferecidas para proteger os criadores. Por enquanto, estamos impedidos pelo ECAD de manejar ao nosso modo e gosto, o nosso valor, a governabilidade das nossas criações.

    Um grande e afetuoso abraço.

  • gil lopes, 29 de setembro de 2010 @ 14:16 Reply

    Carlão, na terrinha se diz bolinha rente a relva…somos muito pouco revolucionários em determinadas questões ou somos de mais noutras. é preciso uma dose reformista, talvez o ecad possa ser melhorado sem que se dê cabo dele. suas origens já foram ultrapassadas ao longo do tempo, é preciso tolerância e determinação. ficar conspirando para inventar novos modelos assusta, vamos ser pioneiros em novas áreas, no que já temos, vamos cuidar…pode ser melhor, avalie.

    será que a gente está condenado a produção periférica, um grande projeto produzido ou realizado no eixo não deve circular? como garantir sua circulação? ou a produção central só vai ficar na mão do que vem de fora? teremos a representação do gigante ou seremos condenados ao produto da periferia? é Copa do Mundo ou futebol no Aterro?

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