A cantora e atriz Ana de Hollanda, ministra da cultura nomeada pela presidenta Dilma Rousseff, vai rever o projeto que altera a Lei 9610/98, que regula os direitos autorais no Brasil. Ela tem declarado que é a favor da flexibilização do uso de obras autorais, mas não concorda que os autores sejam desapropriados, como querem as corporações do novo mercado de conteúdos.

Desde 2005 que o Ministério da Cultura (MinC) vem mexendo com esse assunto e não consegue chegar a um texto ideal. A dificuldade toda é que o debate partiu de uma fundamentação ambígua: o discurso defendia a democratização da cultura, quando na prática o que estava em jogo era o conflito entre o velho e o novo sistema comercial de produtos e serviços culturais.

O MinC iniciou as consultas públicas para a reforma da lei, impondo a gestão de licenciamento de música por meio de “creative commons”, desconstruindo o sentido de autoria, antes mesmo do estabelecimento de um marco legal para o uso da internet. Abraçou o novo modelo de copyright (direito de cópia) estadunidense, disseminado desde 2002 por essa organização “laranja”, chamada Creative Commons, voltada para os interesses do mercado de computadores, softwares, telefones, buscadores e provedores de acesso à Internet.

Como os conteúdos passaram a ser bens muito valiosos na nova economia, o que seria um segundo movimento da globalização econômica – o primeiro foi a ampliação da escala produtiva mundial com o aproveitamento da mão-de-obra barata dos países subdesenvolvidos – criou esse artifício para induzir, por constrangimento social ou por obrigatoriedade compulsória, os autores a renunciarem publicamente no todo ou em parte, seus direitos conferidos por lei e pactuados em convenções internacionais.

Com dois pesos e duas medidas, ficou impraticável que governo, mercado e sociedade chegassem a um consenso. Para saquear de forma acintosa um patrimônio que pertence aos criadores, as corporações do mercado digital se infiltraram nos órgãos de cultura, com uma retórica de criação de riqueza para todos, mas trabalhando a redução do caráter estético, vinculado ao autor, a uma função utilitária da obra de arte ou literária, associada especificamente ao direito comercial.

Na Convenção da Diversidade Cultural, realizada pelas Nações Unidas (2005) os “especialistas da economia criativa” foram orientados a valorizar o patrimônio simbólico como forma de beneficiar a livre concorrência. Em nome da “função social da propriedade intelectual”, os autores deveriam deixar de ser gananciosos e abrir mão do recebimento pelo seu trabalho de criação, para que as corporações (que vendem conteúdos financiados por publicidade e cessão de cadastros de usuários) pudessem promover a globalização econômica e social da cultura.

Essa vulgata incorporada pelo MinC passou a fomentar uma indisposição dos usuários de cultura contra o Direito Autoral, inclusive com editais modelados em situações causadoras da impressão de que os autores estão atrapalhando a socialização do conhecimento, dos saberes e das obras criativas da humanidade. É quase inacreditável que o mesmo ministério que criou programas de tanta grandeza como os Pontos de Cultura tenha entrado na onda da mediocrização da condição humana, típica de um modelo de sociedade instrumental, inspirado na supremacia técnica.

A perversão do perfil de negócio no meio musical não é coisa nova. Muitas bandas foram transformadas em marcas de festas, cujos proprietários passaram a alterar seus integrantes conforme demanda, podendo fazer inclusive apresentações simultâneas em diferentes lugares. Lembro-me de uma entrevista que fizemos em 29/05/2007 com o Emanoel Gurgel, dono da banda Mastruz com Leite, na qual ele afirmava com rara sinceridade empresarial que o CD tinha virado apenas cartão de visita. “Quanto mais músicas eu espalhar, mais tenho como levar as pessoas para dançar os sucessos na festa. A festa é o negócio. Descobri isso há 15 anos. O segredo para mim é não ter intermediário” (PINHEIRO, Andréa e PAIVA, Flávio, in: Na trilha do disco – relatos sobre a indústria fonográfica no Brasil, E-papers, Rio de Janeiro, 2010).

A despeito de não concordar com a maneira como essa nova configuração de negócio passou a explorar os artistas, vejo com mais simpatia declarações claras como essa do Emanoel Gurgel do que o discurso atravessado e nebuloso do MinC. Mesmo assim, diante de tudo que ocorreu, acho que o resultado da proposta de alteração da lei brasileira até que está bem próxima do possível. É natural que a adequação das leis de direitos autorais aos novos padrões tecnológicos e de comportamento precise de algumas flexibilidades, como admite a ministra Ana de Hollanda.

Referindo-se ao ECAD (Escritório Central de Arrecadação e Distribuição), a ministra adianta que não vê sentido subordinar uma entidade de classe ao poder executivo, como pretende o anteprojeto. Entretanto, algo precisa ser feito porque do mesmo jeito que os autores não merecem ser planificados pelo rolo compressor das multinacionais do mercado de conteúdos, é inaceitável que os compositores fiquem à mercê do cartel do ECAD, montado em um sistema de excelência tecnológica e policialesca para arrecadar, mas cheio de corpo mole e de “deficiência prática” na hora de distribuir.

Ana de Hollanda, na condição de filha de Sérgio Buarque, irmã de Chico e senhora de uma consistente experiência como artista e gestora cultural, sabe muito bem o tanto que o Brasil precisa contar com a cultura para poder entrar de fato no mercado da economia criativa. Deixando seus compositores à míngua, o País, um dos mais férteis do mundo em inventividade musical, somente reforçará a concentração do mercado fonográfico mundial, 80% dominado pela Alemanha, Estados Unidos, Holanda e Áustria. Na balança comercial o déficit brasileiro é da ordem de um bilhão de reais na área cultural.

A determinação de que vai rever a proposta de reformulação da Lei de Direitos Autorais é um sinal de que Ana de Hollanda está disposta a uma ação sociocultural e política do Estado, diante desse controle da cultura pelo mercado. Na entrevista coletiva que concedeu à imprensa no dia 22 passado, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, ela destacou que pretende aproximar a cultura da educação. No campo da música, por exemplo, isso será formidável, considerando que o até o mês de agosto de 2011 as escolas brasileiras oferecerão obrigatoriamente o ensino da música na Educação Básica.

Um ponto que merece ser revisto na questão do Direito Autoral é o imbróglio que foi feito entre Propriedade Intelectual, como produção funcional, e Direito de Autor, enquanto criação artística e literária. Esse é o calcanhar de aquiles nesse debate. É muito vulnerável a compreensão do que distingue uma obra que não depende necessariamente do mercado para cumprir a sua função social ou existencial e a criação de um novo “software”, do “design” de um carro e de um “jingle”, que têm em comum um sentido funcional, quer seja produzido de forma independente ou sob contrato de trabalho.

Em linhas gerais, o desafio que a ministra Ana de Hollanda coloca para a sua gestão, no que diz respeito a Direito Autoral, passa por um aperfeiçoamento dos resultados dos esforços controversos que o MinC vem fazendo em favor da economia e do acesso democrático à cultura. Nesses cinco anos de estica e puxa fiz várias reflexões sobre esse assunto, parte delas expostas novamente aqui. Para mim, o que deveria orientar essa discussão seria o princípio de que todo produto e todo serviço protegido por esses direitos deveriam ser liberados para cópia e compartilhamento, exceto se utilizados para fins comerciais, institucionais e políticos, com a devida remuneração dos autores.

*Publicado originalmente no Diário do Nordeste


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18Comentários

  • Carlos Henrique Machado, 24 de fevereiro de 2011 @ 13:02 Reply

    Ana de Hollanda vê sentido apenas em subordinar o MinC aos interesses do Ecad, por isso no meio cultural ela já é conhecida como a ministra do Ecad. É ridícula essa patriotada alegórica em defesa dos interesses das miltinacionais que controlam o Ecad. Dentro do PT, hoje, inicia-se uma campanha pesada contra as Ana de Hollanda e seu Ecad. Ninguém engole essa bobagem canhesta de criar um terrorismo internacional comandado pelos ETs de Varginha que querem controlar as mentes.

    É vergonhoso ver Ana defender o Ecad, porque ela sabe mais do que ninguém que, além de explorar a sociedade, esse órgão espúrio toma de assalto os recursos de milhões de músicos que se sacrificam numa luta diária pela sobrevivência.

    O MinC está consorciado, dividido por interesses corporativistas de medalhões da Globo e interesses das multinacionais que dominam o Ecad. Todos sabem que estamos diante de um jogo pesado e que Ana de Hollanda faz do MinC o QG do Ecad.

    Esperem que já já a boiada vai estourar.

  • Carlos Henrique Machado, 24 de fevereiro de 2011 @ 17:55 Reply

    Qualquer criança sabe que não há como frear a troca de conteudo na Internet.
    O que se quer nessa manobra patriotica é dar aval oficial ao ECAD para ele explorar o cidadão brasileiro em espaços públicos.
    A grande mentira de Ana a artista ministra é dizer que está defendendo o autor o comositor brasileiro. Ela defende essa mafia de medalhões – ECAD.

    Ana de Holanda, a artista, usa de autoritarismo como ministra para colocar estampado no saite do MinC,sua irredutivel posição em defesa do ECAD.Essa é a grande realidade, o resto é confete e fumaça.

    A PROVA ESTÁ AQUI!

    sss://www.cultura.gov.br/consultadireitoautoral/

    Frente integrada assume compromisso de defesa do direito autoral

    Uma frente integrada em defesa do direito autoral moral dos compositores foi consolidada, na última quarta (14), saldo da audiência promovida pelo Ministério Público do Trabalho – MPT para discutir o descumprimento da Lei 9.610/98 e o prejuízo na carreira dos profissionais da música. Construído com base na provocação do procurador Pedro Lino de Carvalho Júnior, o compromisso conjunto foi referendado por representantes do Ministério da Cultura/Diretoria de Direitos Intelectuais, Secretaria de Cultura da Bahia/Funceb, OAB, Ecad, ABDA, Abramus, Arpub, Amar, entre outras entidades representativas da categoria. “É chegada a hora de somar esforços e fomentar uma mudança cultural, de mais respeito à dignidade do compositor”, sintetiza o procurador do MPT.

    Destacada como “um feito histórico”, a audiência trouxe foco ao direito quase sempre negado ao compositor, de ter o nome divulgado pelas emissoras de rádio, como autor, quando sua música é tocada. Respeitada por poucos nesse aspecto, a Lei 9.610/98 do Direito Autoral, especificamente nos artigos 24 e 108, garante a obrigatoriedade (TRECHO ABAIXO). “Duvido que com esses parceiros nós não tenhamos resolvida a distorção no direito autoral do Brasil”, instigou o compositor, cantor e advogado baiano Waltinho Queiroz, entusiasta da causa.

    Os primeiros efeitos já surgiram a partir da iniciativa da Rádio Educadora FM 107.5, que desde ontem (15/12) veicula a campanha e o jingle do tema (autoria de Marcelo Quintanilha, premiado pela OAB/BA). “As rádios públicas já cumprem a legislação, veiculando a autoria das músicas tocadas”, defende o vice-presidente da Arpub, Mário Sartorello, que também representou a Rádio Educadora na audiência pública.

    A importância da identificação do compositor para facilitar a arrecadação e o pagamento do direito autoral também foi ressaltada pelo gerente do Ecad/Bahia, Gabriel Valois. Já o representante da Secretaria de Cultura da Bahia, Gilberto Monte Lima, alertou para a questão da “era digital” e sobre a necessidade de pensar no problemas que ainda estão por vir. A exemplo da execução streaming de músicas (via internet). Rafael Pereira Oliveira, coordenador-geral de Difusão de Direitos Autorais e Acesso à Cultura do MinC, ressaltou a importância da iniciativa para o reconhecimento dos compositores, lembrou que a reforma do direito autoral que está sendo discutida pode incorporar alguns aspectos que ajudem na preservação destes direitos e reiteirou que o MinC está atento ao desdobramento da atuação do MPT.

    Entre os profissionais das emissoras de rádio da Bahia presentes à audiência, a diretora comercial da Rádio Recôncavo FM, Ednéia Penha, frisou a dificuldade de as emissoras cumprirem a determinação, já que é farto o material recebido dos artistas e gravadoras sem a devida informação sobre os compositores. Geraldo Fontes, do Sistema Pasi de Comunicação, pontuou a necessidade de divulgar o texto da lei. “Poucos conhecem a lei nas rádios do interior do estado”, disse. O radialista Marcelo Carvalho, da Nova Salvador FM, atentou para a necessidade de incluir os radialistas e comunicadores no debate.

    CONHEÇA A LEI DO DIREITO AUTORAL – Lei 9.610/98

    Art. 24. São direitos morais do autor:
    I – o de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra;
    II – o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o do autor, na utilização de sua obra;

    Art. 108, I:
    Quem, na utilização, por qualquer modalidade, de obra intelectual, deixar de indicar ou de anunciar, como tal, o nome, pseudônimo ou sinal convencional do autor e do intérprete, além de responder por danos morais, está obrigado a divulgar-lhes a identidade da seguinte forma:
    I – tratando-se de empresa de radiodifusão, no mesmo horário em que tiver ocorrido a infração, por três dias consecutivos.

  • Carlos Henrique Machado, 24 de fevereiro de 2011 @ 21:46 Reply

    Pablo Ortellado
    sss://www.gpopai.org/ortellado/?p=13

    « Privacidade: o perigo é o estadoOs nacionalistas da cultura (“Creative Commons é entreguismo”)

    A ascensão de Ana de Holanda para o Ministério da Cultura com a promessa de reavaliar a revisão da lei de direitos autorais “em defesa dos autores” gerou um acirrado debate que tem animado as páginas dos cadernos de cultura. No debate, tem aparecido com orquestrada frequência uma curiosa tese: os críticos da nova política do ministério são ingênuos manipulados pelas grandes empresas de Internet que querem se apropriar da cultura brasileira sem pagar pelo conteúdo. A revisão da lei de direitos autorais ampliando exceções e limitações, a supervisão estatal das sociedades de gestão coletiva (como o ECAD) e o estímulo ao licenciamento livre (por meio de licenças como as Creative Commons) causariam apenas prejuízo aos autores brasileiros. As grandes corporações do mundo digital, ao contrário, seriam as grandes beneficiadas, já que explorariam o acesso livre a esses conteúdos por meio de publicidade. Contra essas políticas inovadoras, seria preciso manter as regras e políticas de direito autoral atualmente em vigor que protegem razoavelmente bem os autores e são uma plataforma adequada para a projeção internacional da cultura brasileira.

    A linguagem anti-imperialista surpreende, vindo de onde vem. Os defensores da tese são os sócios locais da indústria cultural internacional, sobretudo do setor fonográfico – empresas nada nacionais como a Warner, a Sony, a EMI e a Universal. Obviamente, a acusação é apenas um jogo retórico, mas como tem encontrado algum eco, não seria despropositado relembrar alguns fatos básicos.

    No mercado de música brasileiro, os autores são brasileiros, mas as empresas são estrangeiras. O discurso pseudo-nacionalista só pode funcionar porque o Brasil tem uma situação ímpar: é o único país, fora os Estados Unidos, onde o consumo de música nacional é superior ao de música estrangeira. No entanto, essa música nacional é explorada por empresas majoritariamente estrangeiras: a Warner, a Sony, a EMI e a Universal. O que temos, portanto, é uma associação entre os grandes autores nacionais (os velhos nomes da MPB e os novos nomes do pop e do sertanejo) e as grandes empresas internacionais.

    Os intermediários, em boa parte estrangeiros, se apropriam de mais de 50% do direito autoral. A venda de discos e a execução pública (rádio, TV e shows) movimentam juntos pelo menos 400 milhões de reais anuais em direito autoral. Esses valores são distribuídos para os atores da cadeia produtiva da música: de um lado, criadores strictu sensu como compositores, arranjadores, intérpretes e músicos e, de outro, intermediários como empresas fonográficas, associações de autores, produtores e o escritório de arrecadação (ECAD). Na divisão dos recursos do direito autoral, os intermediários ficam com 51% e a menor parte dos recursos é dividida entre os criadores.

    O Brasil é altamente deficitário em direito autoral. Se há ainda alguma dúvida que a exploração do direito autoral é interesse estrangeiro, basta olhar a balança comercial de direito autoral do país com os Estados Unidos. Todos os anos enviamos mais de 2 bilhões de dólares como pagamento de direito autoral (em todos os setores – não apenas música). Os americanos, por sua vez, nos pagam apenas 25 milhões.

    A remuneração aos autores brasileiros é concentrada, distorcida e segue critérios obscuros. A distribuição dos recursos de direito autoral no Brasil é, antes de tudo, distorcida pelo jabá, mecanismo pelo qual as empresas pagam para ter a música executada nas rádios e TVs para depois receberem o direito autoral de execução e vendas como “retorno”. Além disso, o escritório de arrecadação tem procedimentos obscuros que não podem ser auditados e que concentram a distribuição em muito poucos autores.

    O que temos então é uma indústria predominantemente estrangeira que se apropria da maior parte dos recursos de direito autoral em detrimento dos verdadeiros criadores e os remete ao exterior para as matrizes. No entanto, como remunera bem alguns poucos autores brasileiros segundo procedimentos obscuros, estes agem como porta-vozes nacionais desta estrutura internacional de exploração da cultura brasileira.

    Se tudo isso ainda não é suficiente, uma última e conclusiva evidência pode ser encontrada na contribuição da IIPA (International Intellectual Property Alliance) para o relatório 301. O relatório 301 é um mecanismo comercial do governo americano por meio do qual tenta interferir nas políticas de direito autoral de “países em desenvolvimento”. Esse relatório avalia se a política de direito autoral desses países, no entender dos Estados Unidos, é adequada – e se ele considerar que a de algum país não é, pode punir com sanções comerciais unilaterais. A IIPA que é uma organização que reúne as indústrias do software, do disco, do filme, do livro e dos games nos Estados Unidos, no seu último relatório defende exatamente as mesmas posições quanto à reforma da lei de direito autoral que o atual ministério da cultura – motivo pelo qual as posições da ministra são diretamente elogiadas.

    É no mínimo curioso que agentes das grandes multinacionais utilizem um discurso nacionalista e até anti-imperialista para atacar os ativistas da cultura livre. É evidente que se trata de má-fé orientada a atingir resultados políticos. Mas como a mentira e a má-fé se disseminam talvez valha a pena esclarecer algumas coisas:

    O movimento de cultura livre defende a independência dos criadores, não a indústria – nova ou velha. Embora o movimento seja uma rede mais ou menos solta de ativistas, sem um programa explícito, me parece claro um objetivo comum: o de produzir uma nova economia da cultura, na qual os criadores e não os intermediários sejam os principais beneficiários dos dividendos econômicos e na qual os bens culturais possam circular livremente sem barreiras de direito autoral, permitindo o acesso de todos ao patrimônio cultural. A cultura que se vislumbra é uma cultura na qual os criadores sejam remunerados e, simultaneamente, o público tenha acesso às obras. Há várias experiências bem sucedidas em curso sobre como realizar esse objetivo – principalmente aquelas na qual há deslocamento da fonte de remuneração do criador, do direito autoral para serviços, como shows e apresentações ao vivo. Esse movimento não pretende que os intermediários da velha indústria (gravadoras, editoras, etc.) sejam simplesmente substituídos por novos intermediários (empresas de Internet, editoras digitais, etc.), nem que os criadores não sejam remunerados. O movimento de cultura livre defende um modo de produzir cultura descentralizado, diverso, esteticamente autônomo, economicamente sustentável e no qual os bens culturais sejam acessíveis a todos.

    O mundo que os novos intermediários vislumbram é diferente. É um mundo no qual o acesso às obras, gratuito ou apenas mais barato, é organizado por grandes empresas que comandam indiretamente a cadeia produtiva e geram dividendos com a venda da privacidade dos usuários para publicidade dirigida. É um mundo onde se pode ler livros ou escutar música na Internet gratuitamente sacrificando a privacidade pessoal para a venda de publicidade. Esse modelo traz grandes riscos para uma liberdade civil fundamental que é a privacidade, coloca em risco a autonomia econômica e estética dos criadores e ameaça a diversidade de oferta de obras para os consumidores.

    Como se vê, o programa dos defensores da cultura livre é muito diferente do programa da nova indústria cultural. Mesmo assim, os defensores do velho modo industrial de produção da cultura tentam desqualificar o movimento de cultura livre apresentando-o como agente das novas empresas.

    Não podemos ficar presos, no entanto, a duas alternativas corporativas, que subtraem, cada uma a seu modo, a autonomia de criadores e consumidores. O processo de mudanças nos modos de produção da cultura não nos leva a ter que escolher entre a EMI e a Google. Ele abre uma janela de oportunidades para novas práticas e novas políticas que emancipem e protejam os autores frente ao poder econômico dos grandes intermediários e que apoiem as potencialidades de acesso à cultura trazidas pelas novas tecnologias. É esse tipo de visão que esperamos do Ministério da Cultura.

  • Ex-epígono, 27 de fevereiro de 2011 @ 12:29 Reply

    Apenas uma desinformação contida neste texo:

    “O MinC iniciou as consultas públicas para a reforma da lei, impondo a gestão de licenciamento de música por meio de ‘creative commons'”

    Meu caro Flávio Paiva, aponte no projeto de alteração da LDA onde tem essa imposição de licenciamento.
    Não vai encontrar porque simplesmente isso é uma invenção sua.
    Aliás esse texto é quase completamente baseado na desinformação

    Lamentável….

  • Forum Nacional de Musica, 27 de fevereiro de 2011 @ 19:35 Reply

    Segue abaixo, o documento sobre direito autoral aprovado na assembléia do FNM em Recife durante o Porto Musical.
    Para leitura e reflexão esse é o ponto de vista dos que fazem o Forum Nacional da Música.
    DIREITO AUTORAL PARA A MÚSICA
    FÓRUM NACIONAL DA MÚSICA
    A questão do Direito Autoral no Brasil vem sendo amplamente discutida há vários anos. Em 2005, durante a Câmara Setorial da música, essa questão foi um dos temas centrais do debate realizado, além de outros extremamente relevantes. O Fórum Nacional da Música, naquela ocasião representado por onze das dezessete unidades da federação mobilizadas (Alagoas, Bahia, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe) participou ativamente das discussões, que também contou com diversas associações e entidades ligadas a música. Não somente no que tange o Direito Autoral mas em diversas outras questões de extrema importância, consideramos que o documento com as proposições traz significativos avanços para a área da música. Especificamente sobre Direito Autoral, consideramos que tal documento contribui com a transparência, eficiência e melhoria das condições dos direitos de autor, em benefício deste último. Por esta razão, reconhecemos a importância do debate já realizado pelo Ministério da Cultura. Propomos, como meta fundamental, a reestruturação do sistema de arrecadação e distribuição dos direitos autorais, com a criação de um órgão público regulador com a participação da sociedade civil. Por estes motivos, explicitamos algumas ações diretas que acreditamos sigam nesta direção:
    1 – Publicização do documento resultante da Consulta Pública realizada pelo Ministério da Cultura junto à sociedade civil em 2010.
    2 – Criação de uma instância ou órgão público (dividido paritariamente entre sociedade civil e governo) que promova a mediação dos interesses, ampliando a transparência na Gestão Coletiva do Direito Autoral, além de fiscalização e regulação do sistema de arrecadação e distribuição desses direitos no Brasil
    3 – Penalização de emissoras de rádio e televisão e demais usuários inadimplentes
    4 – Criminalização do Jabá (pagamento ilegal para execução de música em rádio e televisão)
    5 – Estudo, modernização e implementação de um novo mecanismo de arrecadação e distribuição de direito autoral levando em conta as novas tecnologias disponíveis
    6 – Estabelecer uma nova destinação para o Fundo Retido de Direitos Autorais tais como a criação de um Fundo de Direitos Autorais para formação musical e linha de crédito para os autores
    7 – Estabelecer mecanismos, por meio do órgão regulador, para cobrança de direitos autorais dos provedores de conteúdo digital
    8 – Publicização do balancete analítico-financeiro do órgão arrecadador
    Por fim, entendemos que somente através do debate entre governo e sociedade civil podemos encontrar soluções viáveis para o desenvolvimento da cadeia formativa, criativa e produtiva da música no que tange os Direitos Autorais e as diversas questões que necessitam ser avaliadas. Desde nossa fundação estivemos presentes em diversas oportunidades contribuindo propositivamente com as discussões, e atualmente, presente em 22 estados da federação, não mediremos esforços para colaborar com os debates e consolidação de políticas públicas em defesa da música no Brasil.
    A disposição,
    Recife, 25 de fevereiro de 2011.
    Fórum Nacional da Música

  • Manoel Neto, 28 de fevereiro de 2011 @ 0:05 Reply

    Fávio Paiva, que discursinho reacionário… onde fica o direito dos autores se autoregularem? E os direitos da população? Tudo que você disse é lindo para os 650 autores que lucram com o atual modelo ECAD + EDITORES + GRAVADORAS MULTINACIONAIS + JABÁ + RADIO E TELEDIFUSÃO. Mas é contra os mais de 500 mil trabalhadores do meio musical, contra usuários, contra a educação. Ninguem pediu aos musicos e compositores abrirem mãos de seus direitos, mas sim foi pedido aos editores e gravadoras que parem de querer dominar e lucrar sobre tudo e todos!!! A lei precisa ter equilibrio de interesses. Por favor pare de desinformar! Chega de sofismos!

  • Du Oliveira, 28 de fevereiro de 2011 @ 0:35 Reply

    Comentários em caixa alta: “O MinC iniciou as consultas públicas para a reforma da lei, impondo a gestão de licenciamento de música por meio de “creative commons”, (ONDE VC VIVEU DURANTE OS ÚLTIMOS OITO ANOS, CIDADÃO? A LEI DO DIREITO AUTORAL ESTÁ EM PLENA VIGÊNCIA! NADA FOI MUDADO!!) desconstruindo o sentido de autoria, antes mesmo do estabelecimento de um marco legal para o uso da internet.” (NÃO HÁ NEM NUNCA HOUVE A ADOÇÃO, POR PARTE DO GOVERNO LULA, DE NENHUM TIPO DE SISTEMA DE GESTÃO DE DIREITO AUTORAL – NO CAMPO DA MÚSICA – ADVINDO DE QUALQUER OUTRO PAÍS!!)

  • sonia ferraz, 28 de fevereiro de 2011 @ 8:44 Reply

    A criação é a celula mater do Direito de Autor, evidente que merece total proteção e adequação da legislação diante das novas Tecnologias, portanto uma revisão da Lei será suficiente e nao uma nova Lei.
    No que tange a Licenças Compulsórias cada caso deve ser criteriosamente analisado, pois havendo interesse público, entendo que a Constituição Federal tem previsão legal para se pleitear o interesse.
    Não podemos também admitir os abusos cometidos por herdeiros que muitas vezes engessam um projeto cultural diante da abusividade do exercício do direito , razão pela qual tais fatos merecem intervenção legal.
    O criador pode ceder seus direitos total ou parcialmente, entretanto o abuso está nas cláusulas leoninas impostas pela ganância empresarial. A abusividade deve ser combatida como no Código de Defesa do Consumidor, assim um claúsula leonina poderá ser decretada abusiva e anulada protegendo desta forma o criador.
    Sonia Ferraz advogada ( direitos intelectuais) soniamgferraz@hotmail.com Rio de Janeiro – RJ

  • Carlos Henrique Machado, 28 de fevereiro de 2011 @ 10:00 Reply

    Vale reler o artigo abaixo, de Fabio Rios, publicado aqui mesmo no Cultura e Mercado.

    OS PODERES SUPREMOS DO ECAD.

    sss://culturaemercado.com.br/opiniao/pontos-de-vista/os-poderes-supremos-do-ecad/

  • John Dekowes, 28 de fevereiro de 2011 @ 10:31 Reply

    Eu participei dos Seminários “Os Direitos autorais no Século XXI” e confesso que até hoje não consegui ver nenhuma realização daquilo que foi conversado… Entra ministro, sai ministro e o tema Direitos Autorais continua o mesmo tabu. Não é só a situação dos compositores cujos direitos se perdem nas instancias do tempo, e nunca conseguem reaver seus direitos autorais. O ECAD é o bicho papão! A internet facilitou ao artista divulgar a sua arte, seja ela de qual gênero for, mas em contrapartida, tolheu-lhe de alguns direitos. Acho que o Brasil deveria primar por uma Lei de Direitos Autorais propria, defendendo seus autores e artistas contra a hipocrisia estrangeira, depois sim, abranger a Lei à globalização. É assim lá fora. Precisamos resguardar primeiramente, nossos interesses culturais. Discutir bastante para se chegar a um consenso único pela preservação e completo apoio ao nosso artista. Se deixar-mos a industria se apropriar dos direitos autorais do artista, para que ficarmos discutindo sobre o “defunto morto”?

  • Alexandre Brito, 28 de fevereiro de 2011 @ 12:27 Reply

    .
    é interessante ler as falácias que exalam do discurso pró manutenção do sistema atual Ecad e congêneres. a Ministra administra interesses escusos, e indefensáveis. acusam de “laranjas” o Creative Commons como se as instituições atuais, administradas por ex-executivos das gravadoras internacionais não fossem exatamente isso. o creative commons, como muito bem explicitado na matéria do jornalista Hermano Viana no jornal O Globo em

    sss://dilmanarede.com.br/ondavermelha/noticias/imprecisoes-em-coluna-no-globo-hermano-vianna-comenta-criticas-ao-creative-commons

    cria um marco legal para o setor, dentro da legislação “brasileira” e só aplicável a partir desta. parece que a estratégia é confundir a opinião pública, e os desinformados de sempre, com uma espécie de cortina de fumaça, tentando assim ocultar as verdadeiras intenções deste grupo representado pela atual Ministra. é preciso levantar o manto da hipocriasia e da má fé para revelar o que está por trás de tudo: manter o sistema atual.

  • Carlos Henrique Machado, 1 de março de 2011 @ 13:09 Reply

    Racha agita área de direitos do Minc
    Estadão – SP, por Jotabê Medeiros, em 01/03/2011

    Servidores ameaçam demitir-se em protesto contra saída de Marcos Souza, da direção de Direitos Intelectuais

    Um racha atingiu ontem a Diretoria de Direitos Intelectuais do Ministério da Cultura em Brasília. A internet foi tomada com diversas manifestações de protesto pela exoneração do diretor da área, Marcos Alves de Souza. O imbróglio deve se radicalizar: 16 pessoas ameaçam afastar-se daquele setor do ministério nos próximos dias, segundo informações obtidas pelo Estado.

    O Ministério da Cultura ofereceu a Souza, especialista jurídico em direitos de autores e um dos principais consultores do novo anteprojeto da reforma da Lei de Direitos Autorais, a possibilidade de assumir outra função na Diretoria de Direitos Intelectuais, mas ele recusou. Em seu lugar, foi nomeada a advogada carioca Marcia Regina Vicente Barbosa, de 56 anos, que integrou o Conselho Nacional de Direito Autoral (CNDA) entre 1982 a 1990. Advogada da União, Marcia foi integrante da Consultoria Jurídica do Ministério da Cultura, de 2006 a 2010, e integra a Consultoria Geral da União desde maio de 2010.

  • Luiz Carlos Garrocho, 1 de março de 2011 @ 17:40 Reply

    O que mais me preocupa é que a ministra ignora completamente toda uma consulta, toda uma participação nacional. E prefere contratar uma advogada do ECAD, além de ouvir os “especialistas” que o defendem. Inacreditável o retrocesso no Minc! Quando Gil chegou ao Minc lá estava o leme: “cultura é um bom negócio”. Lutou com armas limpas – a mobilização, a discussão, a consulta etc. – para uma nova concepção de cultura. Voltamos ao “cultura é um bom negócio”?

  • Ex-epígono, 2 de março de 2011 @ 0:30 Reply

    O que é preciso fazer é concentrar o movimento contra a Ana de Hollanda e seu MINC/ECAD num lugar só. Num site de um ponto de cultura ou algo assim, porque a discussão tá muito dispersa e não ganha força por causa disso.

  • Bruno Cava, 3 de março de 2011 @ 10:30 Reply

    Só espero que o MinC não esteja gastando com advogado, porque adotou uma assessoria jurídica grátis, o ECAD.

  • Flávio Paiva, 4 de março de 2011 @ 10:03 Reply

    Sobre o questionamento quanto à veracidade do seguinte trecho do meu artigo: “O MinC iniciou as consultas públicas para a reforma da lei, impondo a gestão de licenciamento de música por meio de ‘creative commons’”… embora esse questionamento tenha sido feito de forma grosseira e anônima, gostaria de esclarecer (em respeito aos leitores do Cultura e Mercado) que essa informação está na página 18, do documento “Diretrizes + Ações da Política Cultura – 2005” do MinC, no trecho que trata de “Cultura Digital (SPP, SPC, GM)”. O referido documento apresenta literalmente o seguinte, como uma das Ações Estratégicas a serem implementadas: “Gestão de licenciamento de música através de ‘creative commons’…

  • Livia, 15 de março de 2011 @ 8:05 Reply

    BOM, JÁ O O PROJETO DE LEI ESTÁ PARADO PARA MAAAIS DISCUSSÕES, ENTÃO ACHO QUE É HORA DE SE PARAR DE PAGAR O ECAD, ATÉ ESTAS DISCUSSÕES SE FINALIZAREM!

    O MAIS JUSTO, NÃO É MESMO!?!??!

  • Manoel J de Souza Neto, 29 de março de 2011 @ 21:07 Reply

    Caro Flávio, mas que pesquisador é você?

    Ou mente ou não sabe o que fala… o documento que você cita “Diretrizes + Ações da Política Cultura – 2005” do MinC, no trecho que trata de “Cultura Digital (SPP, SPC, GM)” foi fruto de debate com a sociedade civil. Portanto citar o CREATIVE COMONS por esta fonte é que nem o Bush afirmando que existiam armas de destruição de arma no Iraque, porque alguem disse… Qualquer pessoa que esteve no colegiado e/ou na conferência nacional de cultura pode ter dito esta frase. A diretrizes foram feitas pela sociedade em conjunto e serviam de consulta para o MINC. Portanto, porque alguem disso isso em meio a multidão dos 55.000 pessoas que participaram de tais atividades, não quer dizer que o MINC disse isso. Me responda uma pergunta, você ganha do ECAD da Ana ou faz este papel de graça? Abraço

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