Nenhum burocrata deste País moderno e selvagem consegue entender que artista precisa pagar condomínio e comprar comida, como todos, todos os meses. Nenhum empresário deste País muito jovem e muito velho consegue entender que sem escritores não existe cinema, que sem cinema não existe consumo, que sem consumo não existe história de riquezas. Só miséria e bolsa família.
O teatro brasileiro se profissionalizou há menos de 100 anos e ainda é amador e a música, com vantagens operacionais extraordinárias sobre as outras linguagens, de recepção e sobrevivência, industrializada no Brasil há mais de 100 anos, ainda não deu paz aos criadores de uma das músicas mais fecundas do Planeta…
Nas duas últimas décadas o Estado democrático brasileiro viveu dois modelos de governo com propostas diversas, apesar de tão semelhantes, oito anos de estado mínimo e quase oito anos de estado máximo, e nos dois as questões dos artistas e da arte não chegou, sequer, à modernidade. Estão medievais. A fragilidade da Lei Rouanet, cópia de um modelo que não diz respeito a um país onde os empresários gostam de tudo, exceto de arte, citam todos os modelos e marcas, exceto autores e artistas, está exposta nas falcatruas da Fundação Sarney. A Fundação Sarney, a Associação dos Amigos do Bom Menino das Mercês e o Instituto Mirante são candidatos a beneficiários de muito da verba cultural que chegou ao Nordeste nos últimos anos. Como a arte e a cultura maranhenses não explodiram nacional ou internacionalmente, há podridão cultural nos projetos, nos patrocínios e, sobretudo, na família Sarney, blindada na CPI da Petrobras por esse bate-boca senatorial vergonhoso que foi mostrado. Será que os patrocínios da Petrobras aos negócios da família Sarney se submeteram aos editais?
Existem legislações para proteger algumas profissões, das artes cênicas, por exemplo, mas a distância entre o cotidiano do estado e os artistas brasileiros é abismal. Nos currículos escolares, os escritores são os clássicos de sempre, como José de Alencar, que está lá não como um clássico romântico do século XIX, mas como um escritor brasileiro que se deve ler, obrigatoriamente, para exercitar a leitura. É impossível optar pela leitura lendo José de Alencar, e não existe uma política pública inteligente federal, estadual ou municipal que inicie os brasileiros no contato com os livros.
Para uma população distante da arte, com uma educação declaradamente ruim, entregou-se o poder de decisão sobre o consumo artístico ao vale-cultura e como não existem políticos com perfis humanistas, como os políticos brasileiros não consomem arte nem sabem o que ela significa, não se pode esperar do Poder Legislativo mudanças expressivas para a área. Pensando em 2010, como todos, precisamos de estratégias para escolher o próximo Ministro da Cultura, os secretários de estados e municípios da cultura, e eleger representantes no Congresso com o poder da nossa voz.
Apesar da nossa aparente fragilidade, nós somos a força.
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