Vivemos hoje no tempo da convergência digital e da integração de várias mídias: o rádio, a televisão, os livros, as revistas e a Internet transformam-se gradativamente num objeto único. Todos esses meios são reorganizados de modo a mudar também as formas de acesso aos bens culturais, de obtenção de informações e de comunicação.

Hoje, com um pequeno aparelho que carregamos no bolso podemos nos comunicar com o mundo, tirar e armazenar fotos, fazer filmes, ouvir música e receber/enviar todo tipo de mensagem.  Em função disso, para muitos há um fosso entre as práticas pedagógicas implementadas na escola e a formação da sensibilidade desse indivíduo sintonizado com esse universo de mudanças velozes. O uso quase absoluto do celular, por exemplo, implica uma profunda mudança tecnológica e cultural. 

O novo contexto de relações e de conexões, que surge a partir daí torna-se um desafio para o cotidiano escolar. Não somente porque os jovens se socializam cada vez mais em função dessa segunda natureza, que são as novas tecnologias, mas porque muitos de seus efeitos – formas de escrever, mudanças na percepção do tempo e do espaço e novos formatos culturais – não condizem mais de maneira geral com a estrutura atual da escola. Tudo se torna obsoleto muito rapidamente. O próprio e-mail, dizem, em breve será obsoleto, pois tudo será feito através do celular.

Até há pouco tempo existiam espaços institucionalizados e posturas mais evidentes para se desfrutar uma obra de arte: o palco e a galeria, o recinto cinematográfico e o museu, a biblioteca e o sofá da sala. Hoje esses espaços se diluíram, são móveis, pois podemos estar em todos os lugares ao mesmo tempo e desenvolver várias atividades simultaneamente.  Ser internauta amplia as possibilidades de se ser leitor, espectador, escritor e produzir conteúdos em geral. As redes virtuais alteram os modos de ver e de ler, as maneiras de se fazerem amizades ou estabelecer relações amorosas.  Circulamos por infinitas partes. Falta-nos, contudo, a sensação de um todo único, um conjunto final composto por todas as partes isoladas. Para Werthein (2000), algumas conseqüências indesejáveis seriam o desemprego tecnológico, a desqualificação do trabalho, a perda de comunicação interpessoal e grupal, a perda do sentido de identidade e o aprofundamento das desigualdades sociais. Umberto Eco, num tom mais incisivo, afirma que a contradição maior está na abundância de informação irrelevante e na dificuldade em selecioná-la. Dispomos de toda informação, mas não sabemos qual é confiável e qual é equivocada. Desse modo, essa velocidade pode provocar a perda de memória. E frisa “a memória é nossa identidade, nossa alma. Se você perde a memória hoje, já não existe alma; você é um animal”. 

A Ecologia, por exemplo, tenta a todo momento convencer os poderosos do mundo com esta verdade básica: tudo está associado a tudo. E nos aponta a opção da escolha de caminhos visando à utilização de recursos sempre renováveis. Por isso a destruição de parte da biodiversidade pode levar a catástrofes imprevistas. O mesmo pode acontecer com as tradições culturais.

Nestor García Canclini, em sua obra Culturas Híbridas, faz um alerta contra a globalização que subordina, discrimina e exclui culturalmente comunidades inteiras. Como alternativa, ele vislumbra um mundo de intensas trocas culturais, cosmopolita e transnacional, que valorize a diversidade e a pluralidade de expressões. E conclama que as escolas comecem a utilizar com criatividade os produtos das novas mídia em sala de aula, contribuindo para a formação de uma audiência crítica.

Nesse contexto vale ressaltar um conceito-chave da mídia atual: a interatividade. Para o internautas, as diversas fronteiras antes muito sólidas, agora se desmancham no ar, sobretudo aquelas entre épocas e culturas, entre espaços geográficos e disciplinas do saber.  A interatividade da Internet desterritorializa. Passamos a nos sentir habitantes do mundo, sem fronteiras e sem raízes. Constroem-se grupos, tribos, com gostos ou predileções semelhantes, através da sociabilidade da rede. Por outro lado, essa sociedade fluida pode levar a uma perda irreparável das referências simbólicas de nossos próprios territórios, tão fundamentais em nossa relação com o próximo e com o mundo.

A importância da arte não está somente em preparar o indivíduo para o mundo pós-moderno da imagem e da comunicação visual, mas, sobretudo, em desenvolver em cada um a sensibilidade para o que há de mais humano, mais profundo e mais necessário para uma vida feliz.

Segundo Guy Debord, autor de Sociedade do Espetáculo, a contestação do capitalismo moderno se daria pela realização da poesia: a palavra livre, a comunicação verdadeira e não mais unilateral e manipulada, a recusa do trabalho produtivo como trabalho produtivo, a recusa igualmente da hierarquia, de toda a autoridade e de toda especialização. O homem libertado não será mais o homo faber, mas o artista, quer dizer, o criador das suas próprias obras. A revolução será, portanto, um ato de afirmação da subjetividade de cada um no terreno da cultura, que é o terreno mais vulnerável da civilização moderna. Uma vez que é a arte que revela em primeiro lugar o estado de decomposição dos valores.

Poderia então a prática da arte exercer nesses nossos tempos uma função decisiva no processo de aprendizagem tradicional, no sentido de estimular a capacidade de discernir, avaliar, separar e escolher, para que se formem sujeitos autônomos e emancipados?

 


Gestor Cultural, diretor de teatro, dramaturgo e tradutor. Foi gerente na Secretaria de Políticas Culturais do MinC e é sub-secretário da cultura do Espírito Santo.

1Comentário

  • Fernanda Thome, 23 de outubro de 2008 @ 6:39 Reply

    Incrível. A participacao da arte no indivíduao permite nao só uma visao mais rica e ampla da sua e de outras sociedades, mas também de si próprio. Dessa forma, promove-se a individualiade e a diversidade cultural e o respeito e compreensao das diferencas.
    Viva a Cultura!

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