Fenômeno político que exerceu enorme influência em alguns países ao longo do século XX foi analisado por diversos estudiosos. Antonio Gramsci, Leon Trotsky, Otto Bauer, Paul Sweezy e Ernest Mandel foram apenas alguns daqueles que tentaram compreender suas características. Entre os teóricos é fundamental o olhar latino-americano de José Carlos Mariátegui, um dos primeiros a observar e acompanhar de perto os eventos ocorridos na Itália, além de tentar proporcionar uma interpretação precisa e acurada deste movimento singular, quando era jornalista e escrevia para um jornal peruano.

Mariátegui, em busca de um clima mais adequado para sua frágil saúde, mudou-se para a Itália em 1919 e encontrou um país marcado por várias experiências históricas. O Risorgimento possibilitara uma unidade geográfica, construída e idealizada pela burguesia italiana, que deixou de lado o elemento popular. A contínua fratura do norte desenvolvido e do sul agrário e dependente – o ponto nevrálgico da estrutura econômica do país – manteve-se praticamente intacta durante toda a segunda metade do século XIX. A Itália, unida a partir do ideal cultural mazziniano através do ímpeto diplomático e militar de líderes políticos e revolucionários, como o Conde de Cavour e Giuseppe Garibaldi, ainda não atingira a maioria da população, que não falava o italiano ainda e preferia dialetos regionais.

O revolucionário peruano mostra em seus artigos, agora reunidos neste livro, que o Estado italiano surgido do Risorgimento era politicamente fraco, conservador e burocratizado e mantinha quase que inalteradas as relações e os compromissos entre a burguesia e os setores latifundiários. A Itália aparecia no cenário europeu sem força política, militar ou econômica diante das grandes potências industriais europeias. Porém uma força avassaladora estava para tomar o país: o fascismo de Benito Mussolini. Nesta série de ensaios que o revolucionário peruano Mariátegui publicou na época, agora reunidos pelo historiador Luís Bernardo Pericás, vemos o fascismo crescer e se tornar a maior força política da Itália.

Ao lado das inclinações de restauração do tipo tradicional do Estado autoritário, também enfatiza agudamente os aspectos ideológicos do fascismo.  Assinala, neste sentido, o papel antecipador do poeta Gabriele D’Annunzio dentro das correntes irracionalistas do pós-guerra.  Ao mesmo tempo destaca sua marginalização no momento em que o fascismo revela seu conteúdo violentamente classista.  No caminho entre o céu da retórica poética e a terra firme, o movimento conserva apenas os elementos exteriores do d’annunzianismo e se propõe como núcleo de agregação de todas as forças reacionárias.

Daí o surgimento do Partido Comunista, ao que Mariátegui assiste pessoalmente, saudando-o como uma possível alternativa e chegando até mesmo a lançar a previsão de um enfrentamento final entre o fascismo e a nova força revolucionária.  Depois da experiência do regime autoritário e da incapacidade de organizar uma autêntica oposição, conclui que não resta espaço para as forças demoliberais tradicionais.

O fenômeno fascista é enfocado sempre dentro de seu contexto europeu.  Os traços peculiares de sua manifestação italiana, portanto, não o impedem de perceber uma tendência mais geral à agregação das forças reacionárias que abarca, de formas diferentes, em vários países do velho continente.

Sobre o organizador: Luiz Bernardo Pericás é doutor em História pela USP, pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México) e História pela Universidade do Texas. Autor de Che Guevara e a luta revolucionária na Bolívia e Um andarilho das Américas.

As origens do fascismo

Autor: José Carlos Mariátegui
Tradução e organização: Luiz Bernardo Pericás
Editora Alameda


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

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