A identidade cultural de um povo é geralmente reconhecida por seus elementos unificadores, como território, língua e religião. O conceito passou a ser visto com certa ressalva por formuladores e pesquisadores contemporâneos atrelado ao nacionalismo e utilizado como política de Estados.

A construção do sentido de nação significa, para Zygmunt Bauman, a negação de diversificação étnica e cultural. “O poder, enquanto incorporado na circulação mundial do capital e da informação, torna-se extraterritorial, enquanto as instituições políticas existentes permanecem, como antes, locais. Isso leva inevitavelmente ao enfraquecimento do Estado-nação”.
No plano individual, identidade é condição de cidadania, de conquista de direitos e ciência de deveres. E se a sociedade lhe garante acesso aos conteúdos diversos e liberdade de expressão, pode significar a construção da própria subjetividade, por meio do reconhecimento e valorização dos fatores constitutivos da sua herança cultural, assim como a possibilidade de identificação com outras culturas e modos de vida.
Por outro lado, a globalização deveria potencializar o processo de construção e consolidação de uma identidade própria, legitimada por escolhas e vínculos de herança. Mas como conseguir isso nos dias de hoje?
Talvez o antropólogo italiano Massimo Canevacci nos traga alguma pista, ao decretar “a emergência de uma nova subjetividade que deve ser favorecida e sustentada devido à sua enorme potencialidade da autorrepresentação”.
“A autoridade do antropólogo estava em crise”, declara Canevacci diante de sua surpresa ao se deparar com a presença marcante de grupos indígenas Bororo e Xavante, no Mato Grosso, registrando com câmeras de vídeo os próprios rituais. O antropólogo constrói, a partir dessa constatação, sua incursão teórica em torno da importância da autorrepresentação para o fortalecimento das culturas locais.
Se uma cultura, como construção simbólica, pode ser tecida autonomamente, sem o olhar contaminado pela tradução e mediação de instituições, meios de comunicação e governos, poderá sê-la de forma mais rica e legítima, pois utilizará, para isso, referenciais, mitos e memória afetiva próprios. O acesso às tecnologias digitais suprime definitivamente essas mediações, segundo Canevacci.
Uma característica marcante desse fenômeno é a articulação entre movimentos sociais e de mercado, abolindo completamente a possível dicotomia entre essas duas instâncias, com lógicas e relógios muitas vezes antagônicos. As redes socioculturais tornam possível esse tipo de convivência, talvez por uma espécie de sincretismo presente nas mais diversas instâncias.