Imagem: Desirée Delgado
O debate sobre ecologia chega renovado a grande mídia. O aguardado filme Avatar, de James Cameron, um dos grandes feitos da industria audiovisual, acende ainda mais essa discussão. Entretanto, o que ainda está pouco esclarecido – inclusive em Copenhague – é que a industria criativa pode ser uma alternativa real para o impasse do debate ecológico.

Vamos por partes. Primeiro, o filme. A grande qualidade de Avatar é contrapor o mundo cinza da civilização capitalista ocidental ao mundo colorido e integrado dos índios. Avatar é um libelo ecológico que convence pela visualidade e pela sensação. E é também a industria criativa, de efeitos especiais, a serviço da ecologia e da reintegração do homem com a natureza.

Visualmente, é fantástico. Cameron usa a tecnologia para reproduzir a sensação dos povos que vivem integrados a natureza – o que é digno e traz bons resultados. Mas o enredo do longa carece de um convencimento racional. Falta um argumento importante na hora que eles debatem:  porque não destruir a floresta?

No filme, a antropóloga fala da rede em que vivem os índios, que lhes dá acesso a todas as arvores, mas não cita economia. Só quem fala do assunto é o “capitalista” que destruirá tudo para pegar minério. Aí o debate ecológico fica antigo e cai na velha oposição entre ser “ambicioso” e “capitalista” e ser “bonzinho” e “ecológico”. O ecológico fica sendo um empecilho ao desenvolvimento e a geração de riquezas. E isso está longe de ser verdade.

Cameron – tal como o padrão da política externa americana –  parece não saber que a ecologia, a questão de defesa da floresta já é, também, uma questão econômica. O conhecimento indígena e a biodiversidade da floresta são o maior patrimônio cultural e “financeiro” do planeta. Tem valor inestimável. Qualquer planejamento econômico de médio prazo, menos imediatista, menos bronco, tentaria estabelecer comunicação real com os índios e iria preservar a floresta também para aumentar a riqueza. E uma riqueza biologicamente sustentável.

Enquanto isso, em Copenhague, vemos Serra e Dilma sendo obrigados a se adequar a pauta ecológica. É bonito de ver. Dois desenvolvimentistas clássicos tendo que pensar pela primeira vez em ecologia, mesmo que de forma tacanha.  Em parte, como Cameron. Pensam na defensiva, considerando a ecologia como algo necessário, apenas, para  não destruir o planeta.

Em seu discurso em Copenhague, Dilma comete uma gafe histórica e le mal o texto que devia ter sido melhor decorado, dizendo: “o meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável…”. A fala demonstra claramente a parca familiaridade da ministra com o discurso ecológico. Mas, ao menos, é interessante ver os candidatos compreendendo que não é mais possível não pensar em ecologia.

Dilma e Serra, tal como Cameron, terão que entender que a ecologia não se contrapõem ao progresso: é uma nova forma de desenvolvimento econômico que, a curto prazo, poderá realocar investimentos, mas que a médio prazo irá gerar mais riquezas do que o esperado. Patentes de biodiversidade e ecoprodutos podem ser a saída mais eficiente para um desenvolvimento econômico real em nosso país.

Infelizmente, os próprios ecologistas ainda não entenderam a importância disso. Focam todos seus esforços em “obrigar” países de primeiro mundo a frear o progresso, e se dedicam pouco (ou às vezes nada) a mostrar reais alternativas de desenvolvimento sustentável que não destruam a natureza.

Mais do que pedir eternamente para que os poderosos sejam “bonzinhos”, devemos sair da vibração de mendigos pedintes e entrar na vibração de altivos empresários ecologicamente responsáveis. Chegou a hora de parar de reclamar e começar a agir. Se conseguirmos mostrar como o desenvolvimento sustentável é uma alternativa real de geração de riquezas, aí sim a ecologia terá conquistado seu espaço.

Somos nós, dos países de terceiro mundo, que devemos mostrar que é possível criar novas alternativas de organização econômica e desenvolvimento, que possam ganhar cada vez mais mercado e, com isso, gerar alternativas efetivas  para uma vida ecologicamente correta. E o Brasil pode ser a vanguarda desse novo paradigma, no qual entram com GRANDE IMPORTANCIA as indústrias criativas e artísticas, que são (ou deveriam ser) diretamente ligadas a ecologia.

Tais industrias são importantes na busca por alternativas de vida ecologicamente corretas, antes de tudo, pois podem fazer como o filme Avatar: plantar no público esse sonho, essa alternativa. Quando as pessoas se derem conta que existem alternativas reais para a vida, elas poderão começar a lutar por ela.

Em segundo lugar, a industria criativa – seja ela de artesanato com produtos naturais ou de audiovisual de ponta, como no filme de Cameron – pode ser, ela própria, uma alternativa real para o desenvolvimento sustentável. Nem todos podem ser militantes ecológicos e ganhar salários para lutar pela causa, mas todos podem ser empresários ou consumidores ecologicamente corretos.

Uma coisa que Avatar mostra bem é como é bom viver de forma ecológica. A vida dos “primitivos” é muito mais divertida do que a vida dos desenvolvidos, que ficam sempre presos em salas escuras, cercados de obsessão pelo poder. Essa vida, que a maioria de nós ainda vive, é muito chata. Ser criativo e ecológico não é apenas uma questão política. Não temos que ser ecológicos apenas para salvar o planeta. Temos que ser ecológicos pois estamos cansados de viver presos dentro de salas escuras em uma procura incessante por riquezas imediatas.

A tristeza é que a maioria dos candidatos políticos em que votaremos em 2010 ainda estão na era pré-ecológica. Começaram tardiamente a perceber que existe ecologia e ainda não entenderam a importância, inclusive econômica, das indústrias criativas. Chegou a hora da ONU – ou de quem for – fazer uma Copenhague das industrias criativas, aonde sejam apresentadas alternativas reais de desenvolvimento sustentável.

A produção artística e as industrias criativas podem sim fazer muito pela ecologia. Muito mais do que filmes que defendem a causa, elas podem ser a própria solução para a geração de produtos ecologicamente corretos e para o surgimento de um ciclo de desenvolvimento sustentável.


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Cineasta e escritor. Foi Secretario do Audiovisual do Ministério da Cultura. É presidente da Associacão Brasileira de Roteiristas.

7Comentários

  • Avatar, o filme, assita e reflita | Revista Meio Ambiente, 29 de dezembro de 2009 @ 12:46 Reply

    […] Fonte: Cultura e Mercado […]

  • “Avatar” e Copenhague: como a produção artística pode salvar a ecologia « Sebo República das letras, 5 de janeiro de 2010 @ 10:26 Reply

    […] sss://culturaemercado.com.br/ideias/avatar%E2%80%9D-e-copenhague-como-a-producao-artistica-pode…   […]

  • Dayse Cunha, 6 de janeiro de 2010 @ 19:32 Reply

    Ótimo seu comentário. Sou Ecodesigner, com atuação tanto no universo corporativo quanto no sociocultural. Embora Copenhague tenha sido um quase fiasco. Cabe a Arte do novo milênio a ligação da humanidade com a unica alternativa possível para a reformulação da história contemporânea: Ecologia.
    Dayse Cunha
    http://www.integraurbana.no.comunidades.net

  • Fausto, 10 de janeiro de 2010 @ 23:52 Reply

    A beleza do texto pode transmutar-se em ação imediata e, só depende de cada um de nós. Todos sabem o que fazer para consumir e agir de forma mais consciente, o que implica em usar mais os músculos e também exercitar a mente, ou seja, em nos tornarmos mais saudáveis. Uma Nova Economia (sustentável) não será fruto da maquinação de astutos grupos econômicos, mas da adaptação desses grupos frente às necessidades produzidas por um novo tipo de consumidor, que exige um futuro vivo e pleno. A cultura realmente se insere como elemento motor primordial dessa transformação, quer em obras audiovisuais, literárias ou filosóficas. A única estrada que leva ao futuro, passa obrigatoriamente pela cultura.

  • Paula, 12 de janeiro de 2010 @ 10:07 Reply

    Concordo plenamente que a produção artística pode auxiliar no processo de transformação da nossa sociedade. Ainda mais se pensarmos na valorização da cultura local como uma nova forma de pensar e agir. Porém, talvez seja o momento de começarmos a pensar melhor no que os ecologistas estão falando, pois não basta agirmos de uma forma “mais ecológica” e considerarmos que não é um freio para o desenvolvimento, precisamos ir além do superficial e refletirmos que os problemas ambientais de hoje não serão resolvidos por indústrias mais verdes, mas quando questionarmos as verdadeiras causas, como o egoísmo e o individualismo, a ânsia por dinheiro a qualquer preço, a exploração do homem sobre o homem e sobre a natureza, entre muitos outros, que são princípios do capitalismo.

  • Laercio, 14 de janeiro de 2010 @ 8:03 Reply

    Parabéns Newton!

    Adorei o texto. E concordo plenamente.

  • Badah, 15 de janeiro de 2010 @ 23:19 Reply

    Acabei de assistir o filme, pouco antes de ler o artigo. Adorei ambos, mas ainda não estou convencido da tese de que a indústria criativa ou até mesmo a arte (em sua atual situação) podem gerar ou estimular desenvolvimento sustentável. A política poderia ser esse caminho, mas pelo fiasco de Copenhague, parece que até agora também não é. Não acho que o capitalismo seja “evil” como foi apresentado no filme, acho que simplesmente ele não foi projetado para gerar equilibrio. Desenvolvimento sustentável me soa algo como “equilibrio no desequilibrio”. Não sei se isso funciona. Mas sei que a essa altura do campeonato, nem os marxistas mais fervorosos estão mais dispostos a tentar outra alternativa fora do sistema estabelecido. Como eu não sou tão fervoroso assim e nem quero poder deixar de assistir meu cineminha 3D para ir viver no mato, vou continuar esperando ansiosamente pelo colapso, enquanto assisto Matrix, Wall-e e outras belas obras cínicas. Não boto muita fé na economia criativa como instrumento de mudança, mas no colapso, esse sim, dele não passamos sem mudar a relação com o meio. Avatar tem seu mérito por quase me fazer querer ir viver no mato. Mas daí como é que eu vou poder assistir Avatar 2?

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