O conhecido Festival de Avignon, na França, está na sua­­­­­­­­ 72ª edição e acontece todos os anos no mês de julho na cidade que leva o mesmo nome do festival

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Photo Christophe Raynaud De Lage

Fundado por Jean Villar, o evento é uma passagem incontornável para artistas das artes do espetáculo franceses e europeus. Estar programado em Avignon é um reconhecimento, um selo de qualidade e uma honra.

O festival oficial conta com cerca de 40 espetáculos programados a cada edição e traz sempre doses de criação contemporânea, de denúncia, de tribuna política.

Paralelamente, o Festival Off acontece em todos os outros cantos culturais da cidade, voltado a ser uma espécie de vitrine para curadores do mundo todo que vêm para assistir à uma programação intensa de cerca de 1500 espetáculos durante 18 dias.

Por que falar do festival agora ?

Em 2018 o fio condutor da programação foi o “Gênero” e tudo que está ligado ao tema. O gênero foi anunciado como assunto central de uma parte das peças escolhidas para estarem presentes na programação. Uma programação dita violeta e feminista, com presença de 45% de mulheres” foi o que anunciou com orgulho Olivier Py, diretor do festival, encabeçando há 5 anos a curadoria.

 

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Siegfried Forster / RFI

     « Senhoras e senhores e todos os que se definem de outra forma, bom dia! Vocês sabem que violeta é a cor dos bispos, mas também é a do feminismo”– referindo-se à cor escolhida para a identidade do festival deste ano.

 

 

Artistas mulheres chamaram atenção nas redes sociais para o fato de que os tais “45 %” entravam numa conta geral, notou-se alguma divergência entre as estatísticas apresentadas e a realidade do programa quando se procurou autoras, dramaturgas e diretoras.

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O atual movimento por igualdade entre mulheres e homens na cultura e nas artes na França, promovido por associações como H/F, têm buscado enfatizar mulheres em postos de liderança, ou seja: dirigindo teatros, sendo curadoras de festivais, dramaturgas ou diretoras de teatro etc. Estes grupos e pessoas ligadas a eles e à Sociedade de Autores começaram a questionar a bandeira do festival.

Na França, como na Europa, no mundo, e até aqui no Brasil muito têm-se discutido sobre feminismo, gênero, sexismo, na vida e na arte. Ficou clara a tentativa de narrativa, de criação de uma pseudo–verdade proposta pela curadoria do festival.

Fazendo as contas, finalmente apenas 18% de mulheres são autoras este ano. O festival apresenta uma programação escrita por homens, dirigida por homens, pensada por homens que dizem estar trazendo as questões de gênero para a pauta.O que além de uma discrepância sugere má-fé, no mínimo.

Photo P.Gély
Photo P.Gély

Os números foram levantados por artistas mulheres ligadas aos movimentos por igualdade de direitos.

Chocadas, as francesas resolveram se manifestar em pleno festival. Diante do Palais des Papes (Palácio dos Papas), o coração do festival, mulheres do teatro mas também do circo e da dança, se manifestaram lendo um manifesto/ carta de repúdio.

Outras fizeram uma marcha silenciosa, algumas aparições mais radicais e irreverentes, outras organizaram discursos disfarçados de leituras.

A omissão dos meios de comunicação franceses sobre o assunto, ficou ainda mais escandalosa quando o The New York Times denunciou o acontecido.

 

 

Captura de Tela 2018-07-24 às 20.47.33“A falta de paridade no teatro francês não é algo novo, mas Olivier Py,de forma inoportuna, chamou atenção para as suas próprias lacunas escolhendo para esta edição do festival o tema global do Gênero” – The New York Times

 

 

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Carole Thibaut em Avignon 2018

“Este ano a programação de teatro representa 89,4% de artistas criadores homens  ( dramaturgos e diretores) para 10,6% de artistas criadoras mulheres. O esmagamento de mulheres feito por homens é o primeiro crime contra a humanidade. Ele produz milhões de assassinatos a cada ano. É um crime que se perpetua há milênios, que continua em toda parte e encontra raízes infelizmente aqui também, nestes espaços sagrados do teatro que deveriam ser ao contrário, os lugares sagrados da palavra livre e emancipadora”

 

-   Trechos do texto lido e escrito por Carole Thibault, dramaturga e diretora teatral,
diretora do Centro Nacional Dramático Théâtre des Îlets- de Montluçon

O fato é que, como sempre, muitos surfam no feminismo como narrativa de promoção, e isso deve ser rechaçado como fizeram estas mulheres de teatro em Avignon; é inadmissível.

A pouquíssima presença de mulheres encabeçando projetos mostra uma grave hipocrisia que parece-me, transcende fronteiras no que diz respeito ao sexismo.

Por aqui, temos os mesmos problemas, tanto em festivais como em premiações, basta olhar as programações e indicações e fazer as contas.

Nos falta no entanto, acordar e reagir.

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— Link para o Discurso de Carole Thibault na integra.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


contributor

Produtora e gestora cultural. Formada em Mediação Cultural pela Université Paris-est Marne la Vallé, em Paris, e em Gestão Cultural pelo Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc SP. Trabalhou em instituições culturais na França e no Brasil e foi coordenadora da OSCIP Projeto Quixote.

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