Ana Carla Fonseca Reis demonstra o potencial de negócios das indústrias criativas e analisa porque no Brasil esse setor ainda não está se desenvolvendo

“Instituições financeiras com lucros crescentes buscam oportunidade de negócios.” Fosse esse um anúncio nos classificados, receberia de pronto um candidato imbatível: as indústrias criativas. Não, não se trata de uma nova categoria organizacional, nem tampouco de um termo cunhado pelos gurus da administração. Conceito de contornos fluidos, as indústrias criativas são normalmente entendidas como as que ofertam produtos ou serviços com valor simbólico (essencialmente cultural) e também econômico (embasado em propriedade intelectual). Incluem-se aí não somente as indústrias culturais (audiovisual, livro, publicações periódicas, fotografia) mas também moda, design, software, artes e antigüidades e, quiçá, propaganda e arquitetura.

Soa interessante mas pouco palpável? Pois vamos aos fatos. Segundo a International Intellectual Property Alliance, as indústrias de copyright continuam sendo uma força motriz da economia americana, representando direta ou indiretamente nada menos que 12% do PIB do país (ou US$1,25 trilhão, em 2002). No Reino Unido, onde Tony Blair cunhou a expressão “Creative Britain” em 1997 e alinhou as políticas públicas e de parceria privada para impulsionar as indústrias criativas, os números são de arrancar suspiros em economias em desenvolvimento. Em 2002 o setor representou 4,2% de todos os produtos e serviços exportados (£11,4 bilhões). Entre 1997 e 2003, a taxa de crescimento da contribuição das indústrias criativas à economia foi em média 6% ao ano, atingindo em 2003 a cifra nada desprezível de 8% do PIB. Entre 1997 e 2004 a taxa de criação de empregos nas indústrias criativas foi de 3% ao ano, percentual impressionante quando comparado ao 1% do total da economia e também em termos absolutos: 1,8 milhão de empregos, em 2004.

Não é de estranhar, portanto, que o objetivo do recém-nomeado Ministro das Indústrias Criativas, James Purnell, seja o de transformar a Grã-Bretanha no centro criativo mundial. Tarefa na qual contará com um acirrado concorrente: ninguém menos que a China – e em especial Shanghai, que vem investindo pesadamente para fazer de suas indústrias criativas uma referência de sucesso na próxima década.

Diante desses dados, vemos um enorme filão de oportunidades tentadoras descortinando-se ante os olhos das instituições financeiras no Brasil. Mas, se o setor é tão promissor, o que falta para que o capital sucumba à tentação de explorá-lo, desenvolvendo por decorrência um setor economicamente sustentável? Parte do gargalo reside em um problema de dificuldade de mensuração do risco (e da oportunidade) oferecido por uma indústria criativa. Por um lado, os potenciais pequenos produtores do setor desconhecem o vocabulário financeiro e o modo como devem constituir uma proposta de solicitaçao de crédito. Por outro lado, as instituições financeiras tradicionais nem sempre se sentem confortáveis em analisar a intangibilidade de um negócio criativo, como uma estimativa de geração de propriedade intelectual ou o potencial financeiro do catálogo de autores de uma editora.

Alguns países já estão resolvendo o problema e nos apontam caminhos promissores. O exemplo mais inspirador vem da França, que criou ainda em 1983 o Institut pour le Financement du Cinéma et des Industries Culturelles (IFCIC).  Tendo dentre seus acionistas o Estado, o Oseo Sofaris (banco de desenvolvimento das PMEs) e instituições financeiras privadas que reconhecem o potencial de negócios do setor (como BNP Paribas, HSBC France e Crédit Lyonnais), o Instituto nao concede créditos nem subvenções, mas facilita o financiamento bancário. Aos empreendimentos culturais, o IFCIC prepara o diálogo para a solicitação de crédito, desde que o primeiro contato tenha sido estabelecido com a rede financeira. Às instituições financeiras oferece garantias de 50% a 70% do valor dos empréstimos concedidos às PMEs do setor cultural ou a produtores e distribuidores independentes, em caso de falência da empresa. Em 2004, os compromissos garantidos pelo IFCIC chegaram a €412 milhões.

A ênfase no financiamento às PMEs nao é exclusiva à França. No Reino Unido, 95% das empresas criativas empregam até 10 funcionários, oferecendo uma prova real de que o respeito aos interesses das empresas financeiras e da sociedade em geral não precisam ser conflitantes e podem levar ao bem comum. No Brasil, onde o IBGE revela que 99,2% das empresas do setor formal urbano são micro ou pequenas, as indústrias criativas representam uma oportunidade única de aliar a inclusão social à inclusão econômica, através do desenvolvimento de novos filões de negócios.

Ana Carla Fonseca Reis


Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

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