Abril de 2010. Os estudantes de administração da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Diego Reeberg e Luís Otávio Ribeiro tinham urgência em criar um negócio próprio. Como as ideias proprias “não eram lá muito promissoras” – nas palavras do próprio Diego – resolveram procurar modelos interessantes fora do Brasil.

“Aí a gente conheceu o Kickstarter, referência em crowdfunding no mundo. A gente ficou encantado pelo modelo, pois tinha tudo a ver sobre com a forma que pensávamos que um negócio deveria ter: colaborativo, conectado às mídias sociais e capaz de promover mudanças na sociedade”, conta Diego.

No sul do país, mais especificamente em Porto Alegre (RS), em uma empresa que desenvolve produtos pra web, a Engage, o músico e dançarino de tango Daniel Weinmann pensava numa forma de financiar seus próprios projetos.

Em meados de outubro de 2010, os três se conheceram, por intermédio de um amigo em comum, e uma semana depois estavam juntos para começar o Catarse.

“A gente viu que no Brasil era necessária uma iniciativa como essa, pois vimos que muitos bons projetos não conseguiam obter financiamento e ficavam engavetados por isso. Como uma parte importante do processo é a curadoria, sabíamos que os sites estrangeiros não conseguiriam atuar no Brasil sem uma equipe própria. Então achamos melhor começar isso nós mesmos, com uma plataforma que fosse do jeito que quiséssemos”, explica Diego.

O blog CrowdfundingBR entrou no ar no dia 6 de novembro de 2010 e, em 17 de janeiro de 2011 – há exatamente um ano – nascia o www.catarse.me.

Diego lembra que o blog e o Twitter foram as principais ferramentas para começar a fazer a ideia se espalhar. “No blog começamos a apresentar para as pessoas tanto o que era o crowdfunding, seus benefícios, que projetos já tinham rolado fora do Brasil e por aí vai, além de apresentarmos um vídeo com as primeiras imagens do Catarse, algum tempo antes de ele ir pro ar. Pelo Twitter, procurávamos pessoas no Brasil que já conheciam o modelo lá fora e apresentávamos nossa iniciativa, isso ajudou a trazer bastante gente interessada em fazer algo no Brasil”.

Desafios e metas – Em 2012, a missão do Catarse é a consolidação dos trabalhos, iniciativas e avanços conquistados neste primeiro ano de atuação. A ideia é ampliar a rede, oferecendo novos instrumentos para aprofundar a interação entre apoiadores e realizadores em todo o país.

Um dos vetores chave será o aprofundamento e o desenvolvimento do conceito “Open” da plataforma, que se fundamenta em três pilares: Open Innovation, Open Business, Open Source. O investimento em cooperação internacional também é uma prioridade, já que o Catarse é uma das poucas plataformas de crowdfunding de código aberto do mundo.

“Para que tudo isso aconteça, estamos ampliando a nossa equipe e sabemos da necessidade de aprimorar a nossa comunicação em todos os níveis – tanto pessoais, quanto institucionais. Estamos prontos para participar do avanço do crowdfunding em todos os setores e dispostos a fazer parte dos diálogos subjacentes à esse tema, como a discussão do Marco Regulatório da Internet e o apoio à economia criativa.”

Hoje o Catarse tem 6 sócios e 9 pessoas dedicadas ao site, que agora faz parte do Grupo Comum.

“Talvez o principal desafio hoje seja o da questão do sistema de pagamento. Não há ainda uma solução única e perfeita que se encaixe no modelo de crowdfunding, principalmente porque os sistemas atuais foram feitos mais pensados em ecommerce. Outro desafio é fazer com que mais pessoas conheçam o modelo. Por mais que ele já esteja ganhando corpo depois desse primeiro ano no Brasil, ainda tem muita gente que se beneficiaria dele que não conhece, que não participa”, avalia Diego.

Por outro lado, segundo ele, o principal obstáculo já foi superado: o da desconfiança do modelo. “No começo, muita gente não sabia se o crowdfunding ia pegar no Brasil, se o público aqui estava disposto a apoiar projetos/causas onde não houvesse uma recompensa financeira, mas mais como mecenas mesmo”.

O  Catarse não pretende concorrer com os métodos já estabelecidos de financiamento de cultura, como as leis de incentivo. Pelo contrário, pretende ser uma via alternativa e complementar a esse sistema. Em 12 meses de funcionamento, levantou cerca de R$ 1.607.193, com a ajuda de mais de 15 mil apoiadores espalhados pelo Brasil. Esta quantia viabilizou mais de 145 projetos através da aproximação online entre pessoas físicas e realizadores.

Como funciona – O Catarse funciona de maneira bem simples: o autor da ideia (Realizador) inscreve seu projeto no site. Lá ele diz qual o valor deseja tentar captar, e em quanto tempo (até 60 dias). A inscrição será analisada pela equipe do site, que iniciará um acompanhamento junto ao realizador para compreender a ideia, identificar possíveis melhorias no projeto e avaliar se a mesma se enquadra na proposta do site e do financiamento colaborativo. O Realizador, então, ganha uma página pessoal na plataforma, onde pode comunicar sua proposta e se relacionar diretamente com o público (Apoiadores).

Os indivíduos que se interessarem em apoiar o projeto fazem contribuições financeiras e, em troca, recebem recompensas (não monetárias) do Realizador. Se o projeto anunciado for um filme, por exemplo, os Apoiadores podem receber cópias em primeira mão, ingressos para a pré-estreia, uma tarde na gravação, um jantar com o diretor. O que vale é a criatividade do proponente ao inventar as recompensas, que variam em função do valor apoiado e da natureza do projeto.

O método de financiamento usado no Catarse é o tudo-ou-nada, no qual os projetos precisam ser 100% financiados no prazo determinado para que o realizador receba o dinheiro. Caso contrário, os apoiadores recebem a quantia investida de volta.

As formas de pagamento aceitas no site são: boleto bancário, débito em conta corrente e cartão de crédito (neste primeiro momento só são aceitos cartões de crédito nacionais) e PayPal. Para colocar um projeto no site, não custa nada. Agora, se (e somente se) o projeto for bem-sucedido, o Catarse fica com 7,5% do valor arrecadado que corresponde à taxa administrativa do site. Já o MoIP ou o PayPal (que processam os pagamentos) cobram uma taxa que varia entre 4% e 5,5% por transação.


Jornalista, foi diretora de conteúdo e editora do Cultura e Mercado de 2011 a 2016.

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