“Kickstarter não é uma loja”, afirmava o título de post publicado no blog da plataforma de crowdfunding, a maior do gênero. “É difícil saber quantas pessoas sentem-se fazendo compras quando estão apoiando projetos, mas nós queremos assegurar de que não existe nenhuma”, alertava o texto.

Fundado em 2009 nos Estados Unidos, o Kickstarter alcançou grandes cifras – 2,8 milhões de apoiadores, arrecadação de US$ 368 milhões, somando os mais de 30 mil projetos financiados. O crescimento exponencial, tanto em exposição quanto em número de projetos, fez com que a plataforma se tornasse alvo de críticas sobre a relevância e transparência dos projetos ali hospedados.

O post publicado na semana passada pode ter sido uma resposta a essas críticas. Nele, os idealizadores da plataforma informam algumas mudanças que estão sendo implementadas. Uma delas é a criação de uma nova seção nas páginas de projeto, chamada “Risk and Challenges”, em que os proponentes terão que responder quais os riscos em apoiar o projeto e como ele pretende superá-los. Além disso, na categoria hardware e produto, a recompensa concedida aos colaboradores será limitada em uma por pessoa e o desenvolvedor não poderá apresentar simulações de como será o resultado final do produto.

“[…] o Kickstarter não é uma loja – é uma nova maneira para criadores e público trabalharem juntos para realizar coisas”, afirma o texto. Mais do que doar recursos para que um projeto aconteça, o financiamento coletivo também é uma ferramenta de engajamento. Alguém que está disposto a dar dinheiro para colaborar com uma iniciativa também se sente parte dela.

Por isso que, vindo de uma das vozes mais relevantes neste modelo de financiamento, a afirmação causou uma reflexão sobre o verdadeiro papel das plataformas de crowdfunding – se é que ele existe. Em artigo, o especialista em financiamento coletivo Jonathan Sandlund criticou as mudanças empreendidas pelo Kickstarter. De acordo com ele, elas restringem a decisão do criador e enfatiza mais o produto do que a ideia. “Armada apenas por palavras, desprovidas do poder de visualização, as ideias vão lutar para manterem-se relevantes”, explicou.

Dorly Neto, idealizador do site Benfeitoria, explica que a confiança é uma das forças motrizes do crowdfunding. “Todas as vezes que apresentamos esse conceito para pessoas que não conhecem, a primeira pergunta é: ‘quem garante que o dono do projeto vai realizá-lo, conforme prometido?’ E o bonito dessa dinâmica é que a resposta é: ninguém”, diz ele.

“Se as plataformas de crowdfunding, além da consultoria que prestam e do espaço em sua ferramenta que cedem para os projetos serem publicados, ainda tiverem que funcionar com auditoras do processo, o modelo não fecha – e todo mundo perde”, defende.

Para Rodrigo Maia e a equipe do site brasileiro Catarse, a discussão é ainda mais ampla. Eles explicam que, como um modelo relativamente novo, o crowdfunding ainda está sendo desenhado conceitualmente por todos aqueles que participam de sua cadeia produtiva – gestores de plataforma, apoiadores, realizadores de projeto. Porém, o que é comum a todos é a vontade de se diferenciar do mercado de consumo convencional.

“Ainda estamos entendendo e analisando todas estas nuances que se desenvolvem ao redor do conceito. E o mais legal disso é que acho que todos estão em um processo de aprendizado conjunto”, explicam. Para eles, medidas restritivas, como as implementadas pelo Kickstarter, podem prejudicar essa construção coletiva. “Ao nosso ver, realmente seria muito mais interessante investir em conteúdo, conteúdo que explicasse e expusesse estas questões, tanto para apoiadores quanto para realizadores de projetos”.

É isso que eles pretendem fazer com um problema identificado entre colaboradores e apoiadores do Brasil: a comunicação. “Ainda temos problemas nesse sentido aqui, de realizadores que, após o término do projeto, deixam de comunicar com eficácia os avanços do mesmo. Vamos investir em conteúdo para dizer que isso não é legal, e que precisamos construir vias de mão dupla”, explicam.


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Jornalista, foi repórter do Cultura e Mercado de 2011 a 2013. Atualmente é assessor de comunicação da SPCine.

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