A moda nunca esteve tão em voga como nas últimas décadas. Filmes, séries, livros, música e arte beberam da fonte criativa e visionária que a moda pode se transformar. A moda nunca foi tão consumida de maneira forte e intensa como agora. Essa moda que muda, que monta e remonta, cria e desfaz. A moda como papel de diferenciação social. Como identidade particular. Como triunfo do efêmero e proposta de vida e estilo.
Esse grande processo de transitoriedade que a moda conhece, admite e propaga tão bem está atrelado com sua história dentro de uma construção social, cultural, artístico e de mercado. A sociedade está inserida na moda e consequentemente a moda está inserida na sociedade. “Sem dúvida a moda é um reflexo cultural, se não estivéssemos no Brasil e sim na Índia, não usaríamos a roupa do jeito que usamos. Provavelmente descobriríamos mais cores e tecidos diferentes”, afirma Flávia Pozzoli, estudante de moda da Faculdade Santa Marcelina.
Tudo o que acontece ao nosso redor, reflete na moda. Reflete em um olhar apurado. Reflete na arte, no comportamento e consequentemente em nossa vestimenta. Mas será que conseguimos notar a moda como um processo cultural?
O Brasil, por longos anos, teve como inspiração a Europa. Era de uma beleza imensurável caminhar pelas ruas cariocas vestindo adereços vindos da França. Com o tempo, a roupa passou por um grande processo de democratização. Processo este que garantiu a todos (sem exceção) o acesso a qualquer tipo de vestimenta de qualidade com um valor acessível.
Este ano podemos caracterizar, sem pretensão alguma, como o ano da moda no Brasil. Designers, estilistas, tecelagens e todos os profissionais que cercam toda e qualquer plataforma que inclua o desenvolvimento de uma peça e a propagação de uma ideia estão focados em um só ideal: uma identidade verde-e-amarela.
Claro que deixar de lado todo o glamour e inspiração em qualquer outro país e olhar para sua própria cultura que possui um trabalho único e até mesmo impecável não é tarefa fácil. Ainda estamos engatinhando nesse quesito, mas podemos afirmar que todos os criadores estão fazendo sua tarefa de casa. E uma prova concreta disso, é a semana de moda mais badalada que acontece em São Paulo, com duas edições a cada ano e traz um tema, uma discussão e uma forma de fomentar um viés artístico que ultrapassa qualquer barreira que uma simples vestimenta pode causar.
O São Paulo Fashion Week, guiado pelo visionário Paulo Borges, teve sua última edição exposta no Prédio da Bienal, no Ibirapuera, em junho deste ano. O tema da edição foi pautada pelo Futuro. Entre os concorridos desfiles apresentados, conversas relembravam os 15 anos do evento. “Eu via que era possível uma semana de moda e além de tudo, uma cultura de moda no Brasil, trazer discussões para essa semana de moda além da roupa, pois esse é o papel do estilista. Criar uma educação de moda no Brasil”, afirma Paulo Borges, idealizador do evento.
Nessa última edição, em especial, diversos estilistas apostaram na cultura brasileira. Sem ser caricato. Como as estampas criadas com imagens tropicais e de araras, no desfile de Pedro Lourenço e a década de 30 como um grande baile de carnaval na passarela de Ronaldo Fraga. Com direito a trilha sonora ao vivo com a Velha Guarda da Vila Isabel e Rafael Raposo, cantando samba e alguns dos hits de Noel Rosa. Mais brasileiro que isso, impossível.
E é claro que não é só de glamour que essa grande indústria da moda vive e sobrevive. A grandeza do evento, como o SPFW, traduz mais de R$1,5 bilhão em negócios na cidade. Além de mais de 350 modelos pisarem nas passarelas, 100 mil pessoas passando pelos corredores da Bienal e mais de 3 mil profissionais cuidando de toda estrutura. O que torna esse evento uma imensa plataforma de business e design da América Latina.
Fugindo um pouco dos holofotes dos desfiles, outro evento que causou uma grande referência para toda a engrenagem que movimenta a indústria da moda foi o Salão de Design e Inovação de Componentes (INSPIRAMAIS), realizado durante três dias no mês de julho, em São Paulo. O Salão, que chegou a sua quarta edição este ano, foi criado para suprir uma lacuna de moda no Brasil. Com o objetivo de lançar as tendências de matérias primas e componentes para os segmentos de calçados, couro, artefatos e têxtil brasileiro, o evento é focado no fortalecimento no meio da moda brasileira por meio da exaltação das fontes de inspirações nativas, ressaltando a importância de um produto consumido e produzido pelo brasileiro.
Além de oficinas de criação, exposições de componentes, seminários, palestras e fóruns de inspiração, o evento proporcionou uma rodada de negócios com compradores internacionais. Em fevereiro deste ano, o evento recebeu 20 compradores internacionais e gerou US$ 250 mil em três dias. A ideia dessa ação é movimentar cerca de US$ 1,5 milhão de negócios a longo prazo.
O Inspiramais é o único evento da América Latina que consegue um diálogo entre lançamentos de componentes de forma bem antecipada para o fabricante ou o estilista, atrai compradores de toda a América e Europa e estimulam fabricantes de matérias primas, fornecedores de grandes indústrias brasileiras e internacionais a estruturar sua pesquisa na mesma velocidade do mercado, adaptando desde sua linha de produção até a logística de distribuição para seu cliente.
Alcançar um mecanismo dentro do país. Fortalecer a ideia de que um produto feito aqui tem a mesma qualidade que um produto externo. Pois, o Setor Têxtil e de Confecção brasileiro é o quinto maior do mundo, reunindo mais de 30 mil empresas que empregam 1,7 milhão de pessoas diretamente. É o segundo maior produtor de denim e o quinto de malharia. Produz 9 bilhões de peças de confecção, sendo 5 bilhões em vestuário. São mais de 100 escolas de formação profissional para o setor, entre faculdades de moda, engenharia têxtil, técnicos têxteis, costureiras, modelistas e outros profissionais.
Os números identificam que não é apenas o luxo que intensifica a indústria da moda, mas podemos criar grandes expectativas nesse mercado que cresce e avança cada vez mais, proliferando novos criadores, expandindo novas marcas brasileiras e exportando produtos com o DNA made in Brazil. E o setor têxtil está preparado para o crescimento. Assim como a Associação Brasileira de Estilistas (Abest) e a Agência de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) torce pelo aumento de exportação.
Com todos esses investimentos nesse segmento de vestuário, com diversos eventos, colóquios, projetos, desfiles e escolas de formação em moda, prova que estamos preparados para fomentar ainda mais essa cultura de moda. E a melhor maneira para que isso aconteça é propagar essa ideia desde o fabricante até o criador que expõe sua coleção. Mostrar uma arte palpável, usável, consumida e adaptada aos valores brasileiros e peculiares de cada pessoa.