“O Brasil, afinal, é uma roda de samba. Este é pelo menos o melhor Brasil, o Brasil genuíno, bom, livre, humano. Sem repressão e sem opressão. O Brasil que respira espontâneo e que canta, acima das seitas.” Oto Lara Resende.

Para os devotos de Chacrinha (vim para confundir e não para explicar) a Vossa Majestade, o Rei PE – Planejamento Estratégico, e seus mandamentos se colocam como a luz milagrosa, como um manjar de todas as soluções do calendário cultural.

A partir de uma manifestação de efeitos de alguns testemunhos, os fundamentalistas espalham este material técnico-devocional e esta “genialidade” se transforma em uma espécie de Rosa Mística.

Os participantes Top desta teia de embaraços ignoram e, com o aplauso das instituições publicas e privadas, todas as particularidades do patrimônio humano da nossa cultura para se jogarem num pastiche verbal sob a regência das soluções superestruturais, um mantra que vemos cotidianamente em imagens peregrinas, ora para entender o vidente planejamento estratégico, ora para servir de amuleto num bate-papo manifestado em algum ambiente escuro próprio pra essa coisa de valor normativo. Por outro lado, a tragédia, (do rogai por nós), para a arte e para o artista brasileiro, neste ambiente, só aumenta.

Esse mágico amuleto, PE, é o coração da burocracia é ele vira uma pedra fria e áspera,dentro do ambiente cultural. Ai, os aportes dirigidos à produção criativa para quem de fato cria, vira um inquérito administrativo. E os benefícios para um ambiente evolutivo da criação se transformam apenas em mais uma contemplação mediúnica. E assim, nesta gangorra de “causa e efeito” o sincretismo cultural que é sem duvida nossa maior riqueza germinada e trazida para o centro das artes brasileiras é substituída pelo imperativo das armas da neotecnocracia, uma falsificação absurda da entidade cultural brasileira.

É difícil a grande estrela da sociedade, a arte, viver serenamente debaixo dessa musculatura papeloria e conceitual cheia de enigmas indecifráveis e  coeficientes repletos de fortes sensações de exotismo, diletantismo e individualismo sem qualquer importância nacional. Todos exibindo um “conhecimento correto” de regras, alinhamentos e amarrações, aparentemente defensores do patrimônio nacional. Assim, sustentam, como feiticeiros da palavra, a expansão de suas próprias “grandezas”.

Atualmente empregando sistematicamente a temática – Plano Estratégico – Termo praticado, sobretudo para exibir a permanência da manifestação de efeito e do conselho curador dos “caras que sabem das coisas”. A crônica dessa comunidade exibe um absoluto império de delírios que é jogado como um feitiço de palavrórios como se ali fossem todos pautados por um cabedal de conhecimento sobre os micro-sistemas da cultura brasileira.

Isto que vivemos como fenômeno superestrutural na cultura de corredores, remonta a cena central do “poeta-fingidor” de Fernando Pessoa.  É esse estrelismo cacofônico do caramujo dão-dão que cada vez mais ganha artigos nos fóruns de cultura sem qualquer identificação com a nossa realidade.

O que precisa ficar claro é que a ópera-técnica saci-pererê, em busca da italianidade de Rossini, chegará, no máximo, às normas sociais exigidas pela prática do dever da formalidade de um cantochão anglo-saxônico.

Não podemos mais, de forma sistematizada, sustentar esse quadro de indecisão pasmosa em busca de certas efusões levianas e absolutamente desnecessárias à expressão natural que delineia os caracteres da cultura nacional.  Estamos derrubando a nossa jangada que navega com os ventos para nos entregarmos aos derradeiros tempos do império técnico.

A monarquia extraída da fusão tecnoburocrata praticada pelos novos deveres globais é psicologicamente inexpressiva diante da consciência que a sociedade tem sobre suas expressões. É muita convenção, é muita metáfora técnica, é muita comodidade, é muita verdade absoluta e, consequentemente, é muita falsificação.

Estamos fazendo um vatapá de sistemas, o resultado é a diafonia de conceitos atrás de uma pluritonalidade contemporânea na base do tambor do Zé Pereira. Assim, vamos vivendo do refrão instrumentalizado, “tatu subiu no pau, tatu subiu no pau”, numa espécie de requebro arabesco na sagração, melhor dizendo, na epifania de adoração aos reis, aos magos da folia técnica.

A cultura no Brasil, hoje, vive uma interferência de línguas variantes, uma coisa cabriolada, um coro de cabritos, um cacareco multilinguístico coreografado por um leque de variantes estridentes, frenéticas atrás do entusiasmo e da ovação da  cultura corporativa. E isto está violentando, amordaçando, censurando, velando, sangrando como uma ferida aberta, a permanência da cultura brasileira nas relações institucionais.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

7Comentários

  • gil lopes, 14 de outubro de 2010 @ 14:13 Reply

    Não dá pra entender nada Carlão, dá pra ser mais direto? Não dá pra ser contra a técnica ou a burocracia, não somos selvagens. Os artistas não são selvagens, podem perfeitamente se organizar e se servir da técnica…ou eu não entendi nada, ou não entendi nada. Se vc não se incomodar, eu gostaria de acompanhá-lo na reflexão, mas juro, não consegui. Erro meu, eu sei, mas como o que vc diz me interesse e interessa, eu prefiro entendê-lo, vamos a isso?

  • Maria Alice Gouveia, 15 de outubro de 2010 @ 10:35 Reply

    Eu também não entendi nada. Parece que planejar é ser contrário à cultura brasileira autêntica? Será que é isso? Será que dá para esclarecer?

  • gil lopes, 15 de outubro de 2010 @ 14:20 Reply

    não compreendo o ataque ao que se chama de Planejamento Estratégico…o que se vê é a falta de planejamento e de estratégia. O senador Suplicy observou que Tropa de Elite só foi lançado depois da eleição de governador e conclui que isso prejudicaria a reeleição. Não faltou planejamento estratégico no caso ou o acaso conspirou favoravelmente. mas deixar tudo por conta do acaso? Até parece. Não deve ser acaso a possibilidade de isenção fiscal para o produto cultural estrangeiro entre nós e muito menos que isso não seja comentado em parte alguma. Parece que é mesmo pra ser assim, eu gostaria de ouvir uma voz que explicasse porque deve ser assim. Já não chega o dólar barato ainda é necessária a isenção? Ninguém comenta isso, será que não existe mesmo planejamento? isso é coisa de comunista? e estratégia? Também? E inteligência? Também??? Minha nossa…Carlão, diz aí.

  • Carlos Henrique Machado, 16 de outubro de 2010 @ 19:27 Reply

    Meus caros, Maria Alice e Gil

    O que eu digo é para sairmos desse ambiente de jurisprudência e fecharmos um pouco os olhos para ouvir a alma brasileira que, aliás, é título de um dos belos choros de Villa Lobos. Trocando em miúdos para ser mais objetivo.

    Fernando Henrique, o presidente do ministro Serra, chamou os aposentados de “vagabundos” e quando os mesmos somados à população reclamaram de suas privatarias, ele classificou a todos nós de “caipiras”. Já Lula, caboclo vivido que, como disse Zé Celso, “um antropofágico inato, um homem de conhecimento da vida”, e que, quando perguntado por técnicos como saberiam o tempo de trabalho dos homens do campo para lhes conceder a aposentadoria, e Lula, a quem Caê, raso como sempre, classificou como “inculto”, deu a seguinte resposta aos técnicos… Olhem para as mãos desses homens e os calos lhes dirão o tempo de suas lutas. É isso gente, simples assim, sabedoria. A cultura precisa fechar os olhos e ouvir este Brasil e ela perceberá como tudo isso se organiza no seio da sociedade deste Brasil de Lula/Dilma.

  • gil lopes, 18 de outubro de 2010 @ 0:45 Reply

    Carlão, a gente tem é que abrir o olho! Se fechar os olhos eles tomam tudo…vamos planejar mais, desenvolver estratégias, trabalhar com jurisprudência, a gente quer ordem na casa, a gente quer acabar com a casa da mãe Joana, e a gente quer Dilma sim, pra levar isso adiante…mas de olho aberto Carlão. Lula é um presente que o Brasil forjou, essa intuição espetacular do povo e é por isso que a gente quer ouvi-lo nessa hora importante…mas de olho aberto Carlão. Olho vivo e faro fino.

  • Marcelo Kraiser, 18 de outubro de 2010 @ 9:59 Reply

    Demonizar Fernando Henrique é uma ferramenta retórica,trem fantasma de palavras de ordem estúpidas para tapar os buracos da retórica malemolente,demagógica e escorredadia do lulismo desenfreado.
    Ora,pedir para este artigo ser 'mais direto' para quê?Para transformá-lo em digestivo fácil?Tem que pensar e não transformar pensamentos mais complicados em publicidade direta.
    A arte e a cultura estão soterradas pelo papelório cartorial,pela burrocracia e corporativismo pseudointelectual cujos penduricalhos e cacarecos tem mesmo é valor normativo.

  • Octaviano Moniz, 18 de outubro de 2010 @ 13:51 Reply

    Excelente !A arte brazuca vem se globalizando para atender a interesses mercadologicos ! Não é a toa que o presidente dacFundação Bienal é marido da diretora ou presidenta,sei lá da SP FEira de arte.Hoje arte gira milhões de dolares,numa sola obravide o ingles Damien Hirst !E todos querem subir no podium ,ja fazem a arte pensando nos galeristas,colecionadores,marchands e curadores.Arte é cosa mentale disse Da Vinci,ele só não esperava que usassem ao marketing descaradamente nas artes.

    Reproduzo algumas partes do texto;interppretem como respostas a suas duvidas!

    “O Brasil, afinal, é uma roda de samba. Este é pelo menos o melhor Brasil, o Brasil genuíno, bom, livre, humano. Sem repressão e sem opressão. O Brasil que respira espontâneo e que canta, acima das seitas.” Oto Lara Resende.

    “É difícil a grande estrela da sociedade, a arte, viver serenamente debaixo dessa musculatura papeloria e conceitual cheia de enigmas indecifráveis e coeficientes repletos de fortes sensações de exotismo, diletantismo e individualismo sem qualquer importância nacional. Todos exibindo um “conhecimento correto” de regras, alinhamentos e amarrações, aparentemente defensores do patrimônio nacional. Assim, sustentam, como feiticeiros da palavra, a expansão de suas próprias “grandezas”.”Falas do teu quintal BRASIL e seras universal!

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