Resolvemos entrar nesse debate para subsidiar o direito que todos os cidadãos têm de conhecer diferentes pontos de vista, além de jogar um pouco de lenha na fogueira. Alguns estão vendo na discussão a pretensa confirmação da necessidade de alterar a Lei Rouanet; outros, defendendo o direito do artista de receber pelo trabalho que realizam. De nossa parte, estamos buscando evitar que discussões menores e de curto alcance venham a nublar uma visão mais abrangente sobre os rumos da política cultural no País.

A pretensa discussão encaminhada pelo Ministério da Cultura sobre o rumos da Lei Rouanet até inicio do ano passado mais se aproximou de um monólogo. A proposta de alteração da Lei Rouanet formulada naquele período era sofrível sob todos os pontos de vista: técnico-legislativo, político, de mercado, dos artistas, da população e de quem mais se possa imaginar. Atenção àqueles que possam discordar já do primeiro parágrafo: não estamos criticando o discurso do Ministério do ponto de vista conceitual, mas sim a baixa qualidade técnica do texto que pretendia dar cabo às mudanças. Este continha ofensas seguidas ao principio da legalidade e não atingia a nenhum dos problemas apontados no discurso. Repetimos: não atingia nenhum dos problemas apontados no discurso utilizado para fundamentá-lo.

O discurso era apresentado em duas facetas: uma voltada para mídia, buscando mostrar o quão nefasta e perversa era a Lei Rouanet, dominada pelos “homens de marketing”; e outra que apresentava as modificações propostas, como o aumento da ingerência do Estado nas decisões e o tolhimento da participação da sociedade atualmente garantida pela Lei Rouanet. A partir disso tudo mudaria, como num passe de mágica, com o assim batizado Procultura. Era um engodo. O texto protocolado na Câmara era, como dissemos, um desastre.

Para sorte de todos, ao longo de 2010, a Comissão de Educação e Cultura da Câmara coletou opiniões mais heterogêneas no mercado e, ajudados por uma importante lucidez que surge no Ministério da Cultura nesse período, tivemos o substitutivo ao texto do governo aprovado na Comissão de Educação e Cultura. A autora do substitutivo, deputada Alice Portugal, realmente acertou a mão nas modificações realizadas e hoje temos um bom projeto tramitando no Congresso Nacional. Ressalte-se: completamente diferente do texto original (pode ter ajustes e melhoras pontuais ainda ao longo de sua tramitação, mas o texto que circula é muito melhor em todos os sentidos e muito mais afinado com o discurso original que todos aplaudiam).

Percebendo que do ponto de vista técnico-legislativo o projeto avançou, como fica o resíduo do discurso? Sobrou para a população comum a percepção de que a Lei Rouanet é uma perversidade e ponto. O pior é que o “tiro no pé” sai da boca justo das pessoas do meio cultural, e não representa a verdade. Senão vejamos: de todos os incentivos concedidos pela União, a Rouanet representa cerca de 1,2% do total. A calha sob a qual as pessoas físicas ou empresas podem destinar recursos à atividades culturais concorre com inúmeras outras atividades, dentre as quais o cinema e audiovisual, esporte e assistência social (fundos da criança e adolescente e fundos de amparo ao idoso). Destes todos, só a Lei Rouanet confere aos doadores e patrocinadores benefício fiscal inferior a 100% (em grande parte dos casos como uso de Rouanet o benefício é da ordem de 64% do valor patrocinado, e o patrocinador arca com os 36% restantes).

A primeira questão que se coloca, do ponto de vista da renúncia fiscal da União, então é: se a ideia é acabar com a Lei Rouanet, porque não acabar junto com todas as outras? É obvio que só ela é mencionada pois somente ela foi alvejada pelo irresponsável discurso. Virou a grande vilã não apenas do setor cultural, mas de todas as políticas do Governo Federal. Nada mais injusto.

E o resultado da aplicação de recursos? Está patente para todos os cidadãos: filmes no cinema ocupando mais de 20% do market share, programação extensa de teatro e espetáculos de música, exposições da maior importância, projetos socioculturais belíssimos: Sinfônica de Heliópolis (trabalho brilhante do Instituto Bacarelli), projeto de leitura na Amazônia “Vagalume” e outras centenas, senão milhares, que não caberiam nesse artigo.

Especificamente em relação ao blog da Bethânia, perguntamos: por que não mais um belo projeto de poesia a ser difundido via internet de forma aberta a toda população? A ideia em si é excelente, e plenamente adequada aos objetivos da Lei Rouanet. Relegada às relações de mercado, uma artista como a Bethânia poderia dedicar-se seriamente à difusão da poesia? Não estaria aqui a Lei Rouanet cumprindo seu papel? Não conhecemos o conteúdo do projeto no seu detalhe e nem dele somos parte, para aqueles que já pensem no petardo leviano de defesa em causa própria.

Para além da questão do blog da Bethânia, está em discussão um modelo bem sucedido de financiamento conjunto, parceria entre Estado e iniciativa privada, que funciona. Recomendamos: ampliemos o foco.

Do contrário, talvez valha a pena aos críticos de plantão defender, junto com o fim da Lei Rouanet, o exame de renda das pessoas que compraram automóveis com isenção de IPI, pois no caso é renúncia fiscal para estimular o aumento do patrimônio daqueles que podem comprar um automóvel (!). Mais: defendam que os carros adquiridos com isenção de IPI circulem com a bandeira do Brasil e logomarca do Governo Federal, e seus proprietários obrigados a dar carona para a população brasileira que padece de um bom sistema de transporte público. E por fim: a imunidade tributária de papel para impressão de livros, defendida por Jorge Amado na década de 40 como universal, seja restrita à livros de destinação social. Ora, faça-nos o favor.

* Coautoria de José Mauricio Fittipaldi.

** Publicado originalmente e em versão resumida no jornal O Globo.


contributor

Advogado, sócio do escritório Cesnik, Quintino e Salinas Advogados. Presidente das comissões de Direitos Autorais, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ e autor do livro “Guia do Incentivo à Cultura".

6Comentários

  • Carlos Henrique Machado, 5 de abril de 2011 @ 21:14 Reply

    O que ocorre Fabio, é que é muito santo pra pouco milagre. O incentivo cultural da mameira que está, não se sustenta e, cada dia mais os agudos da sociedade chegarão aos ouvidos dos governantes, porque de acordo com a chegada das informaões as músicas não serão tocadas somente do lado A, todo o restante do processo é que trará a fotografia da nomenclatura Lei Rouanet que há muito deixou de ser uma lei para se tornar um partido privado de grupos empresarias. Tanto isso é verdade que somente no Brasil tem isso. Gostamos tanto de copiar os modelos lá de fora, por que ficamos nessa indecisão pasmosa na hora de copiarmos os estrangeiros que não admitem patrocínio com isenção fiscal?

    Outra coisa que é usada como instrumento de manipulação para provar a pujança do mercado cultural é de que o mercado cultural é responsável por 5% do PIB nacional. Se assim for, não precisa de Estado e nem empresas para proteger o setor, pois, neste caso ele já é enriquecido por conta própria.

    A cultura istitucional no Brasil está cativa disso, por isso não engata uma segunda, vice andando de lado como caranguejo sem responsabilidade política, social, econômica e menos ainda com as fronteiras do país que cada vez mais produtos são importados da indústria internacional com o dinheiro público.

    As causas de tão acentuadas extravagâncias estão na própria lei que parece ter poder hipnótico para atrair nunca investidores, mas captadores. Isso virou um vício banal, e aí, não deu outra, transformou-se numa geleia geral.

    Independente do princípio, do meio ou do final do texto, estar tecnicamente melhor ou pior, eu ainda sou contra este meio acordo de empresas entrarem com um pequeno percentual e controlarem os rumos da cultura brasileira.

    O grande problema é que quando falamos de cultura e economia no Brasil, raciocinamos como um vendedor peixe subsidiado diariamento pelo pescador. Ou seja, além de absurdo ele é miúdo. A cultura gera um processo econômico no cerne do país, na alma de uma sociedade, nas suas múltiplas atividades econômicas e não ali no balcão como uma mercadoria que fragiliza o conceito de cultura e prostitui o símbolo de um sentimento muito mais amplo sob o ponto de vista representativo.

    O curioso é que, enquanto cidadão, qualquer um percebe esse ângulo estratégico de um país para o todo da economia. Mas incrivelmente quando assumem a condição de empresários do setor, parece que se transformam em médiuns e incorporam uma visão cascuda quando se fala de economia e cultura.

    Um grande abraço.

  • Dani Torres, 6 de abril de 2011 @ 0:24 Reply

    Sempre muito lúcidos, Cesnick e Fittipaldi.
    Grande contribuição.
    Claro e NO ALVO.
    Bingo!

  • Paulo Thiago, 6 de abril de 2011 @ 12:20 Reply

    Grande Fábio,

    Quero aproveitar a oportunidade para agradecer pelo mini-curso do qual eu fui seu aluno durante o CINE-PE em 2010, ocasião que foi muito positiva para mim. Parabéns pelo texto e pela franqueza e seriedade com que trata o tema. Historicamente, a renuncia fiscal fui durante muito tempo a única forma do governo dizer que investe, apenas indiretamente, na cultura. Contudo, durante este tempo, as prioridades do governo não eram congruentes com investimentos em cultura. As prioridades eram de cunho liberais, e mesmo quando eram de cunho desenvolvimentista outros setores eram tratados como sendo mais importantes na agenda do governo. Acontece que há quase 10 atrás, a cultura vem se mostrando como um setor de alto potencial para alavancar o desenvolvimento, seja local, regional ou nacional. E enquanto o governo reconehcer a cultura como um elemento chave de desenvolvimento, este setor estará na sua agenda e as ações de parceria entre governo e iniciativa privada iram se manter, bem como as iniciativas exclusivas do governo. Cabe a todos nós sabermos utilizar esta oportunidade para que a cultura continue sendo vista como um fator de desenvolvimento.

    Abraço,
    Paulo Thiago

  • gil lopes, 6 de abril de 2011 @ 21:56 Reply

    “..filmes no cinema ocupando mais de 20% do market share, programação extensa de teatro e espetáculos de música…”
    Sem discordar das linhas gerais do artigo, que me parecem muito adequadas e pertinentes, faço uma ressalva quanto aos resultados. Por conta do erro na lei que tenho frequentemente referido aqui, não há o estímulo do conteúdo nacional de forma diferenciada e a consequência por exemplo é a cópia da Broadway no teatro, espetáculos de música internacionais ocupando a praça como nunca na história desse país. E corrigindo, o espasmo da presença do cinema no mercado é consequência de outra lei, a do audiovisual, e essa proporção pode ser uma “meta”, vamos lá, depende do feito de um ou poucos filmes, não temos ainda um cinema pujante no Brasil, precisamos de mais incentivos ao produto nacional, valorização do conteúdo nacional, vantagens para a produção do conteúdo nacional, se quisermos de fato empreender uma economia criativa para o conteúdo nacional. O conteúdo estrangeiro vai muito bem obrigado, como nunca na história desse país.

  • px silveira, 7 de abril de 2011 @ 15:43 Reply

    é um texto bastante esclarecedor.
    nessa discussão infeliz que veio se arrastando desde a iniciativa boçal do avatar do gil querendo jogar para sua plateia da bahia (onde iria se candidatar a alguma coisa e já teria seu slogan de defensor da cultura local contra o eixão do mal) até o final inglório da sua campanha’fica juca’, foram só tiros no pé.
    é como está neste texto: e agora, como fica? lutamos tanto para que os mecanismos da lei rouanet passassem a fazer parte da rotina das empresas e, em pouco mais de um ano, jogamos (quase) tudo fora, sob a ira desperta na própria gestão cultural encarregada de (isso, sim) proteger e ampliar seus alcances.
    outro ponto esclarecedor do texto é a citação de que “de todos os incentivos concedidos pela união, a rouanet representa cerca de 1,2% do total”. é uma pena que com tão pouco, ainda haja tanta discussão. e aos que criticam os grandes captadores (e realizadores!), lembrar que a lei rouanet jamais atingiu seu teto anual de renúncia fiscal à captação. quer dizer, nenhum projeto é excludente de outro. que venham muitas bethânias, precisamos delas.
    urge seja feito um trabalho de reposicionamento da lei rouanet pelo novo ministério.
    enquanto isso, felizmente, ainda temos alguns argumentos migalhosos para atrair empresários e investidores de imagem que estão preferindo as leis do áudiovisual, do esporte e de amparo sociais, que dão mais descontos e são menos barulhentas.

  • Tony Borges, 12 de abril de 2011 @ 12:08 Reply

    Fábio,
    No que tange a Lei do Audiovisual, em seu artigo 1°, que permite aos subscritores (investidores) se tornarem sócios dos Projetos, obtendo certificados de investimento, sendo os mesmos, especialmente vantajosos. Os certificados de investimento, além de serem negociáveis, remuneram os seus detentores (se o filme tem boa bilheteria, tem sucesso no mercado de DVDs), o que acaba por estender o benefício além do abatimento fiscal e a veiculação da marca junto ao nome do filme. Somente esse mecanismo, nos últimos cinco anos, rendeu às produções independentes nacionais cerca de R$ 250 milhões.
    Me parece ser um modelo mais interessante, do ponto de vista do investidor, que em contrapartida a outras leis de Incentivo, possuem vantagens exclusivas, obtendo royalties com o desempenho do filme.

    Abraços,

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