Nos 17 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes, realizada na pequena cidade do interior de Minas Gerais – e que nesta semana tem edição em São Paulo -, o festival veio se consolidando como um celeiro de exposição para novos cineastas. E também de filmes mais, digamos, experimentais.
Em 2014, dois dos filmes de maior destaque no festival foram A vizinhança do tigre, de Affonso Uchoa, e Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós. Ambos receberam os mesmos prêmios do Júri da Crítica e do Júri Jovem – o primeiro foi considerado pelos dois júris como o melhor filme, e o segundo recebeu dupla menção honrosa. A vizinhança do tigre ainda foi contemplado com o prêmio Itamaraty, no valor de R$ 50 mil.
Nos dois filmes, uma característica em comum: o gênero híbrido, explorando uma linguagem intermediária entre a ficção e o documentário. Nos últimos tempos, muito se discutiu no meio cinematográfico sobre esse gênero de filme, principalmente depois que o filme The Act of Killing, dirigido por Joshua Oppenheimer, foi indicado ao Oscar de Melhor Documentário. O filme conta a história de Anwar Congo e Adi Zulkadry, que nos anos 1960 mataram pessoalmente mais de mil pessoas no norte da Sumatra. Detalhe: são os próprios personagens que reencenam suas memórias com personagens fictícios. Os termos “Docudrama” ou “Docuficção” são consagrados no meio cinematográfico e há registros de filmes do gênero desde os anos 1920, como Moana, de Robert Flaherty (EUA, 1926).
Cléber Eduardo, curador da Mostra de Tiradentes, garante que desde 2008, mais ou menos, é mais comum a entrada desse tipo de filmes no festival. “Quando o digital vem ganhando força e a película deixou de ser uma exigência, esses filmes vêm ganhando mais força”, diz ele. Por isso, defende que deveria haver edital específico que contemplasse o hibridismo de forma objetiva. “O nosso edital de baixo orçamento para ficção é de R$ 1,8 milhão. Pra você ter ideia, com esse valor se realizariam todos os filmes do gênero exibidos na Mostra deste ano.”
O professor e pesquisador da área de cinema Renato Coelho faz coro às palavras de Cléber Eduardo. “Eu sou totalmente a favor. Os padrões dos editais oficiais estão totalmente engessados nos padrões do cinema convencional. Esses são filmes de pesquisa de linguagem. São filmes que funcionam como faróis apontando novos caminhos. É óbvio que são necessários editais para filmes de massa, que criem uma possível indústria que se sustente no Brasil. Mas é preciso olhar pra esse outro lado também”.
Já o pesquisador e escritor Marcelo Ikeda, autor do livro Leis de Incentivo para o Audiovisual, destoa um pouco das vozes. “Não é questão de ter um edital específico para ‘filmes híbridos’, mas que o processo de escolha de obras audiovisuais por editais públicos possa levar em consideração a possibilidade de obras processuais”, defende.
Como exemplo, ele cita o edital do DOCTV, que leva em consideração itens como “estratégia de abordagem” ou “plano de direção”. “Os editais brasileiros ainda estão pautados por um modelo de produção enrijecido, como se ainda estivéssemos na Vera Cruz, desconsiderando as potencialidades da produção contemporânea, com formatos híbridos, em que o próprio processo de produção será matéria-prima para a conformação do produto final”, afirma Ikeda. Exemplo típico, diz ele, é que um cineasta da envergadura de Eduardo Coutinho só pôde manter um ritmo contínuo de produção por ser financiado por um mecenas privado, no caso o João Moreira Salles. “A maior parte dos filmes de Coutinho deste século não tiveram apoio de editais públicos, por sua própria natureza processual”, relata.
Adirley Queirós considera seu filme um documentário, pelo menos partiu disso para a sua obra. Durante todo o processo de filmagens de Branco Sai, Preto Fica, gastou cerca de R$ 200 mil, advindos de um edital de documentários do Distrito Federal. Segundo ele, a produção, que levou cerca de um ano para ser realizada, teve que se adaptar à realidade financeira de que o cineasta dispunha. “A gente ficou mobilizado com equipe durante seis meses, um ano. Não tinha como impor ritmo de cinema profissional. Esse tipo de filme se faz com R$ 300 mil, R$ 400 mil. Eu não tinha essa ideia prévia de quanto a gente podia gastar. Você tem que se adaptar àquela realidade financeira que tem.”
Procurada para comentar o tema, a Ancine não deu retorno até a publicação desta matéria.