Num país de tantas diversidades como o Brasil, ainda há quem entenda que a produção cultural deva ser tratada politicamente de um modo linear. Isso é de uma tolice absurda, porque não há como tratar com igualdade aqueles que por natureza são desiguais. Justamente pela marca inconteste da heterogeneidade, os mercados culturais precisam ser operacionalizados através do exercício de políticas que respeitem as características de cada segmento. Jogar todo mundo no mesmo “balaio” e crer que é o certo tem o mesmo sentido que acreditar na impossibilidade de ser atingido em campo minado. Convém entender que, em ambas as situações, o indicativo é de “nitroglicerina pura”.

E o danado é ter que repetir para os incrédulos da pluralidade, que esse perfil diferenciado não se dá apenas entre os setores. Algo como o cinema e o teatro, por exemplo. As disparidades também ganham forma – e muito – dentro de uma própria atividade. De fato, coexistem mais de um cinema e mais de um teatro, mesmo que não sejam – nos seus interiores – tão harmônicos. Na verdade, é bem comum e razoável entender o que muitos custam a enxergar um pouco além da ponta do nariz. Ou seja, nesse quadro de miopia crônica, o mais incrível é desconhecer que na sua própria atividade há quem opere ainda com tenaz amadorismo e quem atua com senso profissional e empreendedor. Não há pecado nisso, mas é preciso uma dose de perspicácia para se reconhecer tal disparidade. O que não se pode é deixar de evoluir, é buscar os mecanismos que transforme o “autor amador” num “agente empreendedor”. As lentes do dinamismo econômico impõem esse entendimento de modo claro, muito embora, na maioria das vezes, a força do “viés artístico”, sobejamente dependente de uma mão protetora do poder público, resista a aceitar.

Ora, se há atividades diferentes e até mesmo brutais discrepâncias nos próprios setores, por que pensar em políticas lineares, homogêneas? Retirando-se desse raciocínio os produtos ditos “comerciais puros”, que passam ao largo das políticas públicas (embora não seja também pecado atendê-los), as atividades “semi-comerciais” e “não-comerciais” carecem de estratégias e ações bem distintas. Aquela idéia de jogar todos no mesmo “balaio”, seja na unicidade de uma lei de renuncia fiscal, ou mesmo, na visão monolítica da exclusividade dos fundos e editais, é incorrer num erro primário. O mais correto é dispor dos dois mecanismos e atender aos distintos segmentos do mercado. Nesse sentido, o exemplo da reforma da Lei Rouanet é de uma incoerência sem tamanho. Para corrigir algumas falhas operacionais, esquece-se do atendimento correto que se faz à parte do mercado, revivendo aquela velha sandice de se “matar o boi” para se remediar os “carrapatos”. E quanto mais se alimenta a defesa única de uma política cultural, mais os ânimos se acirram e geram uma rivalidade setorial absolutamente idiota.

Para esse nó a solução é clara: decisão política que reconheça a necessidade de estratégias e ações diferenciadas. Noutras palavras, vontade de se fazer uma política pública de cultura efetiva, ampla e irrestrita, capaz de atender às peculiaridades dos distintos segmentos do mercado. Mas a resistência inconseqüente de quem defende o ideário da homogeneidade, mesmo se contradizendo com o discurso em defesa do plural, só põe em xeque toda credibilidade do sistema. Com base nessas tolices, que não levam à real compreensão dos mercados culturais,  até a própria Ministra da Cultura, por ter sinalizado de modo favorável à heterogeneidade da política, terminou sendo jogada à “arena dos leões”, por conta de atitude pessoais e classistas inoportunas e descabidas. Uma atitude que serviu apenas como um “gás inflamável” bastante infeliz, justo para o “fogo amigo” partidário que foi gerado pela tentativa encomendada de “fritura”. Uma inescrupulosa ação conjunta, frustrada em tempo hábil.

E nesse cenário surreal, que renega a realidade plural da cultura brasileira, haja paciência para o festival de sandices que assola parte dos setores, que infelizmente ainda faz fé no “Papai Noel” da política cultural única.


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Economista e produtor cultural, coordena o Festival de Cinema de Pernambuco (Cine PE) e é autor do livro Economia da Cultura, pela editora Saraiva.

3Comentários

  • Rudson Marcello, 1 de junho de 2011 @ 15:49 Reply

    Interessante pensamento de Alfredo Bertini.A multiplicidade cultural, que poderia nos enriquecer, agora está sob a ótica do atendimento a uma ou outra particularidade da cultura nacional.
    A dificuldade que observo neste cenário é de entender que aqueles que promovem cultura, muitas vezes promovem a que conheçe, isso se conheçe alguma.
    Já lí resenhas no campo do teatro, como exemplo, sobre os novos grupos que o Brasil desconheçe, entre eles estava o Teatro da Vertigem e a Cia dos Atores,grupos que já na época(2010), haviam conquistado seu nicho,claro que pela ótima particularidade do trabalho, mas que não atendia ao título ilusório de Novos grupos.
    É difícil observar o novo se não temos vontade, desejo ou mesmo ânimo para fazê-lo.
    É o mesmo que fazer uma enquete sobre o Capão redondo em São Paulo e não visitar o lugar, coisa que também já ví um jornal de grande circulação fazer.
    Desta forma o Novo nasce morto, a diferença e distinção é tida como homogênea, e os editais privilegiam sempre a mesma parcela absoluta de cultura, que deve sim ter seus patrocíneos, mas em concorrência direta e limpa com outros.
    É importante salientar que a divisão entre o que é amador e o que é profissional, no campo cultural, se dá nos préstimos que a própria arte pode conferir com financiamento. Isto é, fazer um filme no fundo do quintal de sua casa é fácil e você pode realizá-lo, mas produzí-lo, distribuí-lo e pagar seus profisionais é outra que fará diferença na observação de seu produto.

  • Wilson Inacio, 7 de junho de 2011 @ 9:02 Reply

    Sim esta dicotomia existe sim, ao menos no entendimento de poucos e necessitamos de atitudes providencias quanto a isso, talvez somente uma pequenas questao de uma melhor articulacao entre os proprios agentes culturais…

  • Marcos, 20 de junho de 2011 @ 10:10 Reply

    Pragmaticamente falando, para mim a única forma de dar espaço à diversidade (que não é o que vem ocorrendo com essa não-política cultural) seria descentralizar o ‘atendimento’; creio que em sua origem, a idéia da criação de um Sistema Nacional de Cultura estaria voltada a isto: definição das atribuições de cada membro federativo e escuta local, regional, estadual e nacional das necessidades e prioridades no campo artístico-cultural. Na prática não temos nada disso. Ninguém no Brasil quer realmente fazer um acordo coletivo para otimizar os recursos e políticas. O que se prefere é manter os currais eleitorais, apesar dos novos discursos sofisticados (SIC) dos dirigentes…

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