Ana Carla Fonseca entrevista a Associação Quilombola de Conceição das Crioulas, que em pleno sertão pernambucano, conseguiu promover o desenvolvimento e a sustentabilidade da comunidade.
Ponto fichu, cestarias em caroá, pratos de barro preto que indo ao forno se transmutam em brancos. São esses alguns dos trinta produtos da Associaçao Quilombola de Conceição das Crioulas – AQCC, localizada a 550 km do Recife, em pleno sertão pernambucano. Contam os mais velhos que por volta de 1700 seis negras livres arrendaram as terras da região e ali começaram a fiar algodão. Para pagar pelo uso das terras do rei viajavam 150 kms em lombo de jumento, até a cidade de Flores. Ainda em 1987 o algodão era o principal produto comercial da comunidade, fortemente embasada porém na agricultura de subsistência de milho, feijão e mandioca. A chegada da praga do bicudo e a tomada do mercado pelos fios sintéticos geraram o colapso da já frágil economia local, vulnerabilizando a comunidade à influência nefasta de outras formas de cultivo. Uma delas inscreveu Conceição das Crioulas no chamado “polígono da maconha”.
“O jovem, quando terminava a quarta série, nao tinha como encontrar emprego em Salgueiro (a 42 kms de distância), ainda mais sendo negro e pobre. Ou ia para a periferia de São Paulo e Rio ou ficava sujeito às pessoas que vinham de fora e o envolviam com o plantio da maconha. Não tinha outro jeito de ganhar a subsistência porque mesmo a agricultura, dependendo do inverno, não dava o suficiente para comer. Graças a Deus os jovens hoje não pensam em ir embora, mas em ajudar a comunidade com seu próprio sustento aqui”, diz Francisco de Assis Oliveira, da AQCC.
O reconhecimento das terras da comunidade e sua demarcação ocorreram em 2000, com base em estudos antropológicos e registros históricos. No mesmo ano foi criada a Associação Quilombola de Conceição das Crioulas, com o objetivo de promover o desenvolvimento da comunidade, baseado em sua identidade e em sua história. A guinada no destino da comunidade ocorreu em junho de 2001, quando foi desenvolvido o projeto “Imaginário Pernambucano”, uma parceria entre a Universidade Federal de Pernambuco, o Sebrae e a AQCC. Inserida em um mapeamento de produções culturais das sociedades economicamente excluídas e sem acesso às agências de fomento ao artesanato do governo estadual, Conceição das Crioulas integrou um programa de resgate da cultura local que envolveu diversas manifestações culturais e democratizou o conhecimento tradicional.
Atenta à importância da distribuição, foi formada uma rede de parceiros encarregada de criar canais de escoamento da produção cultural material da comunidade, inclusive no exterior. “A comunidade já trabalhava a fibra de caroá, mas era só para a rapadura e a farinha; com a palha era feita a esteira, para os dias mais quentes; com o barro as pessoas sempre fizeram pratos, panelas, frigideiras, formas pra bolo, cuscuzeiras. A maioria da comunidade ainda usa água de pote e não de geladeira.”, conta Francisco. Hoje, é o artesanato – confeccionado com argila vermelha ou preta, caroá (um tipo de capim nativo), palha de catulé (uma palmeira silvestre) e imbira (uma bromélia do sertão) – que garante o sustento direto de 45 famílias e indiretamente mantém 200 outras pessoas da comunidade. Mais do que a geração de trabalho e renda, o artesanato promove a inclusão social por meio da valorização da identidade cultural, do resgate da história e das tradições e do desenvolvimento de novos produtos. Sao 180 artesãos capacitados por meio de oficinas técnicas. Cada peça produzida conta a história da comunidade e reafirma sua identidade étnica. Exemplo disso são as bonecas, que representam e homenageiam dez mulheres importantes para a constituiçao da comunidade de Conceição das Crioulas: a parteira, a historiadora, a artesã da palha do catulé, a da cerãmica, a professora negra… “Nao é simplesmente uma boneca, nós vendemos a boneca e divulgamos a nossa historia.”
A maior parte da produção é vendida durante a FENEART, importante feira anual de Recife. Ao longo de seis ou sete rodadas de negociação a AQCC divulga seu trabalho, estabelece contato com novos lojistas e fecha pedidos. Hoje, os produtos são vendidos em diversas capitais do país e também no exterior, fruto da repercussão gerada com o terceiro lugar no Prêmio Banco Mundial de Cidadania 2002. “Por ser uma comunidade pobre, negra, as pessoas têm uma visão de que as pessoas não são capazes de produzir uma renda na comunidade. Com o artesanato dá pra ver que a comunidade tem potencial para gerar renda para um grupo e trazer muito orgulho para todos.” Francisco lembra também que somente em 1995 a comunidade passou a ter escola de segundo grau. Hoje, há cerca de 25 quilombolas inscritos na faculdade. Todos eles são também professores na comunidade.
Mas a AQCC tenciona e luta para ir muito além do que construiu até agora. De olho no futuro, a sustentabilidade do desenvolvimento de produtos é assegurada pela parceria estabelecida com a UFPE, que trabalhou com a comunidade embalagem, design, logomarca, etiqueta e pelas visitas mensais dos técnicos que promovem o aperfeiçoamento dos modos de produção do artesanato. “No futuro eu queria ver a comunidade ainda mais integrada, que ela possa sobreviver de artesanato. Que pelo menos 50% da renda das famílias venham do próprio artesanato, daqui a cinco anos, envolvendo cada vez mais jovens.” Jovens como ele, Francisco, de 21 anos, que explica com propriedade o que muitas pessoas envolvidas com cultura e com economia ainda hesitam em aceitar: que a economia e a cultura apoiam uma à outra na prática da comunidade, recuperando a auto-estima, preservando as tradições e garantindo sua inclusão econômica.
www.conceicaodascrioulas.org.br
Ana Carla Fonseca Reis