O Uruguai prova que a criatividade e a cultura de um povo são fontes para o desenvolvimento sustentável
“Com seu ritual de aço
suas grandes chaminés
seus sábios clandestinos
seu canto de sereias
seus céus de néon
suas vendas natalinas
seu culto ao Deus pai
e às dragonas
com suas chaves do reino
o norte é quem ordena
mas aqui embaixo embaixo
a fome disponível
recorre ao fruto amargo
do que outros decidem
enquanto o tempo passa
e passam os desfiles
e se fazem outras coisas
que o norte não proíbe
com sua esperança dura
o sul também existe”
Assim começa a poesia “O Sul também existe”, do consagrado escritor uruguaio Mario Benedetti. Aconchegado entre o Rio da Prata e o Oceano Atlântico, esse país de dimensões diminutas oferece uma produção cultural florescente, que permeia os passos de quem o visita. As galerias, do Mercado del Puerto de Montevidéu às da pequenina José Ignacio, na curva do mapa da América do Sul, chamam a atenção por seu destaque inevitável às belas criações culturais que levam o selo “Hecho en Uruguay”.
A percepção de que o gargalo da economia criativa não está na produção, mas na criação de canais de distribuição e comercialização, deu origem a várias iniciativas exemplares no país. Uma delas foi o estabelecimento dos Mercados de los Artesanos, hoje uma pequena rede de centros de venda harmoniosamente dispostos em construções do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade de Montevidéu, como o Mercado de la Abundancia. Edifício de mais de um século, abriga no térreo os restaurantes e lojas de um mercado municipal, que desfilam as pérolas gastronômicas da cozinha uruguaia. No subsolo, o banquete é dos olhos. Porta-retratos em formato de portas e janelas, esculturas de materiais variados, artesanatos em cabaça e madeira com design singular, jóias, cuias e bombillas, dentre tantas outras peças, fazem a alegria dos turistas, a realização pessoal e financeira dos artesãos e o orgulho indisfarçável dos habitantes da cidade.
Estruturado e gerido pela Asociación Uruguaya de los Artesanos (AUDA), a iniciativa reforça a necessidade do trabalho profissional conjunto, para vencer as dificuldades comuns. A AUDA reúne mais de 300 afiliados que, além do acesso a esses centros de venda direta, contam com serviços de crédito, em montantes pequenos e a taxas de juros preferenciais, tendo o aval da assinatura solidária da associação.
Iniciativa igualmente inspiradora é a da empresa Manos del Uruguay, criada em 1968, ao perceber que a habilidade das artesãs na elaboração de produtos de lã não encontrava um canal de distribuição que lhes permitisse viver desse trabalho. Com a formação de um núcleo fundador a lã, processada artesanalmente e trabalhada por mãos habilidosas, dispersas pelo país, transformava-se em roupas e objetos de decoração, com modelos desenhados por um grupo de profissionais sintonizados com o mercado. A boa recepção dos produtos fez que o núcleo original, constituído por 12 grupos, passasse em um ano para 31.
Tratando a cooperativa como empresa, foi criada em 1969 uma central de serviços para administrar o controle de qualidade, fornecimento e vendas, além de implementar várias ações voltadas à capacitação nos processos de trabalho e à participação das artesãs na gestão da empresa. Em 1976, Manos del Uruguay passou a ser efetivamente autogerida por suas cooperadas. Em um desafio de equilíbrio permanente entre propósito social e sucesso financeiro, a empresa apontou seu diferencial competitivo para a qualidade irrepreensível, o acabamento apurado e o design diferenciado. Essa receita de gestão conferiu a Manos del Uruguay sucesso não só no país, mas também nas páginas de diversas revistas de moda do mundo e a colocação de seus produtos em lojas de Paris, Tóquio e Nova York, para clientes como Polo Ralph Lauren, Donna Karan e Victoria’s Secret.
Associação civil sem fins lucrativos, tem hoje 100 funcionários e congrega 17 cooperativas, com um total de 350 artesãs de 39 localidades uruguaias, todas elas gozando dos benefícios sociais previstos em lei. Além disso, trabalha com 200 artesãos independentes, que criam peças com outros materiais naturais (madeira, cerâmica, couro), comercializadas nas cinco lojas da rede, estabelecidas em pontos badalados de Montevidéu e Punta del Este. Além de artesãos e designers, participam dessa iniciativa antropólogos e historiadores que colaboram para desenvolver peças com forte identidade nacional.
Os benefícios são duplos: por um lado, a garantia de uma fonte de renda estável impede que a população artesã seja obrigada a migrar para as grandes cidades, engordando o cinturão de pobreza e a desqualificação urbana (Montevidéu tem cerca de metade da população do país). Ao mesmo tempo, preserva as tradições e tecnologias culturais seculares, que de outro modo se perderiam, e as utiliza para promover a inclusão socioeconômica. Mais uma prova inconteste de que a criatividade e a cultura de um povo constituem uma fonte inesgotável para o desenvolvimento sustentável.
Ana Carla Fonseca Reis
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