Foto: Zaturno
Uma década depois da famosa cartilha “Cultura é um bom negócio”, editada na Era FHC – com os efeitos que todos conhecemos, o MinC volta ao mercado com um novo guia de ajuda. Dessa vez, pretende ensinar aos gestores públicos e privados como desenvolver editais. Nada contra o uso dos editais, que é aplicável apenas em alguns (poucos) casos. O problema é oferecê-lo como remédio para todos os males. 

Confira aqui relatório oficial, a cartilha na íntegra e análise crítica do assunto.

Como consultor fui responsável pelo desenvolvimento e coordenação de inúmeros editais de fomento à cultura, públicos e privados. É um instrumento muito eficiente em determinadas situações, mas não pode se transformar em solução generalizada.

O custo de um edital é muito alto, e sua execução demorada. Envolve investimentos em diagnóstico, contratação de consultores e advogados para a formulação de textos legais, comunicação, estrutura para recebimento e pré-seleção de projetos, comissão avaliadora, publicização de resultados, acompanhamento e gestão de processos.

O MinC sequer cumpre corretamente a maioria desses itens. Não oferece suporte adequado para proponentes, divulga em canais onde o benificiário final não é encontrado, escolhe comissões não autônomas, ou seja, comprometidas politicamente. E gasta em muitos casos, como o edital para Culturas Populares a ser lançado dia 15, e o Loucos por Diversidade, um volume muito alto do orçamento com viagens, lançamentos e aparato de marketing, dinheiro que poderia ser utilizado para a atividade fim, mas fica no meio do caminho.

Outro problema conhecido é a falta de gestão e acompanhamento de processos. Um item dispendioso e necessário, e que o MinC desconhece, não executa ou faz mal e porcamente, em praticamente todos os seus editais. Sem isso, sequer podemos ter noção da eficácia e efetividade da ação.

As variáveis que envolvem a opção de investimento por edital são muitas, mas geralmente aplica-se apenas para investimentos acima de R$ 3 milhões, se o investidor pretender buscar alcance nacional e equilibrar de fato as desigualdades regionais do país.

Sabemos que os “privilegiados” da região sudeste têm mais condições de vencer editais, sobretudo por ter mais acesso às informações e auxílio técnico para a elaboração de projetos. Essa lógica tem se confirmado nos editais do Ministério da Cultura, tanto quanto nos privados.

Altamente contaminada por uma lógica de marketing, a cartilha trabalha a gestão pública na base da oferta e da demanda, o que obviamente não se aplica à complexidade do campo cultural.

É mais democrático o sistema de editais?

Em alguns casos sim. Mas em outros, como acabamos de analisar, apenas reforça e amplia o abismo existente entre pobres e ricos em nossa sociedade. A olho nu torna-se um bom escudo para o gestor público, que continua a praticar uma política clientelista disfarçada. Cansei de ouvir recomendações de gestores públicos para que um projeto ou pessoa participasse de editais, pois “daria uma força” na avaliação.

A cartilha recomenda critérios claros – outro problema dos editais do governo federal, mas passa por cima da questão da escolha dos jurados, que é ponto central do sistema por editais. O promotor do edital não deve ter representante no júri, sobretudo o poder público. A prática do MinC, ao contrário disso, é recheada de cargos comissionados e pessoas atraledas ao grupo de comando. Desconfio de todos eles, muito embora os projetos selecionados sejam merecedores dos prêmios.

Do ponto de vista dos agentes culturais, a proliferação de editais tem se tornado um grande problema, pois obriga a passar grande parte do seu tempo envolvido com elaboração de projetos, num sistema meritrocrático na maioria das vezes injusto e inadequado, sobretudo para agentes de baixa-renda. O custo, portanto, para quem participa de editais é tão grande quanto para quem os promove.

O novo inimigo do MinC, os ditos “despachantes” de projetos, só se beneficiam dessas ações, sobretudo quando o edital é público, exigindo do concorrente (sobretudo os que não são artistas consagrados e amigos do Ministro) o mínumo de conhecimento de processos públicos e dinâmicas administrativas. No caso da gestão atual, as regras mudam a cada semana, gerando confusão até mesmo entre os funcionários do MinC. Aos artistas, essa realidade é mais aterrorizante. 

Recorde em investimento?

O MinC divulgou esta semana um recorde no investimento em editais governamentais. Segundo o release, o órgão aportou R$ 159 milhões no financiamento a projetos culturais em 2008, alcançando “um recorde histórico em investimento para o financiamento e o fomento aos diversos segmentos e setores culturais”. Segundo informações do MinC, que sempre desconfio pelo alto nível de manipulação de números que os comunicados oficiais vem trazendo, aponta para a aplicação do referido valor “em mais de 3.700 projetos de todas as regiões do país”.

Os números constam do Relatório Anual de Seleções Públicas do Sistema MinC – ministério e instituições vinculadas, divulgado pelo Observatório dos Editais, da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura (SPC/MinC). Os dados revelam, também, que os investimentos na área cultural apresentaram “um crescimento médio de 53%, a cada ano, desde 2002”.

Segundo o MinC,  a área cultural contou, ainda, em 2008, com investimentos da ordem de R$ 135 milhões dos editais públicos lançados pelas empresas estatais e privadas, muitos dos quais com apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. As secretarias e órgãos estaduais de Cultura, por sua vez, foram responsáveis por destinar R$ 126 milhões para contemplar iniciativas e manifestações artístico-culturais por meio de processos seletivos abertos a toda sociedade.

O Relatório, que não traz a base de dados, tampouco revela metodologia utilizada – informações básicas para a credibilidade de qualquer estudo estatístico, aponta outra informação significativa: 13% do montante dos recursos captados com o benefício do incentivo fiscal da Lei Rouanet é aplicado por meio de seleções públicas. Tudo isso para justificar a aprovação da lei que institui o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura (Profic), a ser encaminhada ao Congresso Nacional nos próximos dias. Infelizmente não há nada no projeto de lei que nos dê o mínimo de segurança em relação a isso.

Segundo o secretário executivo do MinC, Alfredo Manevy, o mecanismo contribui para a reconfiguração e distribuição da riqueza, na medida em que promove a descentralização do patrocínio.

Confira aqui a cartilha “Como fazer uma seleção pública de projetos e iniciativas culturais”.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

9Comentários

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 11 de julho de 2009 @ 17:04 Reply

    Será justo que um dos nossos maiores compositores, cantores e interpretes, orgulho de todos os brasileiros, exilado pela ditadura, tenha sofrido pela pátria e que nos ajuda em todas as nossas horas pela sua música, pela sua estética, tenha que pagar para nos mostrar o seu trabalho?

    Um pouquinho melodramatica esta penitente observação.Menos Sergio!
    Caetano não é ator de novela mexicana.É um grande artista brasileiro.

  • Carlos Henrique Machado, 12 de julho de 2009 @ 16:18 Reply

    Desculpa Leonardo, este comentário que fiz acima é para o texto de Sergio Ajzemberg, “O Ministro está Certo”. Me atrapalhei e postei em outro texto.
    Grande abraço.

  • Paula Brandão, 13 de julho de 2009 @ 10:31 Reply

    Concordo com muitas afirmações do artigo, como a falta de análise de resultados, a parcialidade das comissões de avaliação dos editais… Mas realmente discordo que este mecanismo não seja uma boa alternativa… A concentração de aprovações nas mãos dos produtores da região Sudeste acontece de uma forma ou de outra, o edital ao menos abre uma fresta para aqueles produtores que não tem uma agenda recheada de bons contatos. É uma tentativa de deixar a coisa um pouco mais (sim, um pouquinho talvez!) acessível.

    Defendo que se esse mecanismo fosse mais amplamente utilizado e com mais seriedade teríamos maior diversidade de projetos sendo realizados.

    Não consigo visualizar uma maneira melhor de desconcentrar as verbas… Temos sim é que aperfeiçoar e corrigir os erros que estão sendo repetidos.

  • Aninha Franco, 13 de julho de 2009 @ 11:40 Reply

    Leonardo, os editais também estão corrompidos pela cultura do estamento. Em tudo, em todos os lugares, em todas as coisas e pessoas ela prevalece. Além do que edital é instrumento da política, mas não é política cultural. Li, hoje, na Folha de São Paulo, que Juca Ferreira destinou 13 milhões da verba miserável da cultura a prêmios. Premiou artistas, esportistas, políticos… Com 13 mihões pode-se, querendo, alterar a relação do Brasil com a leitura…

  • fabio pinheiro, 14 de julho de 2009 @ 12:07 Reply

    Olá, o link para a cartilha não aparece…

  • Divo César, 14 de julho de 2009 @ 20:25 Reply

    Olá, tenho acompanhado as noticias enviadas.
    Apesar de trabalhar na secretaria de estado da cultura de sampa, ainda não tenho traquejo suficiente para me envolver nestas questões maiores e como funcionário publico, muito mal pago, tenho que cuidar de não ser mal interpretado pela censura “sutil” que há na área.
    com tanta experiencia em editais, o que pode me informar sobre editais do ministério da saúde para praticas terapeuticas levadas ao publico em praças, escolas, praias nos municipios?
    Abraços
    Divo

  • RÔMULO DUQUE, 16 de julho de 2009 @ 15:00 Reply

    Esta de EDITAL é ótima. Serve para os pobres coitados dos artistas e produtores culturais.
    Mas não serve para os GRANDES POLITICOS da cultura brasileira.
    Para estes as empresas dos EDITAIS reservam o espaço “projeto de interesse da empresa” que não passa pelo Edital . É decidido pela Presidencia da empresa.
    Foi isso que contemplou a FUNDAÇÃO SARNEY com mais de 1 milhão de reais pela Lei Rouanet.
    Afinal o dono da Fundação e alguns outros NÃO SÃO PESSOAS COMUM , que tenha que sofrer a humilhação de passar por seleção de EDITAL.

    Ora MINC vamos parar com esta hipocrisia. Se quer resolver boa parte do problema da desigualdade cultural neste país utiliza os dois unicos instrumentos que são eficientes. O ORÇAMENTO e O FUNDO NACIONAL DE CULTURA. Põe dinheiro neste dois instrumentos e direciona para quem não têm como captar na renúncia fiscal . E nesta deixa todos irem a luta , inclusive os “NÃO COMUNS”;

  • Leonardo Brant, 17 de julho de 2009 @ 13:08 Reply

    Fabio, inserimos o link no final do artigo. Obrigado. Abs, LB

  • Claudia, 13 de julho de 2010 @ 21:05 Reply

    Sou artista do Espírito Santo ,muito pouco recurso vem pra cá , parece até que o Espirito Santo não faz parte do Brasil!
    Como um artista de cidade pequena pode participar de Editais importantes como os da Funarte? Difícil passar pelo crivo deles, lugar pequeno com cultura minúscula,vai continuar assim, pois nada que agente projete não passa!!!!!!!Deixo aqui minha indignação!!!!!!
    Claudia

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