No dia 21 de julho foi lançada a Calculadora Cultural. Criada numa parceria entre ASAS Arte e Tecnologia e Garimpo de Soluções, a ferramenta une a expertise de mais de 30 anos de Luciana Machado como produtora cultural e de 30 anos de Ana Carla Fonseca (Cainha) como economista da cultura.

Desenhada sob medida para os gestores culturais, a Calculadora Cultural digital, mais do que estimar o impacto econômico de projetos culturais, ajuda o usuário a entender o que é impacto econômico e as variáveis que o afetam.

Confiram a entrevista exclusiva de Ana Carla Fonseca para o Cultura e Mercado, que traz detalhes sobre a criação e implementação do projeto:

Como surgiu a ideia de fazer a calculadora? Desde sempre imaginaram que seria esse o nome da ferramenta?

A ideia foi de Luciana Machado, produtora cultural de primeiro naipe, que em uma de nossas várias conversas sobre a importância da economia da cultura, trouxe esse pensamento. Como necessitávamos de um financiamento básico para cobrir ao menos as despesas do projeto, o lançamento do ProAC editais caiu como uma luva para levarmos essa proposta adiante, com um viés especialmente voltado a informar os usuários acerca do que, afinal, é impacto econômico e como usá-lo a favor do projeto. É claro que, como tudo o que é feito com paixão e muita dedicação, o projeto acabou progredindo além do prometido – o DNA Cultural, por exemplo, surgiu do incômodo de imaginarmos a frustração de alguns usuários, especialmente de projetos com viés social (e não comercial), de verem que seus projetos tinham baixo impacto econômico. Por outro lado, tivemos muita sorte por, ao longo do caminho, dois talentos cobiçados terem se somado ao projeto, de coração aberto. Alejandro Castañé vasculhou o mundo atrás de inspirações, metodologias e afins de algo que pudesse, eventualmente, assemelhar-se à Calculadora Cultural – até onde encontramos, inclusive, é a primeira iniciativa desse gênero, no mundo. Outra soma incrível foi Marcos Khoriati, arquiteto de software super disputado, que desenvolveu a ferramenta digital.

Quanto tempo levou para chegar nesse formato e quais foram os maiores desafios?

Dedicamos mais de um ano a esse projeto. Quanto aos desafios, menina, foram tantos… Encontrar um modo de, econometricamente, viabilizar a promessa, não tendo verba para desenvolver multiplicadores próprios; criar um modo intuitivo de guiar o usuário pelas propostas; traduzir conceitos que não são necessariamente fáceis; e, sobretudo, tourear a preocupação de entregar algo que fosse simples, didático e útil para os profissionais da cultura, especialmente em uma fase tão difícil como a que enfrentamos.

Há muitos anos a Garimpo de Soluções vem trabalhando fortemente questões ligadas aos impactos econômicos da cultura e sempre houve também um forte viés de defesa da cultura no território, sua importância e destaque nas chamadas “cidades criativas”. Como foi essa escolha ou, digamos, a trajetória para o desenvolvimento dessa pesquisa e da atuação da Garimpo?

É verdade! A Garimpo de Soluções comemora, neste mês de agosto, 18 anos de bandeiras, entregas e provocações no avanço dos enlaces entre economia, cultura e desenvolvimento territorial. O mais lindo, nessa trajetória, tem sido encontrar profissionais que, de forma complementar à nossa, empunham as mesmas bandeiras. Luciana Machado, fundadora da ASAS Arte e Tecnologia, é uma dessas pérolas com as quais a trilha nos presenteou. Colega de muitos carnavais, tornou-se amiga pessoal e parceira em vários projetos transformadores. Sem rasgação de seda, o Cultura e Mercado é outro ponto fundamental nessa trajetória, com tantos cursos e matérias que compartilhamos. Creio que uma das questões mais fortes que nos unem é o esforço de gerar massa crítica para que nossos territórios possam se beneficiar de sua cultura e de seus talento, para a satisfação e a sobrevivência econômica dos mesmos e o desenvolvimento dos territórios.

Qual a maior contribuição que vocês esperam da calculadora para o setor cultural?

Comprovar, irretorquivelmente, que cultura é investimento, não despesa.

Como tem sido a receptividade do mercado cultural à calculadora? Havia uma lacuna nesse sentido no Brasil, correto?

Total. Tivemos um acolhimento sem precedentes da comunidade cultural, com inúmeros agradecimentos por termos oferecido um modo simples e útil de a) mostrar o impacto de seus projetos (inclusive para os próprios proponentes) e b) ampliar o horizonte de visão dos usuários quanto aos múltiplos potenciais impactos de seus projetos em outros setores. 

Durante a pesquisa de vocês para criação da calculadora encontraram iniciativas similares no mundo?

Não. Encontramos calculadoras de impacto de projetos turísticos mas nada na linha do que desenvolvemos.

Hoje discute-se muito sobre o uso de dados colhidos por meio eletrônico por conta da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Como a calculadora trabalha com o armazenamento dos dados dos projetos? 

Sim e é, de fato, uma discussão muito relevante. No caso da Calculadora Cultural, porém, não há uso de dados classificados como “sensíveis” pela LGPD, como dados pessoais ou outros, que possam de alguma forma expor os autores do projeto. Além disso, as informações dos projetos cadastrados são acessíveis apenas pelo próprio usuário, que é autenticado e identificado por meio de uma conta Google. Apenas o código interno do usuário (user ID) é utilizado para referenciar os projetos ao usuário.

Vocês já possuem algum projeto que vise a continuidade da Calculadora e desenvolvimento de seus desdobramentos?

Nossa intenção é aprimorarmos cada vez mais a Calculadora Cultural e o DNA Cultural. Depende, porém, de conseguirmos fundos para isso, dado que a verba do ProAC Editais era limitada e foi empregada essencialmente para cobrir despesas de desenvolvimento, layout e registros. Somos, porém, otimistas que alguma instituição queira ser parceira nesse desenvolvimento.


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