A quinta-feira, 04/12, já se anunciava desconcertante. Abri o jornal e me deparei com um artigo na Folha de São Paulo, no qual Oscar Niemeyer dizia ter sido comunicado pelo governo paulista de que, por falta dos R$120 milhões orçados, o projeto de readequação do prédio do Detran (projetado pelo próprio Niemeyer) para abrigar o MAC-USP não será mais do arquiteto. O mesmo artigo ressaltava que o projeto do Teatro da Dança, do escritório suíço Herzog & De Meuron, contratado pelo governo paulista, nos custará R$300 milhões. Fechei rapidamente o jornal, ainda remoendo a notícia e fui para a Sala São Paulo, pensar no futuro das megalópoles, embalada pela expectativa de ver programas de transformação urbana levados a cabo. No caminho, vi com desalento a que ponto não chegamos com o projeto Nova Luz e adicionei essa pedra ao meu prato matutino de indigestões.

O resto do dia foi um banquete oferecido por 44 especialistas em urbanismo de todo o mundo e se prolongou pelo dia seguinte, embalado por um par de centenas de ouvintes de igual calibre. No cardápio, casos, projetos e reflexões. Dentre elas, as do Prefeito de Washington, exortando-nos a compreender os ativos maravilhosos que temos por aqui; o xerife (sim, o cargo existe – e é eleito, não nomeado) de Los Angeles, defendendo a importância do “intangível da confiança”; e a brasileira Teresa Caldeira, lembrando que representar as cidades significa unir imagens de contrastes, transformando barreiras em espaços de comunicação, ao invés de separação. Reconhecer nossos ativos, valorizar o intangível, unir polaridades – três ingredientes fundamentais nas discussões de economia da cultura e economia criativa que, cada vez mais, apresentam-se como um caminho lógico para o desenvolvimento do Brasil. Como, aliás, foi reforçado pelo Secretário Alberto Goldman, não por menos Secretário do Desenvolvimento.

As apresentações que se seguiram me fizeram pensar quão próximos são países distantes e quanto já sabemos sobre como resolver problemas recorrentes – embora do pensamento à ação pareça existir uma distância abissal. Enquanto a cineasta Tata Amaral contava a história de seu filme Antonia, rodado na Vila Brasilândia e clamava por novos olhares para reverter estereótipos, a professora da Sorbonne Sophie Body-Gendrot analisava o caso das manifestações violentas na periferia de Paris, pautadas pela urgência das pessoas de se fazerem ver. Visibilidade, expressão. Duas questões cruciais também para o encantador processo de combate a desigualdades e violência na colombiana Medellín, que se desdobrou em oficinas e bibliotecas, reduzindo em mais de 90% a taxa de homicídios na cidade. 

Ao final, algumas conclusões unânimes: pequenas ações podem ter grande efeito; continuidade e visão de longo prazo são básicos; é imperioso rever o pacto de governança, no qual interesses públicos, privados e da sociedade civil convirjam. Mas eu diria que há mais. Há uma necessidade vital de, ao invés de rankearmos nossas cidades em um concurso descabido, como é tão defendido por algus, tecermos uma rede que una as pequenas cidades e as metrópoles, com suas complementaridades de expertises, funções econômicas e diversidades culturais. Se é nas primeiras que se fincam nossas raízes e saberes tradicionais, é nas metrópoles que os galhos da diversidade alcançam mais longe.  Algo que a discussão acerca de grandes cidades deixou veladamente expresso, é a simbiose anímica que têm com as pequenas, para lembrar-se sempre de quem são.

A legião de urbanistas estrangeiros parece não duvidar que nosso país nina o balanço certo entre disciplina e displicência, tão raro de se encontrar no exterior – como, aliás, foi colocado nas palavras de encerramento. Eu me pergunto quando nos convenceremos disso. Talvez no dia em que passarmos a dar aos nossos talentos o mesmo reconhecimento que lhes é conferido no exterior, a exemplo de Niemeyer; ou ainda quando levarmos um projeto de intervenção urbana a cabo, no prazo e nos moldes prometidos. Mas confesso: sou uma otimista incurável. Talvez teimosamente otimista mas, enfim, incurável.


Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

10Comentários

  • Teatro Online » Blog Archive » Entre indigestões e acepipes, o banquete urbano da Urban Age, 7 de dezembro de 2008 @ 23:36 Reply

    […] próprio Niemeyer) para abrigar o MAC-USP não será mais do arquiteto. O mesmo artigo ressa… leia mais fonte: […]

  • mac » Blog Archive » Entre indigestões e acepipes, o banquete urbano da Urban Age, 8 de dezembro de 2008 @ 2:19 Reply

    […] Leia mais direto na fonte: http://www.culturaemercado.com.br […]

  • Jornal Online » Blog Archive » Entre indigestões e acepipes, o banquete urbano da Urban Age, 8 de dezembro de 2008 @ 3:34 Reply

    […] próprio Niemeyer) para abrigar o MAC-USP não será mais do arquiteto. O mesmo artigo ressa… leia mais fonte: […]

  • detran » Blog Archive » Entre indigestões e acepipes, o banquete urbano da Urban Age, 8 de dezembro de 2008 @ 5:15 Reply

    […] Leia mais direto na fonte: http://www.culturaemercado.com.br […]

  • Carlos Henrique Machado, 8 de dezembro de 2008 @ 10:33 Reply

    Ótimo texto, Ana Carla, uma bela reflexão! Estamos precisnado dessa idéia maior de extensão cultural. O Brasil tem que interagir com o mundo, mas tem que deixar de ter essa lógica excessivamente costeira, impregnada de imigracionismo injustificado em seus desdobramentos e resultados concretos para a sociedade.

    A exploração de alguns símbolos neste momento em que a transformação mundial está se dando com uma nova reconfiguração, é fundamental. Nyemeier é um desses símbolos universais, bem brasileiro, mas universal.

    Tenho notícias de que já se amplia e muito o projeto da internacionalização do choro brasileiro em função do desenvolvimento e da construção do novo prédio que abrigará o “ESPAÇO CULTURAL DO CHORO” em Brasília, projetado por Nyemeier. A soma desses dois elementos, a música brasileira que ganha cada vez mais espaço nos maiores e melhores palcos do mundo e escolas de música contemporânea, vem sendo ainda mais difundida com futuras parcerias com o “Espaço Cultural do Choro”, devido à abertura de espaço internacional que a assinatura de Nyemeier vem proporcionando a este projeto, além lógico, da própria visão de ampliação dessa linguagem musical do Reco do Bandolim, um incansável guerreiro que transformou o abandonado vestiário público na principal escola de música brasileira e no Clube do Choro, hoje referência em todo o mundo. Este Reco, um sonhador incorrigível é o grande transformador, como você mesma diz, do começo de muita luta e muitos sonhos, transformar o Clube do Choro de Brasília, neste que será o Espaço Cultural do Choro, uma das referências de música no mundo, assim como as grandes escolas e palcos símbolos do jazz.

    É isso, Ana Carla, temos o direito de sonhar o Brasil. Esta matéria abaixo que li a pouco no blog do Luis Nassif, flagra o momento que estamos vivendo e que papel devemos ter no âmbito da cultura para estarmos ladeados com o país nesses novos tempos. Por isso o seu otimismo é justificado. Partilho deste mesmo sentimento.

    O novo peso do Brasil
    Da Folha
    Com novo peso global, Brasil tem mais responsabilidades

    MARCELO NINIO
    ENVIADO ESPECIAL A DOHA

    Para dirigente da ONU, Obama é fonte de “mudança climática” nas relações internacionais

    EM JANEIRO , Ban Ki-moon completa dois anos no cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas em meio à mais grave crise financeira mundial desde a fundação da entidade, em 1945. Para o diplomata sul-coreano, é o momento de a ONU assumir papel de liderança para permitir uma resposta coordenada à crise, que inclua a reforma das instituições multilaterais e a maior participação de países emergentes, como o Brasil. Ban aposta em avanços no projeto de ampliar o Conselho de Segurança da ONU, no qual o Brasil aspira a um assento permanente.

    FOLHA – Esta é a maior crise financeira desde a criação da ONU. Qual a relevância da organização neste momento?
    BAN KI-MOON – As Nações Unidas são o único órgão intergovernamental com capacidade de assumir um papel universal no combate à crise. Cada país pode implementar medidas domésticas. Mas, se elas não forem coordenadas internacionalmente, o impacto será reduzido. A ONU pode dar um valor agregado a essas medidas, sobretudo diminuindo os efeitos nos países em desenvolvimento. Se os problemas sociais e econômicos criados pela crise financeira não forem atacados, a estabilidade política e a paz estarão sob ameaça.

    (…) FOLHA – Para muitos, a crise é o prenúncio de uma nova ordem mundial. Que lugar devem ter os países emergentes?
    BAN – O discurso do presidente Lula em Washington foi eloqüente e apaixonado e deixou todos impressionados. Reforçou o forte chamado atual por reformas das instituições de Bretton Woods e o fortalecimento das regras que monitoram os sistemas bancário e financeiro. Antes de mais nada, cada país precisa apagar o seu incêndio, para que ele não se espalhe para os vizinhos. Mas creio que são necessárias modalidades inclusivas e multilaterais, uma visão mais abrangente. Não há uma fórmula fechada: começaram com G7, depois expandiram para G8. Agora, considerando que a maior parte do crescimento econômico vem dos emergentes, expandiram para G20. Esses países representam 90% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial e da população, então tecnicamente é um formato justo. Mas não há um corte exato.

    FOLHA – E o Brasil?
    BAN – Por qualquer critério, o Brasil é hoje um dos países mais importantes do mundo e está no centro das discussões sobre os maiores desafios, como as mudanças climáticas e a crise financeira. Tem um papel-chave no G20. Com isso, também terá que ter um maior senso de responsabilidade.

    Comentário

    Enquanto isto, por aqui:

    1. O discurso do Lula tendo impacto no mundo e a crítica midiática se concentra na sua linguagem coloquial. É o chamado provincianismo da norma culta.

    2. A grande ameaça pela frente são os erros reiterados na condução da política monetária pelo Banco Central – plenamente avalizados por Lula. Mas não se pode bater nesse ponto porque, antes, se considerava a política virtuosa e se atribuía o mérito à herança de FHC. A responsabilidade sempre foi do Lula, na alegria e, agora, na tristeza. Mas quem faz política, não consegue fazer jornalismo.

  • Bia, 8 de dezembro de 2008 @ 11:27 Reply

    Ana,
    concordo plenamente e também fiquei triste pelo MAC/ Detran não ser mais do Niemeyer! Muito bom o seu texto!

  • alvaro santi, 9 de dezembro de 2008 @ 12:47 Reply

    Belo texto, parabéns! Só um detalhe, que não prejudica o conjunto: não é matematicamente possível “reduzir em mais de 900% a taxa de homicídios”, é?

  • Ana Carla, 10 de dezembro de 2008 @ 2:34 Reply

    Carlos Henrique, sempre participativo, isso é bom. Adoro discursos eloqüentes e apaixonados, mas confesso que não vejo a mesma energia em trazer as palavras ao mundo das ações. Enquanto isso, como de hábito no andar da carruagem, a marolinha-tsunami bate às portas do Banco Central.
    Oi, Bia, bom te ver por aqui!
    Alvaro, tem toda a razão, bati um 0 a mais. Obrigada pelo toque, já vou consertar.

  • Carlos Henrique Machado, 10 de dezembro de 2008 @ 12:16 Reply

    Oi Ana!
    Me perdoe a pressa, é a alma dos nossos negócios. (Paulinho da Viola)
    Infelizmente, eu tambem só ando assim, e quando posso num sinal fechado dou dois dedinhos de prosa.

    Não tenho uma agenda politica, digo com politico, sou meio desajeitado pra essas coisas, essas necessarias habilidades/amabilidades político/sociais, não necessariamente nesta ordem, até porque, como já sabemos, “a ordem dos tratores não altera o viaduto, pricipalmente aqueles que caem pra tampar o buraco do metrô, como faz a midiazona para esconder as lambanças aliadas. Neste univeso, tem um certo “Q” de charme, de sutilezas, códigos com os quais, nós aqui da geral, do grotesco, do rude/bárbaro não sabemos lidar.

    Então, entre uma nota e outra da nossa criação, paramos e vamos balangar o café requentado com um tantão de açucar para minimizar o efeito estufa que anda no limite da nossa eterna paciência em ver a mudança da ROTA!!!.

    Mas sou sim otimista,TORCEDOR ELOQUENTE, e que a midia não nos ouça! “ela, A MARDITA, está fazendo despacho em encruzilhada para ver se a crise chega logo para dar materia prima a turma que é contratada para dar vaias em Lula nos maracas da vida”.

    O Maiazinho e o Acmizinho da renovação carismática de uma oposição sem discurso tem que guardar a afirmação neoliberal. Zé Dirceu ja deu um balão nos aspirantes de corones e ja está colando e com justiça a pexa de associação com o crime GLOBALIZADO do nosso super homen da carta magna “Alan Greenspan”. E o que parece que o pó de MICO que Dirceu jogou na praça esta fazendo Tucano virar SACI. Nem lobato na sacizada fez tanta gente pular para apagar incendio em floresta de set de gravação. Já ja teremos que ver o deslocamento de Jungmann, que anda a defender Daniel Dantas, para se juntar com Demóstenes e cantar em dueto caipira naquele pinga-fogo de microondas que a Globo inventou, à capela Castrale e ao estilo bufão para agradar ao rei e, em alto e bom som dizer a Zé Dirceu, “Por que não te calas?”

    Infelizmente para a mídia, os números não são nada favoráveis a essa pajelança que a mídia e a oposição estão fazendo para que a crise chegue ao Brasil, ou melhor, bata na porta de Henrique Meireles. Ao contrário disso, os índices de crescimento estão mais amplos do que se imaginava, vai entender um país desse!

    Não acho que FHC e sua trupe sejam pés frios, talvez, pés de atleta, termo mais correto.

    Veja bem o meu raciocínio: Na última eleição, todas as vezes que FHC aparecia na mídia para atacar Lula, víamos aquele efeito massa de pão, Lula só crescia. Agora, como você mesmo cita, Serra apareceu com 6% na pesquisa espontânea Datafolha, num dado escamoteado pela mídia que mostrou somente um lado da pesquisa. Pois é, no entanto, mesmo que isso fosse verdade, Serra, como um bom seguidor de FHC, não deixa por menos e empata, em termos de vidraça, com o MinC com o seu investimento no delírio do Balé Bolshoi(vista) das balelas dos balés civilizatórios, mesmo diante do caos da cracolândia.

    É isso, Ana. Que tiremos lições de tudo o que a política nos apresenta e apliquemos nas nossas políticas públicas de cultura. Que ouçamos o conselho de Maria Alice Gouveia, quando faz um alerta sobre a pesquisa feita com clientes de bancos sobre a questão do investimento, pelos bancos, em cultura. Simplesmente nem aparece nas prioridades. O que mostra que o povo de bobo não tem nada. O que podemos ler nessa pesquisa? É que, não adianta levantar prédios imponentes em centros financeiros e escamotear a péssima prestação cotidiana de serviços que os bancos anacronicamente mentém, ou seja, filas quilométricas e taxas altíssimas de serviços. O cliente deixou bem claro que não está disposto a trocar o conforto dos seus pés por um sapato bonito, mas que lhe dá calos. De projetos de fachada, o brasileiro já está farto.

  • Rafael Gonçalves, 20 de janeiro de 2009 @ 11:03 Reply

    Para não ser tomado como ferida exposta, um olhar aberto e perspicaz deve persistir até se tornar costumaz aos que dele se cercam, e observam novo horizonte à trilhar e construir. Ao deixar de ser visto como arma conspiradora, pelo contrário por tal irreverência que seja, uma alavanca motriz que eleva a humanidade, liberta-a do julgo cativo de ordens ultrapassadas.
    Quiçá outros olhos se abram, e nova consciências proliferem.
    Já não há tanto espaço para nos sufocarmos entre paredes infertéis ou contendas ilusórias.
    Cantemos nossas trovas, dancemos pra chuva nos abençoar lavando a alma. Onde caem seus pingos, nesta terra onde nos levantamos, caminhamos e caímos, sempre há de florescer esperança.
    Vejo suas palavras assim como planta que brota no refugo.
    E que se não cresce junto com as nossas, corremos o risco de virar pó em deserto…
    Deste impressionante disputar em cabos de guerra, talvez, vislumbremos transformar a corda em apoio, ao invés de apenas um ou dois contrapontos, um laço de união.
    Grato pela contribuição reflexiva Cainha!
    Bjs e buena vista!

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