Foto: Gil Lopes
Uma atriz de novela brasileira conquistou o país e foi celebrada em Los Angeles numa festa de prêmios entre os melhores programas de tv no mundo.  Esse acontecimento seria suficiente para projetar nossa estrela no mercado de atrizes em território americano? Teria chances?

Imediatamente recordamos Sônia Braga como um modelo de situação semelhante. Depois de tantos anos como percebemos sua trajetória ? Além da conquista individual que definitivamente pertence exclusivamente a ela, sua imigração trouxe algum benefício para o ambiente de reprodução das artes cênicas brasileiras?

Do ponto de vista pessoal qualquer pessoa deve poder fazer o que bem entender do seu destino, inclusive escalar o Monte Everest se quiser. Mas como modelo de reprodução o que podemos concluir da experiência de Sônia Braga. Seria um bom exemplo para nossa atual atriz vitoriosa?

Os mais antigos poderão recordar a bela cearense Florinda Bulcan que nos anos 60 se lançou na Itália assessorada por uma Condessa local e teve um sucesso relativo e projeção internacional. Tanto Sônia como Florinda passaram a residir no exterior definitivamente. Haveria alguma chance sem a presença definitiva nos mercados que se submeteram?

Enquanto isso observamos artistas espanhóis conquistando um espaço global e sendo premiados em produções americanas, Penélope Cruz é a mais destacada atualmente, mas não só. A presença hipânica relevante no território americano é a base e a razão desse sucesso. Nenhuma outra nacionalidade tem tanta presença nos EUA quanto os hispanos.

Mas poderíamos dizer que as artes cênicas espanholas recebem alguma vantagem por conta desse sucesso de alguns de seus atores em terras estrangeiras?

Mas e a música , o futebol brasileiro? Não seriam exemplos bem sucedidos da globalização nos atingindo favoravelmente?

No caso da música temos que considerar a capacidade interna de geração de riqueza como a base da plataforma de sua exportação. Sem ela é impossível manter o ritmo de produção e circulação necessários para a consolidação da presença. Sem dúvida foi nossa experiência artística mais bem sucedida internacionalmente, e atualmente sofre um período de deterioração em função da ausência exatamente desses pressupostos. Interrompe-se assim o caminho que sobretudo João Gilberto e Tom Jobim nos legaram.

O futebol que é esporte, para nós é arte. O primeiro presente é uma camisa do clube do coração. O êxodo dos nossos melhores atletas impede que tenhamos acesso ao seu show a não ser pela via televisiva, somos compradores de bom futebol internacional pela TV, não compartilhamos com a excelência de suas exibições. Mas o celeiro se mantém, a esperança da redenção econômica no exterior é mais um fator de estímulo.

Agora que recuperamos nossa capacidade de sonhar, de projetar utopias, em que medida podemos conceber participar da globalização cultural?


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Produtor cultural, economista e diretor da Showbrás Produções Artísticas.

9Comentários

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 18 de março de 2010 @ 13:40 Reply

    Tudo muito bom, tudo muito bem Gil, mas não coloque a produçao da musica brasileira contemporanea na dimensão de sua limitada organização.
    Tem um bela frase de um velho mestre que diz,(Todo tempo não é um)

    O estreitamento de sua analise sobre a dimensão de nossa musica é um passaporte ao cemiterio.
    Saia desta teia provinciana de zona sul da guanabara, o Jabor ja comete esta analise de crepusculo saudosista.

  • gil lopes, 18 de março de 2010 @ 17:56 Reply

    Grande visita e comentário, vc sabe que é bem vindo. Nós sabemos que somos melhores que nossos comentários..ehehe…
    eu me salvo com o “sobretudo”…é importante dizer esse sobretudo, os dois maiores gênios da nossa música para mim é João e Tom. O ritmo e a melodia.

  • Lenon Rodrigues, 19 de março de 2010 @ 20:19 Reply

    Oi, Gil!
    Acompanho todos os artigos e comentários deste site. Percebi que sua crítica quase sempre está relacionada a uma possível “deterioração da música brasileira”. O que entendo quase sempre também de seus comentários é que esta tal deterioração é justificada, de sua parte, por uma falta de novas produções de qualidade (artistas e suas músicas) que relembrem uma época de grande efervescência para a nossa música, talvez esta de Jobim e João Gilberto. Bem, não vou divagar muito. Vou direto ao ponto. Corrija-me se estiver errado sobre o que você realmente quer dizer.

    Realmente, grandes nomes você citou, época maravilhosa da nossa música que deixou muitos legados para futuras gerações. Concordo em partes com sua teoria da deterioração. Não sei de que parte do Brasil você é. Te convido a conhecer três Estados brasileiros que, ao meu conhecimento e meu ver, há tempos que fervem de criatividade musical e que produzem artistas e suas respectivas músicas de muita qualidade, não devendo nada a ninguém, e fazendo bem o que nós brasileiros sabemos fazer de melhor : a música. Convido-o a acompanhar de perto o que se passa em Alagoas, Paraíba e Pernambuco. Vou logo adiantando que infelizmente eles ainda não são “concorrentes diretos” do mainstream, apesar de serem aceitos por um grande público. Estes, os do mainstream, que, ao meu ver, estão deteriorando a música brasileira, não pelo fato de existirem, mas por serem impostos guela abaixo para uma grande maioria dos brasileiros como a única e atual produção musical. A americanização, como já li em alguns de seus comentários, não é a ameaça para a música nordestina. A ameaça está no simulacro criado a partir da própria essência da música popular nordestina. E este simulacro é que é apresentado como única alternativa e como uma “modernização” de um passado, que segundo a justificativa errônea e perigosa do mercado, não há mais sentido.

    Talvez outros Estados mais “desconhecidos” estejam vivendo também um período fértil e criativo. Mas infelizmente não estamos a par. O problema é a difusão, os valores, as prioridades. Nossos Tons e Gilbertos tiveram a sorte de serem legitimados (com todo o mérito e razão) pelas instituições que legitimam as obras de arte e os artistas. Tiveram a sorte de criarem suas obras num tempo em que os valores de mercado não falavam mais alto do que os valores cantados e, se podemos dizer assim, também tocados nos acordes dissonantes de tom, chico e joão gilberto.

    Outro fato. Na minha opinião um acontecimento que há algum tempo está fazendo um grande favor a música brasileira é a proliferação dos blogs de música. Estes blogs estão fazendo as novas gerações descobrirem artistas que, durante esta mesmo época de Tom e João, não tiveram o mesma visibilidade. Estão fazendo inclusive redescobrirem artistas já renome e já bem conhecidos. Acho que isso desperta um interesse no presente.
    Espero que eu esteja sendo claro no que quero dizer, mas estou escrevendo rápido e tenho impressão de que não estou escolhendo as palavras como quero. Mas enfim… creio que o problema seja na difusão, ou antes de tudo, nos valores. Sem querer ser o puritano, mas creio que estamos vivendo uma deterioração de valores que influenciam nas prioridades. Creio que música ruim é produzida na mesma escala que música boa, o problema creio que seja a difusão, a prioridade. Que valores devemos priorizar e por que?

    Espero que tenha conseguido me fazer compreender, e gostaria de ter o retorno de sua parte.

    Grande abraço

  • gil lopes, 20 de março de 2010 @ 0:35 Reply

    salve Lenon…lamento mas vc não deve ter lido o que tenho dito. Não é nada disso…deterioração? dos fatores industriais, nunca dos criativos. Se tiver bambu tem flecha, precisamos de mercado de música, produção, circulação, distribuição, musicalidade não falta, no Brasil inteiro, de todo lado, essa mistura deu um sonzinho bom…mas caiu uma Bomba Atômica e destruiu a capacidade de geração de riqueza com a nossa música e isso impede a produção de novos talentos e a circulação da nossa música, aqui e no mundo. Nada a ver com criatividade, tudo a ver com mercado. E não foi só aqui, foi no mundo inteiro. Aqui é pior, o estrago aqui é pior.
    Nesse vazio, só temos a música anglo americana circulando no mundo, fazendo dinheiro e portanto com força de reprodução, midia, divulgação. Entram aqui através dos shows ocupando todo espaço. Não são eles que estão errados, somos nós que aceitamos e não fazemos nada pra mudar isso. E tome dólar barato!
    Tom e João tiveram mais que sorte, foram iluminados, não vale nem a pena falar sobre eles, são deuses, não há explicação, vamos mitificá-los, comê-los.
    Nossa música no meio digital é apenas circulação bastarda, cantoria no chuveiro manja? Não é nada, anacrônica. Não temos projetos ainda para o meio digital, somos totalmente subdesenvolvidos em relação a Nova Cultura, estamos na pedra lascada ainda …
    Mas estamos vivos e…pipoca aqui, ali, anoitece e amanhã tudo mudou…oi skindô oi skindô.

  • gil lopes, 20 de março de 2010 @ 0:44 Reply

    Esquece mainstream, isso não existe aqui… mainstream é americano, no mundo inteiro, depois do mainstream aí nós começamos…portanto esqueça isso, ninguém aqui é famoso, o ambiente não é pra que nossos artistas sejam famosos, não há política cultural daqui, o que há é a anti política cultural e é contra ela que nos manifestamos. Essa anti política nos atinge a todos, no Brasil inteiro, questionar nossa unidade federativa é a nova besteira, canalhice, estão querendo nos dividir ehehe….diversionismo. Nossa questão é como recebemos o que vem de fora daqui, que políticas temos e queremos para o que é feito aqui, não importa aonde…mas atenção! Não queremos construir muros, de jeito nenhum, precisamos estar em contacto intenso com o mundo, queremos a modernidade, ordem e progresso é nosso lema, na bandeira, portanto…mas o que qeremos é uma política, prioridade, somos um gigante, temos e podemos ter o que dizer entre as nações, podemos e devemos competir no ambiente das nações, com nossos pontos de vista e interesses, nossas maneiras e nossos jeitos, nossos cheiros e gostos, nosso som e balanço..pra isso precisamos definir prioridades, aqui dentro…está claro?

  • Lenon Rodrigues, 20 de março de 2010 @ 14:34 Reply

    Explicado e entendido. Apenas uma observação : quando falei em Mainstream, me referia antes de tudo a uma homogeneização do gosto e da oferta. Isso existe sim e muito aqui e no mundo inteiro.
    É a contra-diversidade.

    abraço

  • gil lopes, 20 de março de 2010 @ 20:28 Reply

    Perfeito Lenon ( êta cabra bom de nome…eheheh), meimstrim é isso mesmo que você disse, e é exatamente como eu disse, americano. É a expressão da hegemonia, tudo gira e tende pra isso aí…e esse é justamente o ponto da Cultura! ( ponte de cultura é outra coisa né?)…o Ponto da Cultura é esse, o nó do rabo do porco, como vamos nos relacionar com isso, esse é o desafio e essa é a guerra da cultura que está estabelecida em todo mundo, a nova e moderna guerra dos nossos tempos, a arma é a Cultura.

  • Elisa Gueiras, 22 de março de 2010 @ 0:22 Reply

    Gil, assim vou concordar com o Carlos alguns comentários acima…
    Não sejamos estreitos quanto a produção musical brasileira.
    Ok ?!
    Até mais.
    Elisa

  • gil lopes, 22 de março de 2010 @ 10:56 Reply

    e essa agora Carlos, tá vendo no que dá? Vc faz a confusão e tem gente que aproveita, resultado: a gente perde tempo, o papo fica vazio, vira opinativo sem fundamento, provocação rasteira…será que o futuro serão mediadores? Tomara que não…

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