Nos seis anos em que esteve à frente da Secretaria Executiva do Ministério da Cultura, Juca Ferreira manteve com setores da classe artística uma relação tensa, atritada e até ameaçadora em alguns momentos, o que lhe rendeu acusações de autoritarismo.

Feito ministro, com mais poder, portanto, eis que surge um outro Juca: acessível, conciliador, cativante, deixando os seus “marcadores” procurando a bola, como fazia Garrincha. Sua performance lembra o Lula de 2002 que, candidato à Presidência da República, surpreendeu o mundo político com uma campanha eleitoral de inspiração gandhiana. Mas, a que, exatamente, Ferreira é candidato? Bem, há numerosas teorias a respeito.

O mais provável, do meu ponto de vista, é que se trate mesmo daquilo que parece, um esforço do ministro para unificar a produção cultural que, progressivamente, vem se apresentando como um condomínio complexo, problemático, assentado sobre bases precárias e com razoável risco de pane ou colapso.
O Brasil tem uma população equivalente à de Inglaterra, França, Itália e Portugal somados, mas sempre dispôs de um orçamento federal para a cultura de padrão municipal. O resultado é um déficit imenso e histórico no setor, cuja redução depende de variáveis complicadíssimas como verbas, política e ideologia. Não é tarefa fácil, portanto.

No centro das atenções, o espinhoso empreendimento de reformar a Lei Rouanet de incentivo fiscal à cultura que, para além dos seus aspectos técnicos, adquiriu uma dimensão simbólica no ambiente cultural. Ser contra ou a favor deste mecanismo tornou-se quase um indicador de caráter e a partir deste exagero instalou-se um verdadeiro cabo-de-guerra.

Simplificação
É neste cenário que surgem os “Diálogos Culturais”, seminários que correm o país para explicar a proposta do governo para alteração dessa legislação e nos quais o ministro Juca vem se consagrando, ganhando corações e mentes. De fato, é admirável a sua incansável disposição para o diálogo e o domínio que revela sobre problemas da cultura brasileira.

Contudo, na minha opinião, as teorias do ministro apresentam pontos de inconsistência que, às vezes, fazem o seu discurso resvalar na simplificação. Em nome do bom debate, vamos a eles. Por exemplo, em um dos pontos altos de sua apresentação, o ministro questiona o porquê de um produtor cultural, depois de ver os seus projetos aprovados no ministério, “ainda ter de se ajoelhar aos pés dos diretores de marketing nas empresas” para conseguir dinheiro.

A pergunta lançada à platéia com eloqüência tem um efeito poderoso, mas: 1 – Como seria o cenário, aceitas as alterações que o governo propõe? Todos os produtores culturais com projetos aprovados no ministério receberiam o dinheiro de que necessitam? Sabemos que anualmente são habilitados mais de 9.000 projetos naquele órgão e que para atender a todos precisaríamos de uma montanha de recursos, que não existe.

O que aconteceria com mais de 80% dos produtores que ficariam de fora do processo? É óbvio que esta multidão de desatendidos nada tem a ver com diretores de marketing e tudo a ver com a falta de verbas. Esta é a vilã que mantém a área cultural de joelhos não é de hoje.

2 – Um dos problemas da Lei Rouanet, sabemos, é a alta concentração dos seus recursos nas regiões Sul e Sudeste. Existem meios técnicos para reduzir este descompasso, mas que nunca foram adotados pelo governo que preferiu apostar no aumento do seu poder no que diz respeito ao destino dos impostos das empresas interessadas. Pois bem, os gráficos apresentados agora pelo ministério mostram que, em 2003, o Sul e o Sudeste ficavam com 72% do bolo e, em 2007, este percentual subiu para 80%.

Isto é, a coisa piorou nos últimos cinco anos. Por quê? Simples, em se tratando de incentivos fiscais, não se consegue desconcentrar a sua distribuição centralizando as decisões. Claro que centralizar está no DNA do Estado. Claro, também, que essa é a sua tendência natural. Porém, os excessos e a sua aplicação fora de lugar podem se transformar em irracionalidade, como no conhecido caso da burocracia e tantos outros.
O incentivo fiscal é outro bom exemplo no qual a centralização das decisões é desastrosa porque neutraliza a sua essência, remove as suas virtudes ao mesmo tempo em que dobra os seus defeitos. É como querer pilotar um avião com a sua aerodinâmica invertida. Não é difícil prever o resultado.

O texto também foi publicado no jornal Folha de São Paulo em 14/12/2008.


contributor

Coprodutor do espetáculo "Liberdade, Liberdade", de Flávio Rangel e Millor Fernandes, e diretor do documentário "Fora do Figurino", sobre o caráter do jeitinho brasileiro.

3Comentários

  • Tito, 21 de dezembro de 2008 @ 22:48 Reply

    Olá Paulo, eu entendi diferente, o ministro questionando “porque o produtor cultural tem que se ajoelhar no departamento de marketing das empresas” na minha opinião ele estava questionando o fato das empresas usarem somente os 100% de insenção fiscal que teriam direito não colocando nenhuma contrapartida em projetos (apenas 10% das empresas oferecem contrapartida) ou seja o dinheiro investido seria o dinheiro dos impostos (dinheiro do governo portanto nosso), constatando que, se as empresas estão usando somente o dinheiro dos impostos então porque o produtor tem que pedir as empresas?? inclusive citou o exemplo do Museu do Futebol, que destinou 5 milhões sendo 100% de insenção sem contrapartida, as empresas aparecem como patrocinadoras mas o dinheiro aplicado lá seria o destinado a impostos que teoricamente teriam que ser revertido a políticas públicas, realmente é estranho, seria pedir de joelhos para uma empresa de dar um dinheiro que teoricamente não é dela é de todos nós.

    Na minha opinião se 4% do imposto de renda das empresas (lucro real) fossem destinado ao FNC e o governo aplicasse diretamente em projetos culturais, seria uma maneira muito centralizada de investimento cultural, mas deixar que as empresas decidem isso muito privatizante, o ideal é buscar o meio termo, talvez essa seria uma luz no fim do túnel para a nova Rouanet.

    Outra questão, acredito que o governo ainda não tem nenhuma proposta de alteração da lei Rouanet, está apenas abrindo o diálogo e apresentando as distorções da lei para chamar a atenção quanto a necessidade de mudança, o que podemos ver é só uma tendência de guiar as alterações da lei em torno dos percentuais de insenção com uma clara intenção de limitar os 100% e criar regras para aplicar esses 100% etc… Tem muita discussão ainda pela frente, mas acho que o caminho é esse.

    A questão da centralização da lei é muito polêmica também, 80% dos projetos financiados são na região sudeste, mas como fazer com que as empresas investem em outras regiões se os investimentos de marketing estão todos direcionadas ao sudeste? Acho que essa compensação tem que vir do governo e não das empresas, pois elas investem para ter retorno de imagem não pra fazer filantropia, por isso a necessidade da ampliação do fundo nacional de cultura. Particularmente acho interessante em criar regras mais claras quanto a isenção dos 100% para aumentar a contrapartida das empresas com o intúito de ampliar o fundo (FNC) e compensar as distorções da lei como a descentralização dos investimentos em cultura. Mas é bem complicado essa equação, existe um clima em torno de uma possível piora do sistema, ou seja, se a lei está ruim na possibilidade de piorar deixamos assim. A solução é muita discussão, transparência e envolvimento de todos nós.

  • Leonardo, 22 de dezembro de 2008 @ 15:54 Reply

    Tito, boas colocações.
    No entanto, para continuarmos a conversa, tenho algumas questões:
    1) Supondo que os 4% do IR sejam investidos diretamente pelo MinC nos projetos: você realmente acredita que o Ministério da Cultural, que mal-mal consegue monitorar seus 600 Pontos de Cultura e alguns outros convênios, conseguiria monitorar esse grande montante de recursos? Eu acho que não, daí a necessidade de triangulação desses sistema com o poder privado. É a lei do menor esforço. Se eu não consigo, deixo transferir antes que chegue a mim.
    2) Sobre a isenção de 100%: realmente é muita “mamata” para as empresas terem retorno midiático sobre um investimento que, teoricamente, é 0 x 0. No entanto, se a contrapartida obrigatório em recursos próprios for implantada de imediato, você acha que teríamos qual resultado imediato?
    Opção a: diminuição em cerca de 80 a 90% dos investimentos em Lei Rouanet e todos os produtores e artistas na mão, ou seja, um resultado cruel a curto prazo para o mercado.
    Opção b: que as empresas iriam aderar ao sistema.
    Eu acho que a opção a. A intenção é boa, mas a curto prazo é cruel. Cruel para as empresas que estão despreparadas e viciadas no modelo mecenato atual. Cruel para os artistas e produtores culturais que ficariam literalmente sem poder de trabalho. Cruel para o MinC, que teria sua imagem bastante afetada.

    Penso em um terceiro modelo, onde parte do investimento fiscal das empresas iriam diretamente para o FNC. Por exemplo, para um projeto de 100mil, a empresa abateria 100% do valor investido, só que teria que investir 120mil. Ou seja, parte para o projeto e parte obrigatoriamente para o FNC. Acho que é um caminho mais suave, principalmente por uma época de crise à vista, onde o mecenato só tende a diminuir.

    Acho que todas estas questões têm que ser colocadas nos “Diálogos Culturais”, mas o que se diz por aí é que só se bate palma para o novo ministro popstar.

    A coisa tá brava.

  • Carlos Henrique Machado, 22 de dezembro de 2008 @ 20:08 Reply

    Dois mitos precisam ser emplodidos urgentemente nos debates e também a dinâmica das análises sobre toda essa coisa ambígua que inverte imagens nos assuntos da cultura brasileira.

    O paternalismo estatal sempre honrou a prerrogativa das ditas “Elites Culturais”, portanto, se pegarmos o histórico do fundo literalmente perdido investido em cultura, estaremos nos encontrando à meia noite, em algum calabouço, com essa mesma irmandade das carmelitas culturais dos guardiões da boa conduta.

    É uma bobagem essa crença na estupidez alheia nutrida pela lógica do marketing empresarial no campo da cultura.

    A sociedade sabe perfeitamente como dança o bonde do marketeiro fanfarrão. Ele, na sua santa ingenuidade, acha mesmo que comprando a imagem consagrada na grande mídia, garantirá o retorno de imagem institucional para a empresa, ao contrário, a sociedade é muito mais crítica do que se imagina. Se um marketeiro desses que andam a aconselhar empresários, tivesse um desafio como o de Marcos Pereira que tirou Cartola da condição de porteiro e lavador de carro na zona sul e, com a sua seguradora patrocinou o primeiro disco de Cartola na década de 70 e que ainda hoje é um clássico tanto nacional quanto internacional e que continua em catálogo, além de fazer parte da lista dos maiores clássicos dos últimos tempos na música brasileira e na revista Bravo, com certeza, o nosso marketeiro de hoje jamais investiria num Cartola por acreditar nesse discurso que beira à infâmia do desconhecimento do mundo em que ele se mete a analisar e vem com uma história estapafúrdia de que projetos como este são filantropia.

    Precisamos rever o nosso modo de enxergar as coisas, aprender a ficar de cócoras à beira do riacho observando como o mesmo se movimenta. Esse jogo de advinhação num modernismo fajuto, mercadoria tão facilmente comprada por um certo mercado cultural e precisa ser colocada em xeque, porque até a análise do investimento em algo pronto, é um tremendo tiro no pé. Mas como o que cerca este universo que cultua uma sabedoria de blefes insiste neste caminho, vamos assistindo a essa eterna incompatibilidade de gênios entre essa mironga solada vinda do pensamento altruísta versos sociedade que tem olhar extremamente crítico pra tudo isso.

    Seria bom esses profissionais andarem menos pelos corredores e mais pelas ruas e verem pessoas menos maquiadas para, assim, entenderem que dialogar com a sociedade é o caminho mais inteligente para a imagem de qualquer empresa de qualquer setor.

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