O Mercado Cultural realizado em Salvador se transformou em um projeto de referência internacionalO texto a seguir é um extrato do livro “O Caleidoscópio da Cultura – economia da cultura e desenvolvimento sustentável”.
Tudo começou há quinze anos, quando um longo périplo de seminários e um minucioso trabalho de pesquisa tornaram Ruy Cezar Silva usuário constante dos aeroportos da América Latina, Oriente Médio, África, Ásia e Leste Europeu, além de membro de redes européias e da América do Norte. Milha após milha, construiu um portentoso catálogo de informações sobre a produção contemporânea de arte nas regiões, formou uma sólida trama de contatos e ganhou reconhecimento que lhe abre portas em todo o mundo. “O sonho era reunir agentes culturais, produtores, intelectuais e artistas em torno da idéia de exibir, promover e distribuir arte independente, inovadora e de alta qualidade, sem acesso aos circuitos da grande indústria. Foi surpreendente o que se tornou possível.”, diz Ruy.
Surpreendente é pouco. Em seis anos, o Mercado Cultural rompeu não só os limites do mercado baiano, como se transformou em um projeto de referência internacional. Atua em três frentes complementares, contemplando reflexão (conferências e debates sobre as realidades sociais e as perspectivas culturais no mundo), exposição (música, teatro, dança e artes visuais) e negócios (a feira de artes, oportunidades e negócios culturais congrega dezenas de stands de artistas das mais variadas linguagens, empresas e instituições).
Os números chamam a atenção. Em 2005, atraiu cerca de 1.500 produtores, artistas, agentes, diretores e empresários de vários países. Somando-se negócios, patrocínios e o impacto econômico local, movimentou US$6 milhões. Criou novos postos de trabalho e mobilizou 200 jovens aprendizes. A atenção à criação de um mercado alternativo para grupos marginalizados e à capacitação é complementada por um trabalho de formação do público, realizando espetáculos gratuitos. Os de rua foram vistos por 100 mil pessoas, além das que circularam pelas 120 mostras artísticas espalhadas pela cidade. Dados que ecoam as palavras de Ruy Cezar: “alguns dos principais objetivos são criar oportunidades para empresas culturais e promover os negócios, a geração de renda e o desenvolvimento social, ampliando os vínculos entre cultura, meio ambiente, turismo e educação. Enquanto os subsídios dos governos para artes e cultura têm encolhido, nos últimos anos, o desenvolvimento de mercados culturais parece abrir novas oportunidades para geração de renda, atendendo a profissionais culturais ansiosos por criar e exibir seus trabalhos.”
Os benefícios atingiram outras escalas. No Brasil, o Mercado Cultural abriu novos circuitos para a distribuição da produção e promoveu o intercâmbio entre os artistas. Na América Latina e no Caribe, tornou-se a mais significativa plataforma de exportação das artes, tendo catalogado em vídeo e CD toda a produção regional recente. Globalmente, é referência de espaço promotor de novos diálogos e de intercâmbio.
O Mercado Cultural é, assim, muito mais do que um evento. É a criação de mercados alternativos permanentes, que contemplam a diversidade entre os povos, respeitam suas identidades e reconhecem também seu valor econômico. É um espaço de encontro de redes, de difusão de informações, que circulam ininterruptamente pelos meios virtuais. É um modelo de obstinação e dedicação para mostrar que a maior barreira imposta pelos mercados tradicionais é o nosso próprio conformismo em aceitá-la.
Ana Carla Fonseca Reis
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