2011 é um marco de mudanças para o setor cultural. Além da nova Ministra da Cultura e novidades na Lei Rouanet (as que já sabemos e as que estão por vir), o setor também é impactado pelas transformações da economia brasileira e do mercado consumidor com conseqüências diretas na forma como as organizações de cultura cuidam de sua sustentabilidade financeira.

A lei Rouanet é sem dúvida o mecanismo mais utilizado para o financiamento da cultura no Brasil, disponibilizando anualmente cerca de 1 bilhão de reais para os projetos via renúncia fiscal. Mesmo diante dos benefícios, a lei sozinha não resolve e não totaliza o que uma política pública de cultura pode e deve contemplar para o desenvolvimento sustentável do setor cultural de qualquer país.

Observando outros países como França, Inglaterra e Estados Unidos, a política cultural pública deve tanto incentivar a participação da iniciativa privada (empresas e pessoas físicas) quanto comprometer-se com aportes diretos a áreas de extrema relevância, porém desinteressantes ao investidor privado como:
•    capacitação e formação dos gestores culturais e artistas
•    ampliação do acesso a produção cultural a comunidades excluídas
•    defesa do patrimônio histórico e bibliotecas públicas
•    atividades artísticas em regiões de menor visibilidade e menor poder de consumo
•    arte experimental, áreas de inovação e itinerância de projetos
•    arte-educação e atividades de formação artística de excelência

Além disto, é preciso considerar outros aspectos do contexto do mercado cultural como a correlação entre os Ministérios da Cultura, Educação, Turismo e Fazenda que poderiam trazer oportunidades ao mesmo tempo transformadoras da sociedade e favoráveis a economia do país.  Um exemplo é o apoio as indústrias criativas que movimentam a economia de países no mundo inteiro e agora também tomam força no Brasil. Outra questão é capacitar as organizações para o relacionamento com o público, que além de ser o foco prioritário da atividade artística, é também fonte de financiamento. Hoje, a classe C emergente consome cultura como nunca antes no país com muitas pessoas capazes de freqüentar e financiar ações culturais, assim como as poucas, porém muito ricas do topo da pirâmide social do Brasil também podem representar uma mudança significativa no setor.  São 146 mil milionários e 18 bilionários com os quais as organizações culturais podem estabelecer uma relação direta de envolvimento com a causa e conseqüente compromisso financeiro.

A lei Rouanet, portanto, lida apenas com uma parte da questão, que é o incentivo às empresas para que apóiem projetos culturais via renúncia fiscal. Em 20 anos da lei, basicamente limitados a este lado da moeda, o setor cultural não desenvolveu outras várias possibilidades para sua sustentabilidade financeira, que agora começam a avançar diante das mudanças.

Uma questão chave deste modelo é que a lei Rouanet não previa a distinção entre a forma de financiamento de projetos culturais (pontuais) e instituições culturais perenes. E, por isto, a maioria das instituições de cultura lida com a captação de recursos de uma forma não institucional, ou seja:

•    Dependem de terceiros para elaborar e captar seus projetos
•    Limitam a captação de recursos em arrecadação de dinheiro pontualmente sem extrapolar para outros benefícios de longevidade e posicionamento institucional
•    Não criam equipes e estruturas perenes profissionalizadas voltadas a fontes diversas de financiamento (fundações, governos, empresas, pessoas físicas, receitas próprias com vendas, licenciamento de marca, serviços)
•    Captam recursos de forma muito distinta das demais organizações sem fins lucrativos de meio ambiente/saúde/educação, com as quais poderiam aprender muito
Algumas das mudanças na Lei Rouanet com a Instrução Normativa de outubro de 2010 e com o projeto da Nova Lei de Cultura, enviada ao Congresso Nacional, trazem alguns avanços, mas podem evoluir nestas áreas em que o Brasil ainda precisa caminhar muito como:
•    Incentivo para criação de fundos de “endowment” com aplicações de longo prazo
•    Menor burocracia para doação de pessoas físicas, tanto pequenas contribuições mensais quanto grandes montantes de famílias ricas
•    Profissionalização das equipes das instituições para que saibam atuar tecnicamente com a o desenvolvimento e fidelização de público para novas platéias
•    Mecanismos de intermediação entre as empresas patrocinadoras e as instituições para valorizar benefícios mútuos, tangíveis e intangíveis do patrocínio cultural hoje pautado por uma relação desigual de poder com as empresas e reduzido da sua real dimensão
•    A importância de um planejamento estratégico mais aprofundado que contemple a longevidade das instituições ao invés de “contar as moedas” a cada inicio de ano para definir que projeto vai fazer ou cancelar. Isto também ampliaria a qualidade dos projetos (hoje muito baixa: apenas 5% dos aprovados na lei são realizados).

Este é o desafio da nova Ministra ao avaliar o que permanecerá igual no Plano Nacional de Cultura lançado em dezembro/2010 para os próximos 10 anos e o que será aprimorado. O debate não pode se restringir apenas ao percentual de incentivo, a permanência dos pontos de cultura e a garantia do direito autoral. Precisa expandir para estas outras áreas voltadas ao longo prazo com a valorização do papel das organizações culturais no desenvolvimento do setor como um todo iniciando pelo seu próprio fortalecimento institucional. E este também é o desafio dos gestores de cultura, que diante deste novo cenário, começam a rever suas próprias regras.

*Publicado originalmente na revista Filantropia


Diretora-adjunta de Artes do British Council/Brasil.

1Comentário

  • Alexandre Reis, 27 de março de 2011 @ 11:33 Reply

    Parabéns Lucimara Letelier, por seu aprofundado estudo sobre a referida Lei de Incentivo vigente no Brasil, há praticamente vinte anos.

    Abordando seus pontos de referência e outros que venho apontando desde 2007 quando aprovei o meu projeto na referida lei, além de um artigo que enviei para publicação no site da Adital Notícias [sss://www.adital.com.br/site/tema.asp?lang=PT&cod=24] em 21 de junho de 2010, eu gostaria de, se me permite acrescentar algumas estruturas fenomenológicas, ao seu artigo.

    Caso todos os projetos propostos aplicar-se-iam efetivamente, concretizando a avaliação concedida pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), em cada temporada de reuniões, consolidar-se-iam as diretrizes de proteção e promoção da diversidade das expressões culturais implícitas no Plano Nacional de Cultura. Porém, as resoluções deste conselho são promulgadas mensalmente desde muitos anos no Diário Oficial da União e, pelo que se sabe, não são cumpridas a rigor.

    Ou seja, a função do Ministério da Cultura como principal fomentador e articulador de Cultura é um desastre total. O Ministério da Cultura como já afirmaram vários críticos (e filósofos políticos) passa longe de suas funções essenciais na nação brasileira. Funções que normalmente são muito bem desenvolvidas pelos Ministérios de outros países que você citou aqui: França, Inglaterra e Estados Unidos. O MinC ainda é apenas um escritório especializado na negociação de incentivos fiscais. A relação entre leis e arte parece estabelecer essa mesma contradição na dialética da sobrevivência. E nos dias atuais a lei Rouanet em vigor é reconhecidamente a regente de cultura brasileira. O debate foi aberto tendo em vista a grande quantidade de artigos que estão sendo escritos e argumentados sobre o seu comportamento jurisprudente na atualidade. Em síntese ela determina os critérios para a concessão de renúncia fiscal aos proponentes de cultura, mas é incapaz de atender a demanda de toda a sociedade. Aparentemente o modelo da lei está desarticulado, mas no fundo outras questões precisam ser trazidas como critérios de sustentabilidade do fazer artístico em si e precisam ser consideradas independentes das leis. A arte tem a sua “inesgotabilidade” e “sustentabilidade” garantida pela expressão humana, ela pode associar mecanismos que a favoreceram e, independente da sobrevivência dos humanos, foi assim que na pré-história ela assumiu a lei como força secundária à sua expressão.

    Creio , Lucimara, que você está equivocada quando imagina que as elites (ricas) se voltarão para o patrocínio de projetos de proponentes desconhecidos. Nunca foi assim na História do nosso Planeta, e não será jamais. Lamento comunicar, mas se houver alguma mudança, ela não virá em menos de vinte ou trinta anos. Principalmente num país que ainda mal sabe ler determinadas temáticas e contemplar obras artísticas. O Brasil pode ser “emergente” em termos de recursos naturais e econômicos. Porém, infelizmente, é muito desinteressante e pobre em termos culturais. Assim será por um bom tempo ainda.

    Alexandre Reis
    PRONAC 07_0179

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