A Cidade das Artes, no Rio de Janeiro, está sediando desde sábado (10/8) e até o próximo dia 17 a 23ª Conferência Geral Trienal do Conselho Internacional de Museus (ICOM), principal encontro do setor.
A organização do evento ficou a cargo do Comitê Brasileiro do ICOM (ICOM Brasil) em conjunto com as secretarias de Cultura do Município e Estado do Rio de Janeiro, além do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM/MINC), do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), do Conselho Federal de Museologia (COFEM), da Associação Brasileira de Museologia (ABM) e de outros representantes de museus brasileiros, juntamente com os presidentes dos comitês internacionais do ICOM.
Entre os objetivos do evento, que ocorre a cada três anos, estão a cooperação e o intercâmbio profissional entre museus, a difusão de conhecimentos e aumento da participação qualificada do público, a formação profissional em diversos níveis, a prática e promoção de ética profissional, a atualização de padrões profissionais e a preservação do patrimônio mundial e combate ao tráfico ilícito de bens culturais.
Nesta edição, sob o tema “Memória + Criatividade = Mudança Social”, o encontro incentiva a apresentação das inúmeras ideias e experiências pautadas na criatividade que tem valorizado o patrimônio cultural. Estarão reunidos para os debates os 31 comitês internacionais da instituição — o que representa mais de 100 países.
Confira abaixo entrevista exclusiva com Maria Ignez Mantovani Franco, presidente do ICOM Brasil, sobre a conferência.
Cultura e Mercado: Qual a importância da conferência ser realizada no Rio de Janeiro neste momento?
Maria Ignez Mantovani: A importância da Conferência se realizar no Brasil é muito grande, por ser a primeira vez que aqui se realiza e também por ser um retorno deste grande encontro ao cenário latino-americano. Quanto ao Rio, pode-se dizer que a cidade vive um momento de confluência de potencialidades e foi significativo o fato da comunidade museológica internacional ter escolhido a cidade, em detrimento de outras grandes e importantes cidades mundiais. O Rio apresenta mais de 200 museus de interesse, de diferentes tipologias, desde os grandes Museus Nacionais até os inovadores Museus de Favela, que têm atraído fortemente a atenção de colegas internacionais.
CeM: Concorremos com Milão e Moscou. Qual foi o diferencial para sermos eleitos?
MIM: Creio que um dos principais diferenciais foi a campanha arquitetada pelo Brasil, que se destacou diante das abordagens dos demais países candidatos. Nossa campanha transmitiu o espírito brasileiro, a hospitalidade carioca, a riqueza e a diversidade de nossa cultura, a pluralidade de nossos museus , enfim, nosso discurso foi autêntico e convenceu os membros votantes do ICOM. Procuramos fazer uma campanha comunicativa, profissional e transparente. Foi um momento de grande vibração, de união e de crença de que esta conferencia seria um atributo importante para a qualificação dos museus brasileiros.
CeM: Quais são os possíveis novos rumos da museologia, no Brasil e no mundo? Existe algum novo objetivo a ser alcançado?
MIM: Acho que um dos principais objetivos desta Conferência é ampliar o networking dos museus brasileiros, ou seja, o diálogo, as trocas com outras instituições internacionais. Há ainda um outro objetivo significativo que é o de aproximar e estabelecer um diálogo mais contínuo com colegas e instituições da África e América Latina. Temos nesta Conferência fóruns articulados para aprofundar estas relações que possam frutificar em futuro próximo. Vejo também como um novo rumo para a museologia brasileira o diálogo com países como a China e a Russia, que trarão número expressivo de conferencistas para o Rio, ávidos por dialogar com o Brasil. No tocante ao mercado de bens e serviços museológicos, nota-se também que o Brasil se tornou um país consumidor de novas soluções, de novas tecnologias. Muitas empresas internacionais se voltam hoje para o nosso mercado com um interesse muito forte em dialogar, em aqui abrir filiais, em investir no Brasil. Isto é uma mudança de cenário relativamente recente, que poderá aportar qualificação de mão de obra e também novas oportunidades para os profissionais brasileiros. Se considerarmos os novos rumos da museologia, em termos globais, estou convencida de que o papel dos museus no século XXI é o de se transformar numa instituição capaz de se articular como um fórum, ágora, para a sociedade. Um fórum articulador e solidário, onde cada individuo e sua comunidade possam conhecer o seu passado, se reconhecer no presente e projetar seu futuro.
CeM: De que forma os museus pretendem/podem ampliar esse campo da mudança social, que é o tema do evento?
MIM: Esta equação matemática Museus (memória + criatividade) = mudança social encerra de fato um dos grandes diferenciais da museologia brasileira. Nossas experiências no campo da museologia social são inovadoras e refletem um diálogo com as comunidades e os respectivos territórios em que vivem. Este é , sem dúvida, o elo de sentido que articula a Conferência, que se realizará não apenas na Cidade das Artes, mas também se espraiará em mais de 30 museus do Rio de Janeiro, com programas, atividades, workshops, alguns deles abertos ao público. Num cenário global bastante envolto em tensões sociais, em disputas por territórios ocupados, em processos migratórios conflituosos, no descrédito da sociedade nos poderes constituídos, na ausência de perspectivas profissionais para os jovens, o museu que dialoga, articula, potencializa um sistema colaborativo e mobilizador das comunidades a que se vincula, é um modelo paradigmático que poderá ser inspirador para outros países.
Leia mais: A função social dos museus