No universo dos sites de financiamento coletivo no Brasil, é certo dizer que a maioria dos projetos – e a maioria dos que se tornam bem-sucedidos nas plataformas – são aqueles relacionados à música.

“No Movere, que aceita projetos culturais de vários nichos, temos as seguintes categorias em destaque quanto à quantidade de projetos bem sucedidos: 38% música e 14% vídeo. Perceba que a diferença do primeiro para o segundo lugar é de quase o dobro”, diz Vanessa Oliveira, sócia-fundadora do Movere e pesquisadora na área de música.

Para ela, isso se deve tanto a um maior interesse do público quanto a uma maior oferta de projetos musicais. “Além do fã de música ser um consumidor voraz, seja comprando ou baixando música, é notória a quantidade de pessoas fazendo música em nosso país, não só no eixo Rio-São Paulo. Além disso, hoje em dia tem muita gente gravando CDs com R$ 5 ou R$ 10 mil, que são quantias razoáveis de se conseguir através do crowdfunding. E uma banda consegue se ver nesse modelo facilmente, pois as suas necessidades como autor são projetos ‘redondos’ como fazer um clipe, um show ou um CD. Do mesmo modo, as recompensas são óbvias, como discos, ingressos para show, camisetas e até shows fechados.”

No Catarse, dos 148 projetos bem sucedidos, 47 são de música. Juntos, eles arrecadaram mais de R$ 349 mil. “Existe sim uma oferta maior de projetos musicais, 87 projetos já entraram no ar. Mas também existe o lado do interesse do público em fazer parte do projeto da banda/cantor que já curtem”, afirma um dos responsáveis pelo site, Luís Ribeiro.

Segundo ele, as bandas já realizam um trabalho de comunidade muito forte antes de entrar no site. E isso é fundamental para um projeto ser bem-sucedido. “Muita gente coloca um projeto no Catarse como a primeira ação para desenvolver uma comunidade, enquanto que as bandas já possuem essa comunidade de fãs (organizadas no myspace, no youtube, em uma fanpage) e apenas trazem para o início do processo de lançamento de um novo CD, ou então da realização de um show. O apoio vem de forma quase natural, uma vez que o fã terá acesso a uma série de recompensas exclusivas que o diferencia do simples consumidor”, explica Ribeiro.

No Embolacha, site de crowdfunding especializado em música, de 17 projetos inscritos – sendo que 3 estão em andamento – 12 foram bem sucedidos e apenas 2 não foram concluídos com sucesso. “Nesse primeiro ano de apresentação e consolidação do modelo no mercado brasileiro, escolhemos trabalhar com carinho em projetos com qualidade, possíveis de serem realizados, ao invés de focar na quantidade de projetos inscritos. Ao poucos, a empresa espera que o sucesso dos primeiros projetos ajude a disseminar o conceito e traga credibilidade para a ferramenta”, conta o sócio Paulo Monte.

Ele acredita que o conceito de financiamento colaborativo é valido para qualquer área, seja música, artes plásticas, literatura ou política. “Talvez esse modelo seja mais claro para música pois os artistas e público já estão mais acostumados a este contato mais direto. Fora que a forma de consumir música mudou, então é normal que modelos novos ganhem espaço em relação a hábitos antigos.”

Vanessa Oliveira cita ainda sites como o Queremos, o PlayBook e o Ativa Aí, o que para ela representa o maior case de sucesso no Brasil em 2011, misturando produção e financiamento coletivo. “Esses sites possuem produtores por trás do seu negócio, que produzem shows através da mobilização das pessoas e do financiamento coletivo. E são os que mais arrecadam dinheiro! Em 15 meses, o Queremos viabilizou 22 shows com 4.374 pessoas e valores como R$ 60 mil, R$ 100 mil. O PlayBook arrecadou a maior quantia em financiamento coletivo, no Brasil, em 2011, ao garantir o Tokyo Police Club por R$158.600”, contabiliza.

Segundo ela, o modelo é diferente de Movere e do Catarse. “Você não pode colocar o seu projeto pessoal lá e eles não cobram percentual, já que o lucro vem com a produção destes shows. Mas essa prática só reforça o conceito. E de fato, no setor cultural, não teve nicho que soube mais aproveitar essa tendência do que a música”.

Lições – O produtor Rodrigo Lariú concorda que o mercado da música está mudando e lembra que a criação musical está carente de mecenas. “Mas tenho medo das pessoas acharem que o único caminho para lançamento de produtos musicais é via crowdfunding. Não é! O crowdfunding quando dá certo é muito enriquecedor, mas se der errado, pode destruir uma carreira.”

Lariú colocou no Movere a banda de indie rock The Cigarettes, com o objetivo de lançar seu disco em vinil. Conseguiu resultado de 110%. Mas várias lições foram aprendidas no processo, e ele enumera: 1) por mais que você tenha um excelente network, é difícil convencer uma porcentagem de pessoas a participar; 2) valores altos são complicados – “Talvez o ideal teria sido usar o crowdfunding para bancar uma parte do projeto e conseguir o restante por outras vias”; 3) passamos quase 60 dias sem ter certeza; somente na última semana é que a coisa engrenou, então é preciso paciência e não desistir nunca; 4) a melhor surpresa é descobrir como os fãs verdadeiros se apaixonam pelo projeto e acabam trabalhando mais do que os próprios criadores.

Ele conta que, com 23 anos de gravadora independente, já lançou música de várias maneiras. “Os lançamentos mais recentes anteriores do Cigarettes foram bancados da forma tradicional, com a gravadora se responsabilizando pelos custos de produção. Para este vinil, optamos pelo crowdfunding porque o custo de produção é muito alto – bem maior do que a produção de CDs – e o público consumidor bem restrito. Então era claro para nós que este vinil só deveria ser lançado se houvesse interesse do público. Nada mais coerente do que um crowdfunding.”

Rodrigo Santos também buscou no Movere apoio para uma etapa de seu trabalho que demandava um investimento, mas que era mais difícil do que gravar e mixar um DVD. Ele precisava de R$ 16.500 para cuidar da fase de lançamento e assessoria de imprensa para o trabalho registrado ao vivo em Ipanema. Conseguiu R$ 17.100, com 52 pessoas apoiando. “Eu já vinha acompanhando pela rede alguns projetos de crowdfunding e como tenho mais de 12 mil fãs no Facebook e 11 mil no Orkut, achei que para meu projeto isso seria interessante.”

Para ele, não houve dificuldade no processo. “Já entramos focados no público que seria realmente participativo. Talvez o fato de ter cartão de crédito tenha deixado alguns com o pé atrás, mas nossa explicação pelo Facebook tornou a coisa bem mais fácil. E tem muita gente que deixa para o final mesmo, sempre nos fazendo correr riscos do projeto cair. O difícil, seja no crowdfunding ou não, é mostrar um trabalho de qualidade e fazer as pessoas entenderem que isso ajudará o artista. Depois que entendem, tudo corre sem problemas.”

A banda Scalene, de Brasília (DF), também foi bem-sucedida em sua proposta no Movere. Mas Tomás Bertoni, um dos integrantes do grupo, também cita a necessidade do uso do cartão de crédito como uma dificuldade. “Alguns fãs, geralmente mais novos, não têm cartão de crédito Conseguimos através de outros meios que essa galera pudesse contribuir, mas realmente isso complica”, explica.

Paulo Monte, do Embolacha, concorda. “As principais dificuldades são trabalhar com um modelo/conceito relativamente novo – e apresentá-lo ao mercado brasileiro – e o uso de cartão de crédito. Apesar da expansão e de um número crescente de novos compradores, ainda existe um certa relutância do público em comprar pela internet usando cartões de crédito”.


Jornalista, foi diretora de conteúdo e editora do Cultura e Mercado de 2011 a 2016.

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