É um grande engano imaginar que estamos de fato discutindo uma lei, uma coisa assim simples como um gatilho, um estilingue, um trampolim para vôos mais amplos das expressões do povo brasileiro. Não! Não é isso que estamos discutindo. Estamos em outra esfera, a mesma batalha que se travou com o descobrimento do Brasil que resultou no domínio, no adestramento rasteiro ou mesmo sangrento e que sempre foram os principais agentes de ampla e dolorosa discussão. 
 
É impressionante como a Lei Rouanet nos revela, de forma tão fidedigna, o retrato da nossa “sociedade civil organizada”. A tradição patronal, a força de qualquer ordem sempre se fez valer por subsidiárias corporativas, num carrossel que produz esse círculo viciado em todas as questões sociais no Brasil. A Lei Rouanet está aí, no dia-a-dia violento , do desprezo, da desassistência, da mesquinhez . Todo o comando sórdido tão tradicional dos nossos imperadores constituiu-se entre um civilismo rastaquera com diks estrategicamente colocados contra qualquer forma de insurreição do povo. A escala de poder funciona em degraus cadenciados e proporcionais, “subcultura, subcidadania”.
 
A lógica humana deveria proporcionar um entendimento maior entre os homens num contraponto aos absurdos que concentram força e poder infinitos a tão poucos, é neste momento que surge a palavra mágica, provavelmente dita pelos anjos, vista e ouvida por aqueles que têm celestial direito às coisas, aos milagres, às transformações individuais, subjetividade, é uma espécie de indicativo de uma senha que abre, escancara a porta para alguns poucos e serra os dentes contra a maioria. Flutuante, camaleônica, prudentee produtiva para os ricos e nefasta para os pobres, a subjetividade é o selo invisível da nobreza, é algo, digamos assim, subjetivo. Não é uma beleza? Isso é mais potente do que o estalar de dedos de um mágico que tira pombas brancas e coelhos das cartolas. Mas, convenhamos, de simplicidade e praticidade muito maiores do que aqueles do nosso ilustre ilusionista que carrega serrotes, baús, lenços e mantos aveludados.
 
A subjetividade, se bem usada, produz verdadeiras fortunas, poderíamos dizer que, se tivéssemos que definir em uma única palavra toda a sorte, toda a visão do afortunado Midas, usaríamos, sem dúvida, a subjetividade. No campo das artes, principalmente no caso do Brasil, ela é uma aliada, um coringa, um Royal Street Flash blefado que a subjetividade constrói junto com o seu abonado blefador. Mas lógico, não compreendemos nada de nós, falamos dos grandes mestres das artes divinas do mundo europeu, mas não falamos de nós, pois somos profundos ignorantes de nós mesmos. Esse ocultismo, esse vampirismo que foge dos dias de sol dos trópicos, dos coloridos, são justificáveis aos nossos doutores e yups, pois a noite não tem cor, propõe medo ao povo, o infinito do medo e, neste campo, assombramos o povo, subjugamos o homem, criamos todos os fantasmas, então, eles fogem. E assim, podemos continuar nos eternizando nos doutorados livrescos numa sequência da verticalização de títulos de nobreza cultural. Ora, basta-nos ter um simples carrinho, que o flanelinha já nos chama de doutores, imagina com diploma e anel! Não tem nem titularidade que dê conta desses símbolos tão apreciados pela nossa burguesia. Esses aspirantes de conselheiro do rei, o tempo todo inspirados na mais pura filosofia grega, constroem os seus fortes e dão literalmente ao povo brasileiro os seus presentes de grego. Em torno de uma fantasia arquitetônica, os nossos faraós culturais, aliam-se a outros tantos medianos que perceberam a jogada e vão também jogar com a subjetividade e, todo um conceito comportamental de estilos e falas também inócuos, assustarão os nossos santos doutores do pau-oco. Não haverá um conflito, haverá uma distribuição de escala de poder. Entre a côrte e o mercado haverá um belo espaço para um novo blefe. O grande artista, o grande pensador, o homem quase um deus de uma sociedade alternativa de consumo, um patuá da burguesia hippie irá nos jogar a uma atmosfera lúdica dos saberes sensoriais, um outro tipo de sangue azul. Frases surgirão como, “o homem à frente do seu tempo”, frasezinha gasta, mas que ainda dá um caldo e faz grande sucesso na aldeia dos zumbís medianos que andam à caça espiritual da felicidade individualista e seus duendes. Essa cordialidade promovida por uma busca de um lugar ao sol nos apresenta na era de aquarius isso que estamos assistindo, a canonização cotidiana dos deuses da cultura européia com os novos deuses tropicais que surfam no cenário da consagração subjetiva entre o sol e a chuva, o mágico, o místico arco-iris. Estranho, mas normal. A ilusão provocada pelo próprio tempo entre o sol e a chuva, a atmosfera criada pela miragem do arco-íris produzem o nosso amplo e infinito pensamento contemporâneo. Todos estarão juntos nas instituições, das mórbidas às cleans, entre o cachicol e o pinico de escarro do velho mundo brasileiro, a sala vip, o celular e o gel, reacendem a gomalina dos novos espaços como as  delegacias legais em substituição às masmorras. As leis serão as mesmas, o policiamento patrimonial se manterá intacto com o auxílio de cercas elétricas e milícias particulares credenciadas e finamente vestidas.
 
A Lei Rouanet segue o andar da carruagem, os brasões tomaram ares psicodélicos, mas continuam lá, determinando as fronteiras entre o homem comum, vulgar, este pequeno homem que não se aliou à subjetividade fica sem, o direito de blefar. Entre o mago e o mórbido caminha ainda a cultura brasileira, a oficial, a escudeira, o resto não é cultura, é um folclore chulo do homem de sentimentos sem nobreza que terá sempre o desprezo da nossa tão mui intelectualizada elite no campo da arte de blefar.
Continuemos a nos ignorar doutores e yups travestidos de super-heróis culturais. Continuemos a ignorar o povo, pois é sempre um ótimo negócio!
 
As batutas de condão são sempre sustentadas pelo anacronismo do delírio frasista, jogadas no ar assim como Sayad nos revela em sua justificativa antidiscrimitarória. Acho que seria mais justo que o ilustre secretário de cultura do estado de São Paulo, João Sayad, colocasse, assim como essa frase de efeito, uma outra com mais peso apoteótico, quando se dirigisse à OSESP, “toca aqui o que se ouve lá”. Essas mágicas promovidas pelo ilusionismo pirotécnico produzido pelo símbolo máximo da mágica conceitual, a batuta de condão, merece do secretário uma resposta mais contundente ao descaso que o Minc dá a essa tão forte representante da “cultura brasileira”. Diga à Juca Ferreira, “está pensando que isso aqui é bandinha furiosa de coreto, dessas centenárias que ficam a tocar dobrados e maxixes de compositores brasileiros e recebem, quando selecionadas, R$20.000,00 da Funarte, acompanhado de uma rigorosa fiscalizaçãodos agentes do Minc? Não! Isso aqui é a OSESP, não viu o maestro falar no programa “Conexão Roberto Dávila? Somos a excelência artificializada, mas titularizada. Músicos, para ingressar nesta orquestra que ecoa a cultura européia nos quatro cantos da Sala São Paulo, Têm que ser estrangeiros, quando muito, um brasileiro formado nas Sorbones musicais. Diga a ele, secretário, que ali dentro, calangueiro do dedo duro com uma sanfona cabeça-de-égua e que conversa com mãe-d’água, passa longe do porrete do maestro.
 
Esse Juca Ferreira não sabe nada de D. João !


Bandolinista, compositor e pesquisador.

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