Foto: Izarbeltza
“Lembrando que sob a palavra instituição estão centenas de pessoas sensíveis que trabalham e trabalham buscando sempre abrir portas neste estreito caminho da arte.” (Aressa Rios) O Perfume da Flor – Vale dos Tambores.

Uma viagem etnográfica, uma suprema recomendação, uma natureza estupenda formigando dentro dela o homem brasileiro, é esta a dialética, a vanguarda, a postura de uma análise crítica que aqui, neste trecho transcrito, tento esboçar, uma postura de distanciamento de bandeiras partidárias. Falo tão somente e sem exitação, do preço da viagem usando apenas o tinteiro e a paixão. Se existe poesia em minha fala, essa foi redescoberta pelas circunstâncias. Não há como congelar os fenômenos que assisti na II Conferência Nacional de Cultura: esperança e inteligência; reflexões livres e, sobretudo condizentes com as nossas condições e realidades.

Zé do Pife, o Macunaíma, com sua vivência tropical, transformou-se no protagonista da festa, uma capacidade criadora e interpretativa de símbolo dessa vida de cantador, dessa arte feiticeira que organiza o espírito de psicologia livre no cotidiano da legenda de comunicação. Deste personagem, Zé do Pife, que abandona qualquer idéia de projeto, foi extraído o romance de um personagem comum que todos nos transformamos, digamos, que todos nós, Ministério da Cultura e sociedade civil organizada, fechamos o canto de Chico Antônio, em Brasília de corpo e alma, representado como legenda contemporânea, pelo Grupo de Carimbó Herdeiros da Tradição.

Contra a covaONTRA A COVARDIA, EM DEFESA DA CULTURA DO RIO.

O vigor, quase como uma cena de procissão, fez, sobretudo, de um lamentável e negativo episódio protagonizado pelo velho espírito guanabarino da Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, uma estrondosa eclosão de vaias direcionadas aos mandatários da cultura do estado do Rio de Janeiro em solidariedade à delegação fluminense. A leitura da moção de repúdio às condições precaríssimas e, consequentemente perigosas de transporte Rio/Brasília em que esta delegação foi subjugada. O documento de repúdio deixa claro que essa covardia é uma peculiaridade regional, lamentavelmente narrada pela conhecida crônica da infeliz mecanização burocrática que sempre foi sombra do que cerca o meticuloso e dramático ambiente da cultura do estado do Rio de Janeiro.

A VIDA A BORDO DA II CNC

Já pelas manhãzinhas a alegria de clarinetes e ganzás explicitava que aquela visita demorada transformar-se-ia num maravilhoso passeio à Brasília. Os tijolos oferecidos pelo Ministério da Cultura, foram erguidos pelas mãos tanto de representantes da sociedade civil quanto de instituições governamentais escreveram a nova carta da cultura soberana do Brasil. Ali estava de fato representado o melhor da nossa terra. Não era um amontoado, muito menos um pacificado e demente ambiente e, menos ainda os terríveis pressentimentos que tanto angustiam os defensores da “democracia” daqueles que têm a grave doença que os impele a impor mordaças para a cultura brasileira quando governo e sociedade estão unidos pela construção o país.

O terrível desastre é projetado por aqueles que vivem dentro da camisa de força do mercado que acreditam na cultura pelos “dois mil-réis” e não sabem exatamente o que é madeira-mamoré, o pai do curuçá, o cabo corumbá. É natural que, dentro dos seus pálidos e insossos cumprimentos, o vigor do repuxo das boiadas e dos boiadeiros, da inteligência prodigiosa e hospitaleira do sentido urbano, do clube de todos e da Praça Brasil, não sejam a língua falada nos escritórios da marketagem furiosa.

O terreiro estava animadíssimo, chouriço, creme de camarão. O povo nordestino deu o tom. As lindas mães de santo transformaram a paisagem da CNC num agradável aconselhamento, aquele da nossa sabedoria que elas tanto cultivam dentro da nossa cultura.

A grandeza, espécie límpida de dignidade, nada tem a ver com a reação que a crítica oficial do mercado faz como retrato borrado para decretar, de forma pessimista, a chegada de um novo Brasil.

Havia na II Conferência Nacional de Cultura uma lucidez de espírito inventada a cada resposta no pé de cada pergunta, coisa tão íntima da gente que corta ritualmente a cabeça de qualquer especulação extraída do espírito pequetitinho dos homens de preto do mercado que massacrou durante dezenove anos, com a Lei Rouanet, os nossos mestres de sessão. Os mestres, os embaixadores da nossa cultura que carregam a diversificação da incontestável erudição brasileira originária das fusões étnicas são a nossa feição mais horizontal, surgida ao fundo como o sol e seus raios de ouro a brilhar.

Liberdade pelo Brasil, foi o súbito e semeado canto que o povo que lá esteve gritou durante os quatro dias de confraternização.

Nós que tivemos como guia, durante dezenove anos, o mercado cego da Lei Rouanet fazendo da cultura uma presa, transformando nossas bandeiras em trapos, comemoramos de forma clara, alta e livre no final da II CNC, a consciência e o caráter do nascer da nossa liberdade.

“Na verdade, na verdade, este nosso país inda pode dar esperança de si… Mas é simplesmente porque arromba todas as concepções que a gente faça dele.” (Mário de Andrade).


Bandolinista, compositor e pesquisador.

4Comentários

  • gil lopes, 19 de março de 2010 @ 14:16 Reply

    Beleza Carlos ( prefiro Carlão), esse tom de alegria lhe cai muito bem. Mas cuidado! Essa história de espírito guanabarino é invenção infeliz, o Rio é a cidade aberta, recebe tudo e todos, só não recebe melhor porque cresceu demais e aí complica, precisamos de verbas pra arrumar a casa e decisão política para acabar com a violência desmedida que é o pior mal da cidade. Cidade sem produção de armas ou drogas, que aqui circulam em proporções impressionantes e com as consequências conhecidas. O Rio é a testa do Brasil, Salvador é o coração? O Rio tem que ficar bonito, é pra aqui que todo mundo olha, é o orgulho de todos os brasileiros, com Nosso Senhor abençoando e o Maracanã cheio…esquece do Jabor, é Rio é o Carlinhos de Jesus, do Tom Jobim e do Vinicius de Moraes. E quando Jorge, Salve Jorge, Benjor disse que o Rio é abençoado por Deus se referia ao mar de petróleo nos nossos subterrâneos, uma benção. Contamos com ele, sem covardias.

  • gil lopes, 19 de março de 2010 @ 14:22 Reply

    CarlãO…teu som é demais…adorei…Tambor da crioula é o máximo.

  • Aressa Rios, 30 de março de 2010 @ 17:04 Reply

    Carlos! Obrigada pelo carinho!!! Mais que isso, é sabido!!!
    É nitido quando o texto texto tem veia, artéria e coração! Corre vida aí! Tem paixão!!! Aliás, amor, já que paixão é sempre associado ao efêmero, coisa que a sua luta não é! O seu caráter de persistência e lucidez (à moda Paulo Freire), é o que nos anima a continuar. Incansável. Que delicada e emocionante descrição!
    E Gil, quanto à música de Carlos, concordo contigo, é maravilhosa! Já em relação à cidade do Rio de Janeiro…não posso dizer o mesmo. O problema do Rio de Janeiro não é só droga, violência, super população ou crescimento demasiado, mas o super, hiper, ultra corporativismo. Essa abertura de que fala tem limites bem marcados, que abrangem a uma minoria, só o sabe quem está do lado de fora e tem olhos para enxergar. Esse discurso de Rio como cidade maravilhosa, como testa do Brasil me lembra o século XIX e início do XX, extremamente francês! “O Rio tem que ficar bonito”…meu Deus!…bonito já é, e ficará mais ainda quando deixar de ser somente dos Toms, dos Vinícius e dos Carlinhos…Jesus! Acende a luz!!!

  • Antonio Max, 4 de abril de 2010 @ 21:47 Reply

    oi Carlos,
    seu texto é muito bom, e queria agradecer por vc ter citado nosso grupo de carimbó HERDEIROS DA TRADIÇÃO (Santarem Novo/PA), esperamos contatos frequentes.
    um forte abraço

    toninho

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *