Temos acompanhado a dificuldade da produção cultural brasileira para viabilizar seus empreendimentos. Sabemos o quanto é difícil fazer arte em nosso país, ainda mais num emaranhado normativo em que o artista precisa se desdobrar para entender as alternativas de financiamento para seu trabalho.

Nesse contexto, somos obrigados a registrar quando uma boa iniciativa busca simplificar a forma e permitir aos produtores e agentes culturais que possam ampliar sua frente de realizações. Afinal, somos os primeiros a reclamar de coisas ruins e, quando acontecem as boas, nem cuidamos de elogiar a iniciativa. Reparemos esse histórico equivoco.

Minha alegria essa semana vem da edição do novo normativo que regula o PROAC, programa de apoio à cultura do Governo do Estado de Sao Paulo. Após dinamizar o fluxo de projetos, que multiplicou por quatro a velocidade de análise de projetos, o Secretário Andrea Matarazzo publica a nova resolução 96/2011, que torna mais transparente, simples e eficiente todo o processo de uso de incentivos no Estado de São Paulo.

Na transparência destacamos o estabelecimento de calendário fixo até 2014 para cadastramento de novos proponentes e projetos, o que permitirá aos artistas e produtores culturais o planejamento de atividades em longo prazo. Em suma: a apresentação de novos proponentes passa a ser feita entre novembro e janeiro e a inscrição de projetos se realizará em dois períodos (até então se dava em apenas um período que mudava todo ano): de janeiro a março e de agosto a novembro.

Na simplificação temos no novo normativo a consolidação de todas as resoluções anteriores (o sistema tinha tanta resolução que regulava o modelo, que ficava difícil de entender a completude do seu funcionamento).

Algumas melhorias também se destacam: os proponentes poderão ter dois projetos em fase de captação ao mesmo tempo, ao invés de apenas um. A Comissão de Análise de Projetos (CAP) poderá aprovar a proposta com sugestão de redução orçamentária, com a concordância do proponente. Antes um projeto que tivesse um item inadequado poderia ser somente aprovado ou rejeitado pela Comissão, provocando enormes injustiças.Por fim, uma série de documentos que precisavam ser apresentados junto com a inscrição do projeto agora só serão exigidos em caso de aprovação.  Na maioria dos casos, declarações de cessão de espaços e direitos autorais – que exigem uma negociação de valores que só é possível com o projeto aprovado – agora devem ser entregues antes da liberação dos recursos, o que facilita e muito a vida do artista.

Com tudo isso, imaginamos que o sistema de incentivo estadual passará a ganhar a importância para o setor cultural que tem hoje os mecanismos federais (Lei Rouanet e tantos outros). Sua gestão eficiente, hoje pautada pelo diálogo permanente com o setor cultural, aliada a um moderno regulamento, propiciará o inicio de novos tempos para a produção cultural de São Paulo.


contributor

Advogado, sócio do escritório Cesnik, Quintino e Salinas Advogados. Presidente das comissões de Direitos Autorais, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ e autor do livro “Guia do Incentivo à Cultura".

9Comentários

  • jucelma frança fontes, 23 de novembro de 2011 @ 8:13 Reply

    Gostei de ler teu artigo, muito inteligente tudo q vc escreve, parabens e sucesso

  • px silveira, 23 de novembro de 2011 @ 8:54 Reply

    Interessante saber que há vida no setor público da cultura, que tem dirigentes com discernimento e sensibilidade capazes de ampliar o acesso a um instrumento de fomento à produção ao mesmo tempo que reduzir o calvário do produtor. o artigo destaca mudanças importantes adotadas pela secretaria, porém surpreendentes em sua simplicidade e ausência de custos, que nos fazem perguntar: por que ninguém pensou nisso antes? é um belo exemplo para o cenário nacional, de resto tão carente de uma visão sobre a manada de entraves burocráticas e detalhismos que empacam a roda da cultura.

  • Sérgio M. Cruz, 23 de novembro de 2011 @ 13:08 Reply

    Concordo quando o Fabio diz que estão enunciados novos tempos para a produção cultural, agora mãos a obra e prosperidade para todos.

  • Fernando Caseiro, 23 de novembro de 2011 @ 16:13 Reply

    Acho que a organização é elogiável, porém, organizar o que não é bom é forçar a barra. Acho que falta bastante para podermos elogiar o ProAC. A demora na análize de projetos e de recursos dos pareceristas é muito lenta. Sito, por exemplo, que só existe um parecerista na área de patrimônio, que é funcionário da Secretaria e tem pouco tempo para análisar . O Secretário pretende aumentar o numero de parceristas, porém, até agora nada aconteceu. Os recursos também são parcos e acabam em poucos meses. Não se sabe, com transparencia, o valor dos recursos que ainda sobram. Quando se consegue um patrocinador o recurso já acabou e não existe um mecanismo de compensação de prazo de captação. E varios outros problemas de administração e gestão que só o dia dia de relação com o ProAC se sente.

  • Paulo Mai, 24 de novembro de 2011 @ 11:51 Reply

    Parabéns Dr Fábio pelo texto, direto e objetivo. Os produtores agora, poderão contar com mais flexibilidade e diálogo, ampliando as oportunidades. Concordo também com a análise de Fernando Caseiro. Se tivermos uma agilidade e um número adequado de peritos nas análises e pareceres técnicos, teremos um sistema muito mais eficiente. Parece-me que estamos a caminho disto.

  • José Soró de Souza Queiroz, 24 de novembro de 2011 @ 16:11 Reply

    Aos poucos os mecanismos institucionais públicos 9 e privados) vão aprendendo a lidar com a flexibilidade, autonomia e dinamismo da arte e da cultura. Queria saber se também adotaram mecanismos simplificadores na relação entre o projeto e as empresas. Como podemos ter alguma informação sobre empresas qualificadas?
    Mas muito bom artigo.
    Abraços

  • márcia, 24 de novembro de 2011 @ 18:02 Reply

    Como sempre excelente e esclarecedor artigo.
    Parabens Fabio e parabéns aos que elaboraram o novo normativo que regula o PROAC.
    Concordo plenamente que sentimos uma alegria ao sabermos que tem dirigentes com discernimento e sensibilidade capazes de ampliar o acesso a um instrumento de fomento à produção reduzindo o calvário do produtor
    Quando o Fernando diz que organizar o que não é bom é forçar a barra,discordo plenamente.
    No processo de organização sempre conseguimos ir detectando o que nao funciona e eliminando ,como fica claro no texto acima .
    Fabio continue a escrever textos esclarecedores como este ,isto
    nos acrescenta muitissimo.

  • Jbatista, 24 de novembro de 2011 @ 21:59 Reply

    Falou e disse Dr Cesnik. Sempre damos todas as merecidas e mais algumas porradas nos burocratas de plantão. Elogios e alegria pelos avanços tambem deve ser manifestados. Que os bons ventos alcancem o deserto de idéias do MinC.

  • WALTER SPIELKAMP, 6 de dezembro de 2011 @ 9:51 Reply

    Sou do time daqueles que, após realizarem o balanço de prós e contras, entende que o ProAC é uma grande ferramenta para o fomento da cultura Paulista, ainda que passível de melhorias. Além disto, acredito que pequenas mudanças constantes valem mais que uma grande medida de impacto (que no final, pode ser apenas midiática, com pouca eficácia real).

    Para que se possa avançar na profissionalização do mercado cultural, é necessário que exista, acima de tudo, a segurança jurídica, que representa a previsibilidade dos atos praticados pela Secretaria de Cultura e pelo Poder Público, como um todo. Neste aspecto, um grande pequeno passo foi dado, ao ser estabelecido o calendário (o que, por si só, impele os proponentes a se organizar).

    Outro aspecto da segurança jurídica, entretanto, ainda carece de proteção. Trata-se da questão financeira. Isto porque a verba direcionada para o ProAC é por demais acanhada, levando-se em conta o tamanho de nosso Estado e de sua arrecadação fiscal. Além disto, todos os anos observamos que, por alguns meses, o ProAC fica sem verba, o que dificulta muito um planejamento eficaz, por parte do produtor cultural. A SEC poderia, por exemplo, alongar o prazo de captação de projetos, na mesma quantidade de meses em que o ProAC ficou sem verba. Seria também um pequeno passo, mas uma forma eficaz de minimizar este impacto.

    Abraço a todos.

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