…”Durante os 30 anos neoliberais aprendíamos que o Estado era a fonte de todos os males; que o setor privado estava sempre equilibrado porque era coordenado pelo mercado, enquanto que o Estado – regido pela política – era objeto do populismo econômico…Além de antidemocrática, a tese era falsa, porque as crises financeiras demonstraram através dos tempos que o mercado jamais foi capaz de controlar o comportamento especulativo dos agentes privados….O que não estava claro era que os grandes deficit financeiros do Estado eram devidos ao setor privado, não ao populismo dos políticos….Este fato tornou-se patente em relação aos grandes países ricos na crise financeira global de 2008.Na maioria dos casos os governos estavam com suas contas equilibradas…Quando a crise arrebentou, apenas o Estado tinha condições de socorrer o setor privado. Foi o que fez; em consequência, seu deficit público e sua dívida pública explodiram….” (Luiz Carlos Bresser Pereira; Folha, 19-12).
É difícil encontrar palavras adequadas para descrever exatamente que tipo de troca a expressão corporativa ou liberal, exigiu para motivar o mercado cultural brasileiro. Hoje vejo que esta expressão é meramente teatral, apesar de tantos livros compartilharem esta autêntica retórica revestida por uma pseudo-ciência.
Um pensador pode ser um grande conselheiro, um documento notável na medida em que sua análise viva demonstre originalidade, sobretudo exemplificando, na prática, o que ele está compartilhando como “a energia fundamental da cultura humana”. Isso diante de uma platéia ávida por sensações físicas. É que, por algo que não sei explicar, essa platéia nutre uma atração por atores que contracenam em javanês com a “Ordem do Estado”.
Eu que, ao longo de vários anos, vejo a cultura brasileira malhar em ferro frio, tentando se enquadrar na dita “consciência universal”, praticando o fundamentalismo do pensamento único, sinto-me sempre motivado a me manifestar na tentativa de encontrar alguma razão que comprove que o pensamento apostilado, protagonizado pelos liberais brasileiros de que a Lei Rouanet trouxe alguma evolução positiva após conduzir seu total estabelecimento na vida institucional da cultura do Brasil.
Fizemos progressos técnicos? Sim, mas devemos entender que isso é quase um benefício exclusivo de uma pequena parcela da sociedade brasileira, ou seja, propor uma interpretação multidisciplinar do mundo da cultura com a restrição de solitária, é expor claramente o limite que o discurso técnico tem frente à realidade vivida pela sociedade brasileira.
O macartismo insiste em criar uma emoção teatral que empobrece o debate, digo isso para aqueles que tomam a palavra de maneira brilhante, mas que insistem em construir uma razão psicológica para exibi-la como benefício exclusivo de suas mensagens. Se há mesmo a crença no mercado autêntico, é fundamental que este se desfaça, na fonte, da bengala do Estado. É uma forma de realçar o papel da ideologia neoliberal. Mas, se por trás de todos esses gestos o orador busca uma jurisprudência no velho paternalismo do Estado como pilar de sua forma de pensar mercado privado de cultura, seu discurso não se sustenta sobre suas próprias pernas. Poderíamos talvez chamar a isso de técnica de motivação ao abstracionismo, pois em cultura vale tudo mesmo. Esse mundo culto é cheio de mistérios! Uns dão a isso o nome de praga da nossa profissão. Dizem que temos que estar sempre ativos, criando um palco em cada esquina para encenar o nosso espetáculo de contradições. O certo é que os macartistas, tão incomodados com a presença do Estado, devem expor em suas falas e sem nenhuma emoção, qual é o ideal de Estado e de mercado nessa combinação que os românticos da Lei Rouanet insistem em nos ensinar. Por enquanto o que vemos são cenas de ódio vestidas de estofos para sustentar a permanência da Lei Rouanet que praticou nesses vinte anos a cultura dos paradoxos em quantidade e qualidade. Por isso invoco o nosso guia espiritual para que, através do seu conhecimento adquirido, aprofunde suas meditações praticando com eloqüência e sem retórica, princípios absolutamente cartesianos, com números misericordiosamente pragmáticos. Do contrário, ficarão as imagens de sacerdotes oficiais do fracasso que essas informações, ou melhor, que essas interpretações neoliberais tentam sustentar.
Hora nenhuma vi o Ministério da Cultura estabelecer limites aos discursos liberais da cultura, diferente disso, vi o MinC rogar por uma participação ativa, concreta e direta do investimento privado na vida brasileira. O que o MinC combate, e que eu apoio, é o discurso esquizofrênico da gestão corporativa que é comunista na captação e neoliberal na distribuição egoísta de seus benefícios. Às vezes penso, será que esta é uma demanda nossa, brasileira, um capitalismo saci? De um lado devem estrita obediência aos mandamentos científicos e técnicos das práticas fundamentais da “livre iniciativa” que se julga diante dos discursos de alguns, o grande fertilizante das artes e o verdadeiro inseticida contra as práticas nazi-stalinistas instaladas pela atual gestão de um “ministro que veste prata”. Do outro lado, a beca do mestre que é a sensação da feira de negócios da cultura, diz que o Estado tem que garantir a cultura. Então, ficamos aqui meio bêbados na nossa errante tarefa de decifrar esta monumental ambigüidade.
Mas, enfim, se esse pensamento científico verifica que só há florescimento na cultura de mercado com 100% e aportes públicos, seu pensamento não é a favor do comercio, da economia, da demanda e do mercado. O que o nosso mestre está clamando é por dinheiro público em estado puro, como fez nesses últimos oito anos, o neoliberalismo cultural exigindo que o ministro conseguisse um aumento exponencial de recursos, para que eles, através do contingenciamento do aportes públicos para o setor privado, produzissem a “qualidade, o conhecimento e a consciência da meditação artística que tanto a nossa sociedade carece”. Ora, há uma tradição na filosofia da cultura brasileira adquirida nos melhores becos e tocas, onde todos se consideram o cérebro que transmite a informação fundamental. Isso é sempre dito com calor tórrido depois de alguns goles, logo ao pôr o sol, aonde o lar da cultura vira um butiquim, e Chico torresmo vira Francis Bacon.
Talvez esse teatro todo tenha significado mais forte que as palavras. Talvez esse sentimento interior venha dos mantras e rituais cheios de denguices da suprema tribuna colonialista, já que se aproximam os quinhentos e onze anos de exercícios de arrotos eruditos em prol da evangelização cultural do povo brasileiro.
Essa compreensão físico-intelectual parece ter ganhado muita musculatura com o anabolizante meritocrático das corporações que hoje se autodenominam market-share, os tigres da gestão corporativa.
Bom, ainda aguardamos uma argumentação transparente que exponha números e os benefícios desses vinte anos de investimento público na seara da cultura neoliberal. Por enquanto, continuamos a ver esse pensamento produzir apenas espuma e buracos n’água com esperneios macartistas contra o Estado.
4Comentários