Impressionam-me os sucessivos embates em listas, seminários ou quaisquer outros ambientes propícios, que só instigam as divergências de posicionamento no que podemos chamar de produção audiovisual no nosso país. Na ausência de uma simples interpretação econômica sobre o funcionamento do mercado, o que se assiste continuamente é um desgastante processo de autofagia. Uma luta fratricida que só impede um dinamismo que se espera do setor desde os seus primeiros passos. E os sonhos de um dia o setor se transformar numa verdadeira indústria.
De certo modo, a adoção do espírito técnico de economista tem me ajudado um pouco mais no entendimento que se sucede nessas divergências. No meu ofício de produtor, posso e devo até entendê-las na sua essência ideológica. Mas, numa visão meramente técnica, não posso aceitá-las como uma prática proativa, porque o exercício contumaz do antagonismo não serve para o fortalecimento econômico da própria atividade. Daí esse entendimento autofágico, suicida, incapaz de se reconhecer e de se respeitar enquanto segmentos diferenciados do mercado.
O danado é que o embate se inflama nas mínimas coisas. Se um simples comentário qualquer insinua algo contra uma forma de pensar ou se fazer cinema, o segmento atingido reage, destilando todas as formas de antagonismos possíveis. Jamais se vê algum nível de entendimento que não só fosse capaz de se respeitar as diferenças, mas que pudesse encontrá-las numa sintonia vital, a partir das suas complementaridades. Aliás, essa é uma percepção técnica que se faz necessária à compreensão da dinâmica do todo mercado cultural, pois isso não é fato exclusivo do setor audiovisual. As segmentações que fazem esse universo cultural tão plural é fato perceptível dentro e fora de cada atividade. Portanto, as diferenças se dão de modo inter e intra-setorial. Se, por exemplo, há diferenças nos processos produtivos de setores como o cinema e a música, o certo é que não há também diferenças em se compreender as distinções existentes dentro do cinema e da música. E isso é perceptível não só pelo lado estético das artes. Afinal, há que considerar também a mesma distinção com as escalas de produção e o consumo, ambos absolutamente diferentes.
Uma pena que são poucos os que enxergam que esses segmentos do cinema são interdependentes, caso se queira enxergar o processo econômico pelo dinamismo que lhe possa dar a sustentabilidade necessária. O perigo está justamente na análise estática, pelo risco de se inflamar pelo caminho ideológico essas diferenças. No frigir dos ovos, o que se vê, pela amostragem de todas as formas de debates, é que o maior adversário do cinema o próprio cinema. Por extensão, o maior adversário da cultura são os próprios produtores culturais. E por isso tudo, os poderes públicos terminam por efetivar políticas lineares, sem a compreensão de o tratamento a ser dispensado a diferentes tem que ser através de medidas não menos diferentes. Uma lógica simples de ser vista e entendida de fora do processo. Mas, de dentro, infelizmente o “bicho sempre pega”.
Um pequeno exemplo desse aguçamento das divergências se deu pouco tempo atrás em listas de discussões, em mais um debate estéril e anódino. Incompreensões mútuas e provocações descabidas, levadas até o campo do comportamento pessoal, definem bem o retrato de tanta inutilidade. Refiro-me às farpas trocadas entre um importante gestor público e a crítica especializada em cinema. Tudo em torno de um possível “sucesso de bilheteria”, cuja produção tem um tom sobejamente comercial. Uma linha produtiva que não costuma, com raríssimas exceções, agradar a crítica, que sempre se apresenta mais entusiasmada com as produções autorais, de cunho reflexivo. No entusiasmo de uma defesa – tecnicamente necessária – pela melhoria do market share do cinema brasileiro, o dirigente fez um trocadilho infeliz em cima do título da obra, devido à postura resistente da crítica em não recomendá-la para seu público leitor. Pano para manga, em termos de novas discussões. Ou seja, a nitroglicerina necessária para uma nova “combustão” em cima desses segmentos tão diferentes. Afinal de contas, qualquer motivo pode ser considerado para a retomada de um fratricídio que costuma ser praticado diariamente.
Ideologias e questões pessoais à parte, tudo isso é muita singularidade para meu gosto analítico. E o curioso é que todos enchem os pulmões para bradarem com entusiasmo o quanto é bonito ver nossa cultura plural. Ou seja, pluralidade no discurso rende todos os dividendos. No entanto, na hora de praticá-la com respeito e responsabilidade, o que vale é cada um por si. E vão às últimas conseqüências, sobretudo nas movimentações políticas, porque querem que ações governamentais tenham a mesma mão única. Noutras palavras, o fratricídio do antagonismo dos segmentos é reforço certo para que o poder público imponha suas políticas homogêneas, absolutamente inconsistentes com a realidade plural. Esta condição, como é práxis, só tem beleza nos discursos e na teoria. Haja contradição!
E como nada muda e tudo continua como dantes, todo setor é levado sutilmente para uma individualidade improdutiva (que o digam os embates pessoais tão costumeiros nessas listas). Fica difícil assim entender que, na linguagem da economia, faz-se necessário separar os seus agentes econômicos, porque as atividades são muito distintas. É necessário considerar o papel do “ator econômico”, na figura do produtor que precisa aprender a empreender. Da maneira que vai, ele nunca decola, exatamente porque não descola da também importante missão de “ator cultural”, justo quando essa condição resiste ir além do seu lado artístico, só comprometido com a arte em si.
Enquanto os dilemas e as picuinhas improdutivas não se superam, torna-se insignificante entender e defender o real significado do que possa ser efetivamente uma Economia da Cultura. Ou, mais precisamente, uma Economia do Audiovisual. Só que esse andar é bem mais alto do que se propala. E o elevador parece ainda não ter como chegar.