Foto: Xavier Vargas
Lembro-me como se fosse hoje. Em 2003, o Ministério da Cultura prometia aprimorar a Lei Rouanet a partir de uma turnê de palestras intitulada “Cultura para todos”. Lembro também que o Instituto Pensarte reuniu contribuições de pessoas de todas as áreas culturais num seminário chamado “Visões da Cultura”. Ali havia um processo colaborativo da maior relevância. E também havia crédito e capital político no MinC para promover mudanças que àquela altura já eram urgentes.

Entregamos o material pessoalmente ao Ministro Gilberto Gil. Eu estava no exterior na época, mas o relato dos meus colegas foi claro: “o Gil recebeu com muito entusiasmo as contribuições”. Mas o que mais marcou foi a compreensão do papel do ministro à frente do MinC na época. Gil teria dito mais ou menos assim: “Meu papel aqui nesses quatro anos é estabelecer um novo discurso para a cultura. Não acredito que conseguirei efetivá-lo na prática, mas acredito que conseguirei formar no imaginário do povo, ou da opinião pública, um novo sentido estratégico para a cultura”.

Não sei o que virou o material. Sei que o MinC contratou uma consultoria para compilar as contribuições de todos para a Lei Rouanet. Ouvi dizer que eles não finalizaram o trabalho, que o relatório foi engavetado junto com tantas outras iniciativas deixadas de lado por aquele pulsante e pensante ministério da cultura. O pior é que aquela trabalheira toda virou papel empilhado nos corredores do MinC. Uma boa olhada naquilo tudo e já teríamos economizado muito da discussão anacrônica que estamos vivendo, por conta da proposta tardia e mal ajambrada do Profic.

O discurso não era tão novo assim. Gil reuniu questões e discussões já consolidadas e levantadas pela sociedade civil e deu a elas um patamar e uma vestimenta de “política pública”. Colaborei muito com esse processo, aqui e no exterior. Sabíamos todos das dificuldades de colocar aquele vasto e abrangente discurso dentro de um escritório que funcionava para carimbar projetos da Lei Rouanet. O discurso era rico, às vezes contraditório ou demasiadamente retórico, mas era exatamente o que precisávamos.

Passados os primeiros quatro anos, o Brasil sentiu a necessidade de um mínimo de aplicabilidade para aquele monte de palavras amontoadas em palanques, fóruns e statements. Lembro de ter promovido duas edições do Fórum de Cultura e Cidadania Corporativa, o primeiro no Hotel Maksoud Plaza, o segundo no Transamérica, em 2005 e 2006. Gilberto Gil reforçou a importância da aliança e do diálogo com as empresas. Cobrou-lhes responsabilidade, mas abriu o diálogo. Mais tarde o MinC abriu o próprio fórum de investidores, coordenado por Marco Acco, que deixa saudades. Aquilo tudo virou pó.

Uma política cultural efetiva precisa muito mais que um discurso. Precisa estar bem fundamentado e sustentado por conceitos, ideologias, projeto de país, visão de mundo. Precisa se articular com as várias esferas da sociedade, ter uma estrutura que o suporte e dê efetividade programática. E precisa de orçamento compatível com essas propostas.

O discurso é apenas a ponta de lança de uma política. O primeiro mandato se foi e nos acomodamos com o discurso. Os esforços para torná-lo realidade foram se esvaindo, poeira que embaça a vista.

Diversidade cultural é uma questão complexa (abordarei isso no próximo artigo). Não se valoriza, promove e preserva no grito, na acusação e no confronto. É preciso de um pouco mais de humildade, diálogo, organização, metodologia, com sistemas e processos planejados. A cultura carece de uma legislação mais adequada, mas sobretudo de uma estrutura funcional para lidar com suas demandas difusas, com as contradições entre o existente e o imaginado, projetado, aí sim, a partir de um discurso. O ótimo é inimigo do bom.

Sem esse terreno adubado, corremos o risco de desgastar e invalidar discursos bem elaborados, necessários e até urgentes, transformando-os em engodos administrativos fáceis de serem desmoronados por gestões políticas mal-intencionadas. A história nos diz que elas virão.

A passagem de bastão de Gilberto Gil para a sua equipe tinha uma razão de ser. A profusão de iniciativas e a grandeza do discurso se afastava cada vez mais da realidade prática e era preciso de gestores para tomar as rédeas do processo e partir para institucionalização dessa quase-política, e que agora sabemos, era apenas discurso.

Mas o que aconteceu foi o oposto disso. Contamos com menos capital político, menor capacidade de diálogo, tentando levantar bandeiras e estabelecer uma marca diferenciada, distanciando-se cada vez mais do que acostumamos chamar de Política Gil. E se apropriando indevidamente de palavras-chave e conceitos às vezes nebulosos para a grande maioria dos agentes culturais, mas que viram pérolas de esperança na boca de um caçador de marajás tardio.

Com uma equipe de comunicação competente e estrategicamente armada, o MinC conta com uma profusão de eventos, seminários, linguagem audiovisual, domínios dos mecanismos da web, acesso às redações da grande mídia e investimento publicitário é possível transformar palavras vãs em algo aparentemente concreto. A verdade é que não ainda temos Política Cultural no Brasil. Temos um projeto, uma projeção, uma ideia em construção, que a cada dia se conforma em ser apenas isso.

O processo de construção concentra poder. Mas sua efetiva implementação significaria distribuir poder. Parece termos aqui a chave da questão.

Tomemos por exemplo o Cultura Viva, uma ação programática inovadora e louvável, liderada por Celio Turino, um agente competente, com carisma, capacidade de diálogo, mas que sofre com os inúmeros entraves burocráticos. Ele sabe muito bem da necessidade de institucionalizá-la. Batalhou por muito tempo a edição de uma lei para o programa e uma fundamentação metodológica compatível com o discurso complexo e de difícil execução em um país dominado por elites economicas, oligarquias políticas e poder midiático.

O pior inimigo do Cultura Viva, que caminhava nesse sentido, é o próprio MinC, que vai no sentido oposto. Em vez de institucionalizá-lo, quer re-inventá-lo com outro nome. Tudo começou com o Mais Cultura, que recebeu dinheiro mas não continha uma proposta clara de atuação, sequer um discurso conciso e convincente. O que fez o MinC então? Apropriou-se do discurso do Cultura Viva, dervirtuando-o de tal maneira que corremos o risco de não sobrar qualquer um dos dois para contar a história.

Dividido em três pilares, Cidadania, Cidades e Economia, o Mais Cultura só fez “render o  peixe” do Cultura Viva, tranformando ações programáticas em ações de marketing político. Os Pontos de Cultura já viraram pontinhos, Pontos de Leitura, de Memória. Na verdade tudo não passa de um ponto de interrogação. Não sabemos o que queremos nem para onde vamos.

Na ânsia de fazer bonito, de superar o maior ministro da cultura que já tivemos, de sobrepor-se, pela via do poder absoluto e do controle, diante de líderes naturais, como Turino, Mamberti e tantos outros defenestrados pela atual gestão, o MinC perdeu interlocução e capacidade de ação. Esse complexo contruído por todos nós, agentes públicos e privados de cultura, pensadores e operadores do setor, está em risco.

E com isso vai junto todo o investimento que a sociedade fez, abrindo mão, acreditando na boa intencionalidade das propostas, apoiando, celebrando e sustentando a ousadia-ingênua de Gilberto Gil.

Precisamos institucionalizar o que já está adiantado, centrar força no que interessa e preparar o terreno para a próxima gestão. O que se anuncia como coragem, confronto, enxergo como covardia, embriaguez do poder, fuga à responsabilidade de fazer o que tem de ser feito. Urgente!


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

6Comentários

  • Angélica de Moraes, 27 de junho de 2009 @ 10:40 Reply

    Prezado Brandt: cada vez mais acredito que a vontade política está em falta no mercado. Nossas “otoridades” são ancestrais detentoras da retórica oca, da auto-embriguez gerada por discursos bombásticos. Têm um olho nas vantagens imediatas que podem auferir do cargo e outro na manutenção da sinecura para os seus apaniguados. Na prática da política cultural, continua tudo emperrado e sem projeto macro. Há décadas, haja ou não ministro carismático e articulado com a mídia.
    Não acredito mais, infelizmente, em projeto cidadão gerado por essa gente. Ou a sociedade civil se organiza para construir isso e exigir correções de rumo na base da pressão ou estamos ferrados de vez. Não acredito em Messias ou apóstolos mas em cidadãos conscientes de seus direitos e (especialmente) de seus deveres de construir este nosso Pais. Por isso leio Cultura e Mercado, um fio de esperança no exercício da cidadania cultural plena. Arriba, Brandt!

  • Aninha Franco, 27 de junho de 2009 @ 17:10 Reply

    Além de “covardia, embriaguez do poder, fuga à responsabilidade de fazer o que tem de ser feito”, acrescento inadequação ao cargo. Juca Ferreira não tem conteúdo para exercer o cargo de ministro da cultura, e é lamentável que Lula, o PT e o PV ao qual pertence Juca, estejam subtraindo tempo e oportunidades de uma das classes mais desfavorecidas do Brasil, a artística.

  • Marcos Moraes, 28 de junho de 2009 @ 21:27 Reply

    Mais uma vez nos expressamos aqui, no C&M, expondo idéias e críticas, enquanto perdeu-se o rumo da Cultura no plano Federal. Meu diagnóstico é parecido, mas acrescento que acho que Gil tem muita responsabilidade sim no estado da atual gestão. Quando Gil já “entredizia” que não queria permanecer no Ministério para o segundo mandato do Presidente Lula enquanto o ministério articulava junto à sociedade civil o “Fica, Gil”, iniciou-se o “expurgo político” que desarmou todas as áreas (mais ou menos eficientes) que poderiam ameaçar o projeto pessoal do atual Ministro e a agenda passou a ser a construção política de sua permanência, pois naquele momento se Gil não ficasse Juca não herdaria automaticamente o ministério e o poder simbólico que recebeu a aprovação de um amplo espectro do setor cultural. Isso foi feito através de uma política de terra arrasada como a que ocorreu na Funarte e em algumas secretarias e com uma desmobilização das ações destinadas a articular o setor cultural e construir uma força política capaz de atuar nos outros setores de governo e do parlamento, tão retrógrados quando se trata de Cultura (SIC); tanta agenda política não deixou lugar e energia para administrar e colocar em ação o legado teórico e participativo do primeiro período. Acho que a atual administração do MinC e do Governo Federal tem uma enorme responsabilidade na destruição autofágica que ocorreu e estamos todos pagando o preço disso. Por que um governo reeleito, com um ministro da Cultura reconfirmado no cargo, remove uma parte de sua equipe que estava realizando um bom trabalho, causando uma ruptura ao invés de uma continuidade? Isso é lesão à coisa pública, que votara pela continuação. As motivações ficam a cargo de cada um, dizem que o setor cultural sabe pensar…

  • Cecilia Mares Guia, 29 de junho de 2009 @ 9:42 Reply

    Brandt, sempre leio o que você escreve. Acho sensato alguém de coração limpo e generoso com a Cultura, tenha o poder de falar sobre a situação cultural do nosso país.
    Quando faço uma releitura dos seus relatos tão cheios de ânimo e entusiasmo para revelar alguma nova idéia, redescubro novos caminhos no texto.
    Veja, sempre terá alguma entranha, um extravio no meio do caminho para emperrar o desenvolvimento. Alguém que tenha luz própria ofusca, e eles não gostam disso.
    Mas, o que é necessário para alcançar o sucesso é a determinação. DETERMINAÇÃO É UM PODER. E você foi o sorteado da vez em ser aquele que é o mais determinado, em estar gentilmente sempre pensando, escrevendo, fazendo, e agindo. Estes verbos juntos são a chave para o sucesso. Acredito em você. Vá em frente! Sucesso sempre.
    Um Abraço a todos da Equipe do Cultura e Mercado,
    cecilia

  • Celso Parubocz, 29 de junho de 2009 @ 11:42 Reply

    Infelizmente tudo caminha para o caos, artístas correndo com o chapéu na mão, tudo pela Arte, tento fazer algo para manter Projetos sérios com crianças pois o crack está solto em todas as cidades do rasil para mudar a mentalidade e mostrar que o mundo é bom e o Brasil é melhor ainda, mas a midia é mais forte e o exemplo do nosso dia a dia parece que mostra a todo instante que eu estou errado.. Participei de muitos fóruns, debates, reuniões aqui no Paraná e em minha cidade e o que vemos hoje, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, avós, bisavós, grupos de manobras, vaquinhas de presépio. Nossa Cultura esta morrendo com nossos pais e avos e pessoas mais velhas que levam para o túmulo nossas poucas tradições. O que me deixa mais tristes são cantores que estão na midia atingem multidões, estas pessoas que lutaram no tempo da ditadura e hoje são “referências” para nossos “jovens” não fazem nada a não ser continuar mamando na teta dos nossos governantes. Quando os brasileiros começarem a fazer baderna, quebra quebra, e coisas piores como já aconteceu em outros países aí nossos políticos vão tomar uma atitude para mudar nossos rumos, ai será tarde o caos já estrá tomado conta e perdemos muito de nossas raízes.
    Celso Paruboz – Artista

  • Leonardo Brant, 30 de junho de 2009 @ 19:22 Reply

    concordo integralmente com suas palavras, Angélica. Precisamos mesmo é partir à luta. O Congresso está aí, não sabe o que está acontecendo e é inteiramente influenciável pelas demandas do executivo. É preciso uma mobilização de cada um de nós. O pior de tudo é que o próprio presidente não sabe o que está acontecendo. É ludibriado com informações manipuladas e com uma visão restrita de cultura.

    Ainha e Marcos, é incrível como alguém sem respaldo qualquer, do próprio partido, do setor cultural, dos artistas, consegue se afirmar no grito dessa maneira. Ainda por cima colocando todos os agentes implicados e interessados nas políticas culturais em pânico e risco.

    Agradeço as palavras Cecilia, mas não me coloco neste lugar. Peço que não deleguem qualquer responsabilidade desse tipo a mim. Tem uma gama de pessoas lutando pela sobrevivência das artes e pelo fortalecimento dos setores ligados à cultura. Estamos todos no mesmo barco, cada um com seus mecanismos e instrumentos de resistência. Vamos à luta!

    Pois é Celso. E se depender da vontade do nosso ministro as coisas vão piorar. E muito!

    Precisamos encontrar mecanismos para desmascarar essa manipulação do MinC em torno de interesses próprios. Apresentar as incoerências e o abismo entre o que se fala e o que se faz é um bom caminho.

    Abs, LB

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