É certo que a cultura brasileira vive um quadro de angústia, e o mesmo pode ser aferido na inquietude da criação, justamente pela falta de um horizonte que aponte regras para que se estabeleça um sentido de gestão pública de cultura. Isso pouco ou nada tem a ver com o fato de uma obra ser ou não patrocinada, tem a ver com as dimensões da sociedade brasileira e seu maior representante no campo da cultura, o MinC. Vários sinais de rejeição são revelados através do natural divórcio da sociedade civil independente com o que chamamos culturalmente de sociedade civil organizada, o que nos dá a absoluta certeza de que há na base do processo que contempla o pensamento institucional um sentido doutrinário alheio às escolhas da sociedade.

 

De tempos em tempos, os ponteiros são ajustados entre o artista brasileiro e a sociedade, mas não digo dos movimentos de pequenas dimensões, esses não alcançam a sociedade e muito as manchetes Ao contrário, digo de verdadeiras revoluções, principalmente no campo social promovidas pela própria sociedade e não detectadas, ou pelo menos não com a devida atenção que deveriam ter instituições que pretendem ser laboratórios, como é o caso das universidades. O mesmo se dá com a mídia, pois na maioria dos casos, abandona o raciocínio lógico e segue firme ao encontro da criação mitificadora, sem ao menos observar realmente o impacto que o assunto abordado tem diante da sociedade. É provável que o mercado tenha construído o vício que classifica seres humanos de A, B, C, D, E através do poder de consumo, e que estimule a progressiva visão crítica desses mesmos grupos sociais vistos laboratorialmente pelas planilhas analíticas de tais movimentos.

 

Não quero entrar no mérito dessa absurda pontuação humana via mercado, mas creio que, de todos os erros que habitam o ambiente institucional de cultura no Brasil, este é o mais puro retrato da contaminação distorcida do conceito que se pode ter da cultura e do homem.

 

As interferências das gestões públicas de cultura produzem cada vez mais vácuos, projetos estéreis e acentuações de tensões sociais. Isso é observado no ambiente que rondou o lançamento do fundo setorial do audiovisual, pelo menos foi essa a impressão que tive ao ler a matéria de André Miranda no jornal O Globo do último dia 06. Há mesmo um caldo mecânico que ronda o nosso ambiente, principalmente o ambiente técnico da arte, seja na criação, na produção ou na fruição. Somente isso pode explicar a passagem em branco da música brasileira nesses seis anos das gestões Gil e Juca. As decisões nada têm de democráticas. O que está aí anunciado como democracia cultural, é um clube dos mais fechados, sequer tem um cacoete que aponte para uma visão das nossas reais escolhas, das nossas reais potencialidades. Os tradicionais chás filantrópicos andam a beneficiar os projetos de financiamento direto como os pontos de cultura e etc.

 

É difícil crer que um pequeno grupo que se instalou dentro no MinC possa ter nos conduzido a essa absoluta deriva em que nos encontramos, estamos jogados sem leme, sem vela, sem remo e sem rumo. É certo que de novo não há nada, mas o que nos faz lembrar essa política da “Ancine” é mesmo a lendária Petropaulo de Maluf. Há o investimento na produção, porém sem qualquer investimento na distribuição. A dimensão que contempla a tal diversidade que inclui Xuxa a Baixio das Bestas é de uma puerilidade que beira ao esdrúxulo do pensamento contemporâneo.

 

É nítido que o MinC fez como um mal aluno, que entrega a prova quando bate o sinal de encerramento sem nada ter feito, pega as palavras das perguntas e mistura para dar volume às respostas completamente desconexas.

O que digo é que a garantia dos privilégios me pareceu óbvia na matéria que li e continuará contemplando uma “certa criação”, mesmo que esta jamais seja vista. Com isso, esse processo viciado e letárgico, herança maior da idéia de superioridade cultural continuará onde sempre esteve e a sociedade, de A a Z, continuará aonde está. De um lado, os gestores públicos de cultura, e do outro, a sociedade, um não sabe da existência do outro. A verdade é que essa mesma sociedade não reconhece o Ministério da Cultura como um órgão do governo Lula, senão, com certeza, não lhe daria 80% de aprovação, aprovação essa pela justíssima administração desempenhada por outros ministérios.

 

O Ministério da Cultura conseguiu uma façanha, não ser a cara da sociedade e muitos menos a cara do governo Lula, ele é simplesmente a cara daquele pequeno grupo que vedou o Ministério e o deslocou da órbita brasileira.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

4Comentários

  • Henilton Menezes, 9 de dezembro de 2008 @ 23:39 Reply

    Pela primeira vez na história desse país, como bem vem apregoando o presidente Lula, as políticas culturais estão saindo do eixo “maravilhoso” rio-sampa para atingir os grotões do povo brasileiro, onde ainda se produz arte e cultura genuínas, mesmo que miscigenada com influências externas, o que não é ruim. Essa “desmigração” é consequência direta dos últimos anos de política cultural Gil-Juca. O programa ” pontos de cultura” foi a mais justa iniciativa de aplicação de recursos públicos para a cultura brasileira. Certo é que precisa de ajustes, como qualquer programa que vai de encontro a política concentradora sudestina que vivíamos em eras anteriores no Brasil. Os chás filantrópicos brasileiros aconteceram (e ainda acontecem) principalmente nos encontros palacianos da elites paulistana e carioca. As mesmas elite que usufruiram, durante décadas, das benesses dos incentivos fiscais historicamente concentrados numa única região que não deveria precisar dessas renúncias do estado. Em um evento recente, realizado em BH, ouvi comentários neoliberais como “um projeto de 10 mil reais não tem mercado”. Que mercado? Como explicar um projeto de projeção de filmes brasileiros realizado no litoral alagoano beneficiando mais de 2.000 pessoas, onde foram utilizadas as velas das jangadas para exibição dessas películas, a um custo de pouco mais de 15 mil reais? Por um mega produtor, esse mesmo projeto custaria R$300 ou R$400 mil, sob a alegação de “estrutura profissional”. O Programa Mais Cultura, do mesmo governo Gil-Juca, está apontando seu farol para a população que vive no semi-árido nordestino, beneficiando populações historicamente excluídas das políticas culturais brasileiras, anteriores ao Governo Lula. Serão centenas de pequenos municípios que serão beneficiados com ações concretas, promovendo a rara (para aquela região) possibilidade de protagonismo artístico. A arte está em todos os lugares, merece então investimentos em todos esses mesmos lugares. O MinC vem tentando diminuir esse fosso histórico, mas ainda há forçcas reacionárias que não enxergam além da zona sul carioca ou o do jardim paulista paulistano.

  • Carlos Henrique Machado, 10 de dezembro de 2008 @ 14:57 Reply

    Olá Henilton
    Em primeiro lugar, gostaria de lhe parabenizar pelo seu belo trabalho!.
    Qunto ao seu comentário!
    Sugiro que leia alguns artigos que escrevi aqui mesmo!
    A DESAFINADA VIOLA DE JUCA E O MONÓLOGO CULTURAL
    UM CAMINHO NATURALMENTE NACIONAL
    A LEI ROUANET E O PAU QUE NASCE TORTO

    Tenho plena noção dos desmandos de outrora na cultura.
    Mas acredito que, (AS NOSSAS AÇÕES TEM QUE SER DO TAMANHO DA REVOLUÇÃO QUE QUEREMOS TER).

    E, se há como de fato, a necessidade do confronto, o Estado, este abrigo de assento aquecido dos SENHORES DOUTORES da verdade “culta”.
    As catarses midiáticas que os senhores dos anéis mantém, quase diariamente, contra tudo e contra todos os que querem lhes tirar os privilégios
    Tem ampliado seu campo de ação,o Minc sede sempre a pressão corporativa!
    Vejá la quem saiu bonito na foto, logo no pelotão de frente no Capanema no dia da posse de Mambert.
    Quem? Os plin-plins de sempre. No dia tinha muitos dos plin-plinsões!

    Quero lhe dizer que precisamos é mudar o foco conceitual e que não é uma questão simplesmente de ordem financeira, ela é consequência. O estígma do pensamento urbano, da visão costeira, da imigração sonhada Europa/Brasil, tem traços que vão além das questões oligárquicas que sempre construiram suas fortunas na exploração da mão-de-obra brasileira. O MinC não promoveu um debate profundo. O academismo que se interessa pela letra que abre o seu discurso ser maíscula e termina o seu texto com ponto final sem nenhum recheio de conteúdo crítico, está aí a criar fantasmas da sociedade para a sociedade. O MinC deveria agira como um caça-fantasmas e não como um mero tapa-buracos desta estrada que sempre foi o caminho das pedras do nosso reinado conceitual. O MinC vagou junto com o pensamento abstrato, este pensamento do “deixa que eu chuto”, do “elas por aquelas”, do famoso “ou não”. O MinC acabou com essa sua postura criando a marca de dualidade com um slogan que lhe cai perfeitamente bem, “ME INCLUA FORA DESSA”. Enfim, lançou o ministério dos bombeiros para apagar o primeiro palito de fósforo aceso do batalhão de choque da Globo.

    O que digo é que o MinC não pode continuar a acender as famosas duas velas, pior, uma velinha de aniversário pra quem está, há mais de um século, sabe qual vela não é? Aquela que apaga, acende, apaga, acende. Por outro lado, aquela vela de sete séculos que sempre iluminou o caminho dos iluministas de fichinha que se acham os donos da cultura deste país.

    Agora mesmo estamos vendo o vedetismo 68 se valendo de lutas que eles próprios não pariciparam, para se auto-proclamarem a revolução cultural em pessoa, quando na verdade, eles foram os primeiros produtos culturais teen criados por Midani.

    A cultura brasileira precisa ser passada a limpo, jogar no lixo essas historinhas de Nelsinho Mota e do outro papagaio de pirata de 68, Zuenir Ventura. Essa turma que anda com a bíblia neoliberal debaixo dos braços e se dizem os verdadeiros charmosos da esquerda culta. No final estão todos comemorando os ganhos que tiveram com as políticas do MinC. Mais ainda, na questão cultural do Brasil

  • Emerson, 11 de dezembro de 2008 @ 21:02 Reply

    Folha de S. Paulo
    SÁBADO,6 DE DEZEMBRO DE 2008

    Em meio ao furor causado pelo “sifu”, passou despercebido um trecho do discurso de Lula, anteontem no Rio, no qual o presidente praticamente chamou seu ministro da Cultura de burro.
    Lula começou por “dar os parabéns” a Manoel Rangel Neto, diretor da Agência Nacional de Cinema, pela “exposição didática” sobre o Fundo do audiovisual. ” O Juca (Ferreira) passou três horas comigo e eu não entendi o que era”.”Está certo que o Juca teve que explicar 300 coisas”, ressalvou, “mas esta foi a forma mais didática”. E prosseguiu: “Se a pessoa faz a apresentação uma vez e a gente não entende, a gente é burro. Se a pessoa faz a segunda vez e a gente ainda não entende, a gente é meio burro. Mas, na terceira vez, burro é quem está explicando”.

  • Carlos Henrique Machado, 12 de dezembro de 2008 @ 8:23 Reply

    Este “sifu” está dando panos pra manga a uma mídia derrotada, falida no seu intento de queimar Lula durante estes últimos seis anos. a mídia, na verdade, tinha que escrever sobre si própria e abrir um almanaque semanal e, se possível, trocar de nome, ao invés de Veja, “mifu”.

    Que isso sirve de reflexão para que observemos que a mídia não é essa poderosa toda quer se diz, está sendo derrotada por Lula. Cabe a nós analisarmos os motivos, ou nos falta coragem.

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