Foto: Rafael KageO reconhecimento da cultura como atividade econômica é muito recente. Até o início do século 20 a tratávamos apenas como patrimônio simbólico. Tanto nos estudos antropológicos quanto nos sociológicos, aprendemos a enxergá-la como coisa dada, o que está impresso em nossos códigos de convivência e consolidamos como civilização.

Arrisco-me a explorar uma outra dimensão que a cultura pode assumir a partir de uma visão mais ampla e contemporânea deste conceito. Refiro-me às dinâmicas de sociabilidade, às tecnologias de convivência, ao diálogo, às conversações em redes. Sistemas de intercâmbio e interrelação reforçados pelo surgimento das novas tecnologias, mas não exclusivos aos territórios virtuais.

Imaginar e expressar o futuro. Pensar cultura como um farol voltado para as novas formas de expressão e convivência que podemos construir a partir do conhecimento disponível. A ética como princípio norteador. A consolidação da economia como ciência dominante em nosso tempo fez com que lhe subordinássemos todas as outras formas de manifestação humana como fenômenos derivativos, seguindo uma lógica e uma codificação próprias. E com a cultura não foi diferente.

E daí vem a tentação de transformar ricas manifestações culturais em commodities baratas, manuseadas de maneira rasteira e linear por profissionais reprodutores de um conjunto de regras e tecnologias que só interessam à manutenção de um perverso sistema de poder, que se sustenta sobretudo pelo domínio dos meios de produção e  distribuição de conteúdos culturais.

Mas o que é a economia senão um fenômeno cultural? O que são o dinheiro, o market share, a pontuação da bolsa de valores, senão valores simbólicos desprovidos de sentido fora de um conjunto de códigos rigorosos chamado “mercado”. Mergulhados nesse contexto, corremos o risco de perder a capacidade de desvendá-los e tornamo-nos apenas agentes de manutenção e disseminação de um sistema de valores linear, unilateral e desumano.

Nessa condição, o consumo consolida-se como a forma de expressão mais forte e presente, sobretudo nos grandes centros urbanos. A própria arte passa a ser ressignificada e vista como meio de produção e objeto de consumo. Corre, assim, o risco de perder a condição e a capacidade de revelar e traduzir a alma humana, suas contradições e riscos. De sua condição única e insubstituível de dar forma à utopia, passa a mera reprodutora de um sistema que o incapacita para o exercício desse olhar mais agudo e sensível.

O Brasil vivenciou na última década um grande salto quantitativo e qualitativo nas relações de trabalho na área cultural. Cultura, como atividade econômica, saiu do confinamento, ultrapassou fronteiras, mas ainda mantém vícios e dependências de uma atividade ligada aos poderes político e econômico.

O país entrou de forma definitiva no cardápio do entretenimento global. Um dos principais mercados das chamadas majors do cinema e da indústria fonográfica, o país vivencia a efervescência de uma nova Broadway tupiniquim, que já demonstra sinais de vitalidade. Do ponto de vista da exportação das artes e da cultura local, o momento atual nunca foi tão profícuo. Desde Paulo Coelho, um dos autores mais lidos da atualidade, até o futebol e a música, o Brasil nunca esteve tão em voga no cenário global.

O gestor cultural precisa estar atendo para valer-se dessas oportunidades. Participar ativamente do mercado da  cultura sem estar a ele subordinado é uma das questões éticas mais difíceis ligadas ao cotidiano do gestor cultural. Por isso a necessidade de investir em um conjunto de ferramentas adequadas para lidar com a administração e o marketing, por exemplo, mas não sem fazer uma incursão mais profunda na questão ética.

Não há nada que influencie mais a conformação de um produto cultural do que o seu sistema de financiamento. Presume-se, por exemplo, que um filme distribuído por uma major norte-americana teve menos liberdade artística do que um filme independente. Este, por sua vez, terá mais dificuldades de conquistar público, justamente porque as salas comerciais pertencem às grandes distribuidoras. Um bom gestor cultural precisa saber manejar essas variáveis, que são inúmeras e complexas, a ponto de arquitetar novas dinâmicas que invertam a lógica do domínio e o aprisionamento da criação pelo capital.

Atuar na atividade cultural é algo que exige conhecimento genérico e específico, ao mesmo tempo. Saber balancear uma formação humanística ampla e consistente, capaz de apreender e decodificar nuanças, especificidades e contextos, necessários para compreender melhor a teia de relações e interesses onde está inserido, em especial os políticos e econômicos, com o conhecimento técnico, que o habilite e dialogar com todas as instâncias da sociedade.

É preciso buscar meios de destrinchar conceitos ligados ao manejo da questão simbólica e apresentar cenários capazes de representar realidades complexas e diversas, em detrimento das cartilhas de formação técnica e linear.

A atividade cultural exige agentes preparados e dispostos a pensar e atuar com base em novas possibilidades, mais complexas, múltiplas e coerentes com as questões colocadas pela sociedade contemporânea. Capazes de pensar
uma nova agenda política para lidar com os desafios do mundo atual, articular setores governamentais, sociedade e mercado para atuarem alinhados em torno dessa agenda, além de desvendar a cultura como ponto de partida, como
meio de construção dessa agenda e como eixo central dos novos paradigmas de desenvolvimento.

O segredo para sair da linearidade do mercado, talvez esteja no exercício de uma abordagem multidimensional para a atividade cultural. Ao implementar um processo de natureza cultural, o gestor deve estar apto a lidar com inúmeras vertentes que, juntas, conferem ao processo a riqueza necessária para desviar-se dessas armadilhas.

Qualquer atividade cultural, do Cirque du Soleil ao maracatu rural de Pernambuco, é parte integrante deste “conjunto distintivo de atributos materiais, espirituais e afetivos que caracterizam uma sociedade ou grupo” definido pela UNESCO. Cuidar dessa dimensão é essencial para que não perca sentido dentro do próprio contexto social onde foi gerada.

Cuidar da dimensão econômica, por exemplo, já exige um outro olhar, mais voltado para os processos de produção, distribuição, troca, uso ou consumo dos bens simbólicos.Que pode ser complementado com um conjunto de
instrumentos de apropriação desses bens.

Essa dimensão é complementar ao desenvolvimento artístico, à pesquisa de linguagem e à proposta estética que a atividade propõe. Que por sua vez não está desvinculada de valores éticos e morais, tampouco à sua dimensão cidadã. É preciso, sobretudo, entender esse ambiente da economia da cultura como algo em pleno processo de transformação e desenvolvimento.

Um mercado promissor, mas ainda incipiente, o que exige uma intensa articulação entre os membros dessa cadeia produtiva para a conquista de um olhar mais apurado da sociedade em relação à sua importância estratégica.

* trecho do livro O Poder da Cultura.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

25Comentários

  • Tweets that mention PROVOCAÇÂO: Mas o que é a economia senão um fenômeno cultural? -- Topsy.com, 26 de março de 2010 @ 16:02 Reply

    […] This post was mentioned on Twitter by Marie* and Luana Schabib, Cultura e Mercado. Cultura e Mercado said: PROVOCAÇÂO: Mas o que é a economia senão um fenômeno cultural? sss://bit.ly/9liOPJ […]

  • gil lopes, 26 de março de 2010 @ 17:51 Reply

    Desculpe colega mas uma política cultural tem que ter prioridades. Tudo é tudo, a gente sabe, mas tem o que a gente faz e isso deve ter prioridade. Essa história de que agora a gente está incluído na rota internacional é fruto o complexo de capacho tupiniquim e provinciano, o que estamos assistindo e uma festa globalizada no nosso terreiro e a gente só entra pagando o ingresso ou pagando a importação de figurinos, que tal? Vamos ser um pouquinho mais rigorosos. Talvez o sonho paulista de virar Nova York um dia passe e a gente possa olhar de frente para nós mesmos, o Ibira não é Central park. Nossa questão é como vamos responder a hegemonia, de que maneira vamos lidar com ela, regozijar que o mundo é redondo é coisa do tempo de Galileu, convenhamos.

  • gil lopes, 26 de março de 2010 @ 18:04 Reply

    E essa moda Brasil lá fora é xoxa, é mais conversa do que moda. A música não tem meios nem elementos para sua projeção, é objeto de extravagantes, tem reprodução residual. Tem prestígio mas não mais do que isso. Paulo Coelho, bem…Paulo Coelho é Paulo Coelho, não tem nada a ver com nossa Literatura e tem muito pouco a ver com moda Brasil, seus leitores não ditam moda, e mais, receio que já foi, passou. Nosso futebol tem prestígio, moda? Nunca…é preciso ter mais cuidado nessas coisas, ficam repetindo uma coisa que francamente…não corresponde. O que tem empolgado o mundo vindo do Brasil é o Lula! Ponto. É o crescimento e a situação econômica, é a percepção do gigante e sua capacidade econômica…isso sim. Do ponto de vista cultural estamos na idade da pedra, não temos projeto para a Nova Cultura e estamos solapados pela presença estrangeira. Ponto….oi skindô, oi skindô.

  • gil lopes, 27 de março de 2010 @ 0:40 Reply

    Irritando os nacionais. Braço do Grupo Tom Brasil, o Instituto Brasilis foi autorizado pelo Ministério da Cultura a captar recursos incentivados para patrocinar a vinda de bandas e cantores internacionais. Nomes como Chuck Berry, Madeleine Peyroux e Jon Secada, que passarão neste ano por Vivo Rio e HSBC Basil, casas pertencentes ao grupo, serão utilizados para obter recursos com investidores. Ao todo, a instituição poderá levantar até R$ 5,3 milhões. A receita de bilheteria prevista com as 26 apresentações previstas é de R$ 374 mi…será?

  • Leonardo Brant, 27 de março de 2010 @ 12:26 Reply

    Caro Gil, não é bem verdade. Até mesmo impulsionado pelos fenômenos Com Lula e, pq não, Gilberto Gil, o país está sim inserido na cena contemporânea cultural mundial. A música, as artes, os modos de vida, a diversidade e a economia brasileira estão em voga. Mas é mais do que isso. O mercado cultural brasileiro está em alta. O ingresso da Madona aqui é o mais caro do mundo. O país está na rota dos megaeventos, de primeira à última linha, do supremo ao café requentado, como o Guns’n Roses e o Aha! A Time For Fun, empresa de entretenimento tupiniquim, está entre as 10 maiores empresas do mundo no setor. Temos uma Broadway de altos e baixos. Estamos, sim, alimentando o nosso sonho novaiorquino.

    Isso não quer dizer que eu concorde com isso, que considere o máximo, que esteja comemorando. Mas que existe, existe. É só sair do país para ver. E eu tenho saído um bocado nos últimos anos.

    Abs, LB

  • Alexandre Lambert, 27 de março de 2010 @ 15:12 Reply

    Olhe, Brant e Gil, não discordo de nenhum dos dois, apesar de alguns pontos de vista diferenciados os dois tem razão em tudo. A área cultural com a sua nova visão de economia da cultura ainda não oficializada pelo IBGE, que pela enorme diversidade e capilaridade dessa economia, o referido órgão ainda não conseguiu fechar as contas, é no mínimo o dobro da parte do PIB produzido pela indústria automobilística, mas a maior parte é produzida pelo audiovisual, o resto da cultura são zeros vírgula alguma coisa que somados ao audiovisual chegam a esse número fantástico ainda não definido.
    Quanto a prioridades o atual Governo foi exatamente contra esse desejo provinciano de querer fazer da São Paulo uma “Nova Iorque”, foi linha desde Gil a interiorização da cultura, uma visão voltada para as manifestações culturais populares, o que tem gerado algumas distorções como a submissão das manifestações aos interesses mercadológicos do turismo cultural, não dá para botar um “tambor-de-crioula” em cima de um palco italiano para gringo ver. É o turismo que tem de se submeter às expressões culturais e não o contrário.
    As tradições culturais populares vivem se renovando endogenamente, mas a mudança exógena deve ser evitada e até reprimida legalmente.

    Na II Conferência Nacional de Cultura, e em suas diversas
    pré-conferências, a presença do interior foi fortíssima, a Amazônia e o Nordeste estavam em peso, não só cobrando o seu espaço, como o conquistando e, principalmente, contribuindo com propostas sérias e profundas, deram um banho no Sudeste, que com algumas exceções, apresentou delegados ligados a grupinhos e panelinhas todos cheios de picuinhas e mesquinharias, eu,carioca,delegado mais votado para representar os artistas visuais fluminenses tive vergonha pela região Sudeste, e confesso que até fiquei nauseado fisicamente com o comportamento de alguns companheiros dessa região.

    Houve uma denúncia que a representação de São Paulo foi descaracterizada e diminuída pela falta de apoio do Governo estadual, é bem possível, pois a cidade do Rio de Janeiro também sofreu esse tipo sabotagem quando da I CNC, pois o prefeito da época não só detesta artista, como sempre se manteve como uma oposição imbecil ao Governo Federal.

    Problemas, eles são muitos, as variantes também são muitas,mas as soluções talvez sejam em um número bem menor, creio que é só ter peito de encarar certos fatos, vendo onde estão os gargalos e os nós,nós desfeitos, gargalos abertos e/ou alargados, o resto o povo e os artistas fazem.
    Alexandre Lambert

  • \valdecy, 27 de março de 2010 @ 15:20 Reply

    Sem dúvida que sempre que seguimos um blog ou somos seguidos, formamos uma verdadeira teia, capaz de ter um alcance quantitativo e qualitativo para matérias formativas e informativas, que mídia alguma consegue ter. POR ISSO PARABÉNS PELO BLOG.

    Doutra feita, CONVIDO VOCÊ, seus seguidores e quem você segue, para lerem matéria sobre o espetáculo SAGRADO E PROFANO, que ocorrerá na cidade de Senador Pompeu, interior do Ceará, no pequeno Distrito de Engenheiro José Lopes. Experiência artística que mobiliza toda a população, que além de encenar a Paixão de Cristo ainda tem os caretas, que há cerca de 70 anos, saem pelas ruas. Experiência artística, social, política, folclórica, econômica….. que merece ser relatada, imitada e, sendo possível, vista e visitada ao vivo. Boa leitura em:

    http://www.valdecyalves.blogspot.com

  • gil lopes, 27 de março de 2010 @ 16:39 Reply

    Gilberto Gil? Música Brasileira, Artes, modos de vida!!!…mas onde é que vc tem andado companheiro? Isso não existe. Fora Lula, nada, somos os caipiras que Fernando falou, somos bons de pagar ingresso, estamos importando que é uma coisa…nossa balança já acusou…mas pior, na área cultural estamos na lona, na lona! Não adianta ficar repetindo um sonho anacrônico que ele não se realiza, é nossa psicose…pura psicose. Estamos na lona, não há o mais remoto vestígio de “moda”brasileira pelo mundo, era só o que faltava…o mundo é protecionista pra começar, pra continuar, o mundo é ocupado pelos americanos, na música, no modo de vida, no cinema, na cultura, em tudo companheiro…que mané moda brasil….de onde saiu isso? Gilberto Gil tadinho, faz sua tournezinha por aí catando os caraminguás, quem fatura é a Madonna, O Guns e o diabo a quatro…e’ só abrir os jornais, daqui e de lá, seja onde for nesse mundo. A nossa caipiragem acha que quando sai uma matéria no Economist isso quer dizer que estamos mandando…francamente…menos, menos, bem menos…enquanto a gente não perceber o fracasso que estamos metido no âmbito cultural a gente não sai do lugar.
    Qual é o nosso projeto para o meio digital? Comprar, comprar, comprar importados…que mais? Onde anda nossa música? Quanto vende? Só compramos. Nosso modo de vida?????Qual?
    Somos o país da Noviça Rebelde…que tal?

  • Leonardo Brant, 27 de março de 2010 @ 17:28 Reply

    É verdade. Estamos na fila, pagando a conta. Mas podemos vender também. E temos vendido, aqui e acolá, de maneira frágil, mas com potencial, como diz o artigo. Aliás, ele traz coisas mais importantes, mas o seu negócio não é debater, é emparedar, xingar, assediar, com seus mil comentários. Isso nós dispensamos, pois temos mais o que fazer. Abs, LB

  • gil lopes, 27 de março de 2010 @ 19:44 Reply

    ok Leo, só valem os seus mil comentários, o dos outros não. E só valem as suas verdades e dicas importantes…lamento.

  • geraldo maia santos, 28 de março de 2010 @ 11:03 Reply

    Pô, está escrito aí “Seja gentil. Jogue Limpo. Fique no assunto. Sem Spam”. E aí, Sr Brant? O Gil Lopes joga limpo, é gentil (não sei como consegue), e está estritamnte no assunto que o SENHOR puxou com seu artigo. Mas eis que bastou ser questondo umpouco e SENHOR age exatamnte igual o qu julga combater. Intolerante, arrogante, excludente, prepotente, autoritário, limitado, e burro, como todo estalinista quese preze. Lamentável, caro Brant, mas, bom ter caídoa máscara e mostrado para qum mesmo foram colocads aí esses avisos. O SENHOR foi muito mimado,é óbvio, a “bola” é sua, e qualquercoiinha o SENHOR leva para casa e ninguém joga mais, tadinho, só que já passou da hora de sair do colo absoluto e vir para a vida real que nem sempre faz todas as suas vontades ou é exatamente como o SENHOR quer. Direito ao contraditório pode lhe contrariar, SENHOR, mas é muito saudável por ser democrático. E se quiser pode censurar também o meu comentário, esse sim, vai justificar a sua prepotência e confirmar a minha impaciência para com esse tipo de comportamento pusilâneme e hipócrita.

    Tenha um dia à altura de sua baixaria.

    Com carnho,

    Geraldo Maia
    Poeta

  • Leonardo Brant, 28 de março de 2010 @ 15:28 Reply

    Gil e Geraldo, vocês têm razão. Fui no mínimo deselegante com o meu comentário. Acabo de trocar e-mails com o Gil onde peço desculpas por isso. Um e-mail carinhoso dele dizendo que vai deixar de participar do site, em decorrência do meu comentário.

    Não quero me justificar, mas quero que todos compreendam o que me levou à reação agressiva. Estou muito contaminado por outras discussões que tem sido desenvolvidas aqui no site. O caso do artigo da Luana sobre Downloads é o maior exemplo disso.

    A intenção é provocar discussões, sim. Não me incomodo de ser contestado e contrariado. Isso é o cotidiano aqui do Cultura e Mercado. Já teria fechado o site se o problema fosse esse. A questão é o modo com que o Gil vem participando, embora muito interessante, provocativo e instigante.

    Sua participação tem provocado reações alérgicas a um público que frequenta e participa das discussões há milênios. Não vejo isso como um problema do Gil Lopes. Nem um problem meu. É um problema nosso, da rede. Isso tudo alterou de maneira drástica o comportamento dos leitores e vem afastando-nos do debate.

    Eu deveria ter me posicionado na discussão sobre o livro do Youtube. Sinto que ali se iniciou uma batalha egóica e sem sentido, um pinga-fogo sobre as ideias feitas a respeito dos direitos autorais e as novas mídias. Mas não fiz, pois acredito na autonomia da rede. Minha interferência aqui é quase nula.

    Mas senti que deveria fazer isso agora, pois não quero ver o trabalho de anos ameaçado. Errei e peço perdão.

    Acho importante voltarmos à discussão. Estou pensando em fazer um post sobre essa questão, que precisa ser tratada de maneira clara e aberta com os leitores e membros da rede.

    Por isso, Geraldo, agradeço muito sua ajuda e intermediação nesse processo.

    E vamos em frente! Abs, LB

  • Joel Gehlen, 28 de março de 2010 @ 21:53 Reply

    Caro Gil, dizer que, fora Lula, não há nada, é a coisa mais estúpida que já ouvi. Aliás, não há nada mais melancólico do que o papel que Lula “desempenha” no cenário internacional. O Brasil, é maior, infinitamente maior que o Lula, apesar de ser ele incomensuravelmente pretensioso. Outra coisa: a dimensão da cultura de uma país no mundo não cabe num borderô.

  • geraldo maia santos, 28 de março de 2010 @ 23:18 Reply

    Bom, bacana a sua tomada de conciência, seu pedido de perdão tem, para mim, uma vibração sincera e, por mim, está perdoado rsrsrsrs, eu milhões de veses pecador, também, não é fácil pedir perdão, reconhecer erros (sem os quais inexiste aprendizado e nós, julgo, somos e estamos aprendizes – eu então, eterno repetente), admitir falhas nesse mundo de “sucesso, excelência e sem valores”, então dácá um abraço e vamos falar pra esse povo aí que amor se faz assim, de discussão, briga, perdão, humildade para reconhecer que errou e para perdoar tb,entendimento, carinho, confusão, provocação, ternura, tudo isso faz parte do processo da arte de conhecer as virtudes e os erros do outro que é o amor, tantas vezes confundido com a troca comercial de afeto, sexo e solidões.

    Valeu, Brant, vc ganhou um amor de graça da minha parte. e vamos esquentar de novo os motores porque o país precisa muito de pensadores, de corpos teóricos construídos a partir da observação e análise da nossa realidade, e não só do que dizem de nós, para nós, via pensamento importado, defasado, obsoleto, “da moda”, e distante de nossa realidade.
    Eu tou nessa!!!
    E só alegria!!!!

    Grato,
    parabéns,
    abraço,
    carinho,
    Geraldo

  • geraldo maia santos, 29 de março de 2010 @ 11:12 Reply

    CULTURA É DIREITO E CIDADANIA

    O consumidor e o criador de cultura têm direito à garantia de proteção da
    sua vida, isto é, da sua saúde e segurança. Além disso tem direito também de
    acesso a todo tipo de informação sobre os produtos e serviços culturais
    oferecidos para que possa melhor se orientar no momento de escolher assim
    como no de criar.
    Outro direito importante é o que assegura aos criadores de
    um bem ou serviço cultural (filme, escultura, feira, cardápio, desfile,
    oficina, poema, livro, etc) vários tipos de financiamento que efetivamente
    viabilizem a execução adequada e ampla distribuição. Quando um produto ou
    serviço cultural, mesmo sendo utilizado corretamente do ponto de vista
    material e operacional, causa algum tipo de dano à saúde e/ou segurança
    mental, emocional, espiritual e física, temos caracterizado um tipo de
    “acidente cultural”, bastante comum, mas ainda sem mecanismos de prevenção e
    reparação individual e coletiva.
    Acidentes culturais, portanto, podem acontecer individual e coletivamente. O
    escritor que não consegue que a editora pague os seus direitos autorais
    devidamente de acordo com o número de livros realmente editados, o músico
    que é plagiado e não teve o cuidado de registrar sua obra, o cineasta que
    tem seu filme censurado porque critica determinada personalidade pública
    poderosa, o artesão que tem seu trabalho tomado pela fiscalização da
    propina, o poeta que é preso por recitar versos de protesto ou considerados
    obscenos (poesia fescenina), o livro escrito por um suposto religioso que
    demoniza (apesar de proibido já danificou muitos corações, mentes e almas)
    as religiões de matriz africana, são exemplos de acidentes culturais
    individuais que ainda não gozam da proteção da lei.
    O grupo de teatro que recebe verbas públicas para encenar só aquilo que
    interessa ao grupo político que o sustenta, a banda de música que é
    vultosamente patrocinada para tocar canções pornofônicas e/ou anestésicas
    contribuindo para a idiotização, emburrecimento e alienação da juventude, o
    festival de arte que não encontra financiamento porque trata da arte
    indígena e africana, a feira de artes que é proibida porque nasceu da
    iniciativa dos artistas e não dos poderes públicos, e que por isso mesmo não
    é contemplada com nenhum tipo de recursos, a exposição de arte experimental
    ou de contestação que é ignorada pela mídia e desprezada pelos órgãos de
    cultura, são exemplos de acidentes culturais coletivos.
    A noção de “acidente cultural” não está contemplada no código de defesa do
    consumidor nem nas leis de patrocínio à cultura, editais, fundos de cultura
    e demais tipos de financiamento. Não existem também as conseqüências de
    âmbito jurídico. Quer dizer, os danos causados por esses acidentes culturais
    não dão direito a nenhuma forma de ressarcimento ou cobertura legal. Nenhum
    tipo de indenização é possível para essa espécie de dano. Todo o processo de
    frustração, estresse, violência, humilhação, depressão, causados por
    acidentes culturais os mais diversos ainda não encontram amparo na atual
    legislação.
    Não existe ainda uma espécie de código de defesa do consumidor e do produtor
    cultural. A grande maioria dos consumidores de cultura, artistas, e demais
    criadores culturais não conhecem os seus direitos no que diz respeito ao
    acidente cultural. Ainda não existe jurisprudência formada com relação ao
    assunto nem nada capaz de gerar ferramentas de controle social desse tipo de
    acidente que ocorre comumente com a maioria dos produtos e serviços
    culturais oferecidos hoje em dia em qualquer parte. Não há, portanto,
    registro de ocorrências ou coisa que o valha. Muito menos o que obrigue que
    tal aconteça.
    Essa carência impossibilita que se possa realizar uma ação preventiva
    dirigida à educação e adequação de produtos e serviços culturais às
    necessidades reais do cidadão. O que resultaria numa mudança significativa
    das condições de consumo e produção dos bens e serviços culturais com
    reflexo direto no panorama atual de lesão mental, emocional, física,
    espiritual e social de cada pessoa.
    Porque quando ocorre algum tipo de acidente cultural o cidadão é o maior
    lesionado porque a cultura não é apenas uma, mas toda e qualquer forma de
    expressão individual e coletiva que deve ser ampliada, aprofundada e
    oferecida às sucessivas gerações através da educação, principalmente, dos
    meios de comunicação responsáveis e pelos diversos equipamentos de difusão
    cultural (bibliotecas, casas de cultura, museus, etc).
    Os acidentes culturais ao causarem danos à saúde e segurança do consumidor e
    do produtor tem como conseqüência imediata e mais grave a redução da
    capacidade de discernimento, de senso crítico, de sensibilidade, de
    criatividade, de iniciativa e decisão, de auto estima, de autonomia, de
    independência, de vitalidade, de transformação, de autodeterminação do
    indivíduo (cidadão) e coletivo (sociedade) com reflexos diretos na
    capacidade de evolução existencial e produção auto sustentada.
    Outra conseqüência grave é a desvalorização e marginalização da cultura ante
    as outras possibilidades de criação humana levando à própria desvalorização
    e marginalização da cidadania. O cidadão é reduzido a consumidor alienado e
    /ou produtor prostituído o que gera custos altíssimos para o poder público e
    a iniciativa privada levados a investir em peso no processo de manutenção e
    ampliação desse processo de degradação humana através da atividade cultural
    de caráter anestésico e antivida.
    Exemplos não faltam. Falhas de informação quanto ao uso correto do produto
    e/ou serviço cultural, falta de adequação às necessidades reais intrínsecas
    do cidadão, defeitos de criação e expressão, serviços inadequados,
    obsoletos, defasados, distantes da realidade, tudo isso é capaz de gerar
    acidentes culturais gravíssimos como os que estamos acostumados a assistir
    na Bahia e no Brasil e que causaram um atraso de mais de cinco décadas no
    processo evolutivo da população.
    É preciso então fazer valer os direitos do cidadão com relação à cultura,
    principalmente no que se refere ao consumo e produção. E isso pode ser
    alcançado através de políticas públicas eficazes que realmente contemplem o
    direito e o dever do cidadão de consumir e produzir cultura a todo instante
    como ferramenta principal de informação, conhecimento e obtenção do saber,
    tanto científico como de senso comum, não existindo, nesse particular,
    nenhuma separação ou privilégio ou valorização de um deles em detrimento do
    outro. Cultura portanto é um direito e um dever de todos porque é a mais
    simples e ampla expressão de cidadania.

    Geraldo Maia

  • Dayse Cunha, 29 de março de 2010 @ 18:02 Reply

    Se o sonho paulista é virar Nova York, sinal de que sonha alto e a maneira como o Brant coloca a questão é de uma gestão inteligente e em sintonia com a realidade econômica globalizada na qual irreversivelmente o Brasil se insere. Virar Nova York é o máximo e rompermos a hegemonia cultural que Nova York impõe ao mundo e a nós mesmos é que é a meta, e essa meta só pode ser atingida se estivermos com nossa identidade cultural plena e fortalecida: do contemporâneo a Arte Digital, do erudito ao “caipira”,do clássico ao Cordel, da Ópera ao Carnaval, do hip-hop de periferias ao jazz…
    Enfim, penso ter sido essa a proposta de reflexão do texto.
    Agora, quanto ao complexo de “CAIPIRA” incutido em alguns, após a equivocada fala de Fernando Henrique, só demonstra da parte do Ex, seu total desconhecimento e ignorância quanto a Cultura do país que teve glória de vê-lo defenestrado para a terra do Nunca Mais.

  • Leonardo Brant, 29 de março de 2010 @ 19:03 Reply

    Pois é, o Brasil tem mercado. Tem classe C e D. Tem consumidores de cultura. Não quero discutir qual cultura, e concordo com o Gil que temos para espaço para os enlatados do que para os nacionais. Mas isso não nos impede de criar a disputar esse mercado. Mas precisamos ter um sistema de regulação mais inteligente para esse nosso mercado. Hoje ele quer punir os produtores independentes e autônomos, mas abre as pernas para as majors norte-americanas.

    Por outro lado, acho difícil reafirmarmos a nossa identidade cultural (aliás, nem sei se isso é possível ou desejável no século XXI) pela via do mercado. Mas a nossa história recente mostra que isso é possível. O mangue-beat e a Tropicália reforçam essa tese.

    Vamos debatendo, que o assunto merece reflexão.

    Abs, LB

  • wposnik, 30 de março de 2010 @ 16:53 Reply

    Por gentileza ! Não me mandem mais isto. Já mandei umas 20 vezes, a opção de cancelamento, quando ela existia. Recentemente, só se pode cadastrar – não mais descadastrar ! Não me interessa mais o estilo editorial de vocês. Como eu disse, num ante-penúltimo comentário: o vosso bordão ‘democracia se faz com arte’, tem a recíproca. Que vocês em verdade, não praticam. Após a não publicação de um comentário meu, isto é, a censura de uma manifestação contrária a ‘mainstream’, adeus muchachos ! Como eu também disse no comentário mencionado, o espaço devia se chamar ‘Mercado e Cultura’. Faria mais sentido à vossa linha editorial. Da qual, positivamente, eu discordo. Portanto, se não vos interessa meus comentários, também não são do meu mínimo interesse as suas proposições de discussão. Nestas condições, poupem-me de deletar essa coisa, toda vez que vocês a remetem. Para mim, isto está parecendo as ‘assinaturas’ dos nossos jornalões e revistas panfletárias semanais, que mesmo quando se cancela a assinatura, continuamos recebendo. Para enganar o IVC.

  • Leonardo Brant, 30 de março de 2010 @ 17:27 Reply

    Posnik, seu comentário não veio por alguma falha de sistema, não por censura. Fique à vontade para massacrar o Cultura e Mercado. Nós aguentamos firme. Discorde, mas continue enviando seus comentários. Minha visão não é a visão do site. O site é composto de uma rede de pessoas com visões e opiniões sobrepostas, divergentes e, às vezes coincidentes, convergentes. Nosso boletim tem um sistema de desistência de assinatura. Vou descadastrá-lo na unha, mas esperamos muito tê-lo de volta.

    Há muito tempo acompanho seus comentários, que são muito pertinentes e bem colocados, mesmo quando contrários.

    Abs, LB

  • luciano, 31 de março de 2010 @ 2:51 Reply

    o abba era sueco. o a-ha da noruega. o schwarzenegger é governador da california. a carmem miranda fez sucesso nos states. o rodrigo santoro fez lost. feelings é a musica brasileira (feita por um brasileiro) q mais vendeu no mundo. o sinatra “ajudou” garota de ipanema. é importante a grana pra arte? van gogh é arte ou grana? o q é arte-arte e o q é arte-comercial?

  • Esmeraldo Ramos Neto, 2 de abril de 2010 @ 0:42 Reply

    Caro Leonardo.
    Estando no Facebook, li um comentário sobre um trecho do seu livro e resolvi conferir. Vou compra-lo com certeza.
    Gostei do “embate” entre voce e o Gil Lopes, muito bom e produtivo, principalmente para quem souber filtrar o “ouro”.
    Excelente o comentário inteligente do Alexandre Lambert; a interferência corajosa do Geraldo Maia; discordando do “americanismo” da Dayse Cunha. Por que não Paris, Madri, Amsterdam, Frankfurt, Londres,…minha cara Dayse?! Será que o “bom da cultura” só está em Nova York? Ou isso ainda é fruto do “Marketing Consumista”, ou “Capitalista” para os que preferem, que nos foi empurrado pela “guéla” a partir dos anos 70?!. Apreciei a franqueza do Wposnik, embora, um pouco vaidosa. Deixa eu me apresentar: sou Publicitário, consultor e instrutor de Marketing, Comunicação e Vendas (brasileiros é claro), Escritor e Produtor Cultural.
    Sem, necessariamente, nacionalismo exacerbado.
    Obrigado.
    Esmeraldo Ramos Neto.

  • Luiz Nicolau, 7 de abril de 2010 @ 20:29 Reply

    olá Leonardo, entrei apenas hoje aqui em seu site e acabei por presenciar esse acalourada discussão… sou musico e ator ha 27 anos e moro no Rio de Janeiro, mas sou nascido e criado em Brasília, pois em meu trabalho, ou eu seria um burocrata da arte (leia-se artista frustado) ou enfrentaria as dificuldades de se ser um artista (sem padrinho) no Brasil. Pefreri enfrentar. Hoje tenho 3 filhos, ainda moro no Rio e sobrevivo cantando em musicais patrocinados por Leis de Incentivo, faço TV, Radio e Cinema e estou desenvolvendo um projeto meu de musica. Neste momento abri uma empresa para me inscrever como proponete na Lei Rouanet e do ICMS na tentativa de produzir um CD homenageando um grande compositor brasileiro. Vejo que as dificuldades para um artista de se enquadrar neste mercado cultural são muitas. Preciso adequar minha cração à um entendimento das regras de um Edital de Cultura. Vejo que é muito complicado ja que não sou, nem tenho a pretensão de ser produtor abrindo mão da minha experiência como artita, por isso peço ajuda aos UNIVERSITÁRIOS (parafraseando Silvio Santos, rs).
    APenas quero com isso dizer que esse tal GIL LOPES é um recalcado idiota, que não entende a mínima do que é produzir algo artistico e cultural nesse país… é muito fácil xingar e lamentar… vai fazer algo importante pelo país, tire a bunda dessa cadeira e ajude quem precisa. O Leonardo faz um papel importantíssimo contribuindo democraticamente com as questões culturais em seu site e vem um panaca qqr tentar esculhambar… vá babar o ovo do Lula em outro site meu camarada!! Diz ai alguma coisa produtiva que vc anda fazendo pelo seu país!! O musico brasileiro sempre foi moda no mundo todo e hoje em dia é um dos mais respeitados pelo sua arte e não pelas bundas das dançarinas de Axé Music com vc deve pensar. Só pra te lembrar: Temos Pixinguinha, Moacir Santos, Hermeto Pacoal, Egberto Gismonte, Nana Vasconcelos, Villa Lobos, Carlos Gomes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Carlinhos Brown, Marisa Monte, Dorival Caymi, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Carmem Miranda, Braguinha, Tom Jobim e, me perdoe se esqueci de alguém, mas a musica brasileira sempre foi moda no mundo inteiro e se não dá dinheiro é porque pessoas como você não dão o real valor.
    Obrigado pelo espaço!
    L.Nicolau

  • Luiz Nicolau, 7 de abril de 2010 @ 20:40 Reply

    me esqueci do Chico Science que revolucionou a nossa cultura musical com o movimento Mangue-Beat.

    valeu!
    L.Nicolau

  • Marcelo, 5 de maio de 2010 @ 15:19 Reply

    Lembrando que a Time for Fun, na verdade, é mexicana.

  • Sérgio M. Cruz, 14 de dezembro de 2010 @ 14:21 Reply

    Hoje, ao ler matéria na imprensa da Web sobre o resultado do Edital Natura 2010 (para 2011), me ocorreu a idéia de que seria bastante proveitoso um esforço mútuo para desenhar a árvore genealógica, aliás, árvore esquematológica (ou coisa do gênero) das comissões de seleções de projetos culturais dos principais editais do país, me parece que nos depararíamos com um circulo muito restrito de pessoas…

    att

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *