O barco do presidente da Funarte afundou. Recebeu denúncia dos funcionários da instituição e foi acusado hoje, pelo jornal O Globo, de favorecer sua companhia de teatro, com aprovação privilegiada e captação de patrocínio da Petrobras. A questão reabre a discussão sobre a função política da Funarte.

Em abril de 2007, André Martinez propôs o seguinte fórum para discutir a instituição. Sua publicação neste espaço é pertinente, mesmo um ano e meio depois, considerando que a Funarte continua no mesmo lugar onde estava, talvez mais enfraquecida com a gestão Frateschi:

“No caso da Funarte, os avanços promovidos durante o governo Lula eram urgentes e imprescindíveis para uma instituição que chegara à beira da sucata. Foco nas demandas de produtores e públicos, regulamentação das oportunidades, descentralização e ampliação de orçamentos. A Funarte incorporou o discurso da Política Gil e azeitou as máquinas para um salto que talvez possa dar agora, quando a experiência do Cultura Viva já enriquece substancialmente a inteligência política do MinC.

Uma Funarte ainda melhor precisaria estar preparada para flexibilizar a idéia política de arte, abarcando todas as suas possibilidades. Ver a arte exclusivamente sob o prisma dos modos de relação entre técnica e linguagem – plástica, música, teatro, dança – tende a uma política com foco nos aspectos econômicos equivalentes e na setorialização. Essa é uma medida compreensível enquanto as fontes criativas ainda contam apenas com a lei do mercado para sobreviver. Entretanto, a estruturação setorial das políticas e economias para as artes, além de cega para o impacto devastador das tecnologias digitais e da tomada das utopias pelo neoliberalismo, não dá conta da realidade de uma sociedade que ainda vive abaixo do limite da garantia integral dos direitos sociais e econômicos, impedida, portanto, de transitar livremente entre os setores artístico-profissionais. Sem uma visão socioeconômica monística, nem mesmo os mais abrangentes sistemas de profissionalização-cidadã serão capazes de consolidar uma economia solidária para a arte. Tampouco os mais profundos programas de formação de platéia serão capazes de forjar um sentido para uma práxis artística que não esteja conectada ao cotidiano.

O Brasil é berço de novos cânones para as artes institucionalizadas. Mas a grande maioria da população é analfabeta em relação ao sentido dessa institucionalização e, dentro do paradigma, portanto, deficiente em produzir ou fruir. Ser brasileiro é a arte de viver e de viver a arte, mas a maior parte da população mal consegue sobreviver.

A Funarte deveria continuar fazendo tudo o que faz e cada vez melhor, mas precisaria começar a pensar mais profundamente em sustentabilidade e diversidade.

Os prêmios são importantes. Os espaços, os projetos de circulação, a documentação, tudo tem valor, tudo é necessário. Mas foram apenas mais uma vaga probabilidade para os 99% que não foram selecionados, que vivem onde não tem Funarte ou onde ela não chega. A Funarte pode e deve atender diretamente a demanda social, tudo deve ser feito para atenuar um pouco o sofrimento do capitalismo, afinal. Mas como geradora, articuladora e executora de políticas publicas, precisa debruçar-se na proposição de um modelo político para as artes, democrático e sustentável, para garantir autonomia econômica e criativa a todo cidadão sem ferir nenhuma liberdade atual ou futura.

A visão e a articulação setoriais são igualmente importantes. Arte precisa de economia e de instituições. Mas é necessário compreender que, além de setores articulados, precisamos de articulação entre setores e da constituição de outras visões políticas que não setoriais. Talvez haja muito mais gente produzindo ou querendo produzir teatro, circo, dança, música, cinema, arte visual, ou qualquer outra perspectiva que pareça não caber nestas categorias. A profissionalização e a “qualidade artística” não devem ser uma obrigatoriedade para o cidadão-artista. Não apenas conseguir que alguns artistas possam trabalhar (ainda que com concorrido e insuficiente financiamento público), mas, muito além, permitir que um espectro infinito de liberdades artísticas e estéticas faça parte de nosso projeto de sociedade, democratizando as idéias, as linguagens e as técnicas.

O Brasil tem sido apontado mundialmente como a nascente do novo. Uma responsabilidade que nos é atribuída por uma comunidade global aflita com sua sobrevivência. O novo é possível aqui porque nosso jeitinho se encarregou de bagunçar o velho, e, como rimos de tudo, vamos resistindo aos primeiros sintomas do colapso da ordem neoliberal. Pura arte. Jogar um xadrez quântico (termo recentemente roubado de Cláudio Prado). Talvez seja o fato de sermos a cultura universal amalgamada (Jorge Mautner dá uma aula magnífica sobre esse assunto). Diversos, sofridos e criativos, transitamos com familiaridade entre todas as culturas e estéticas. E se nossa visão de arte é expandida, precisamos de políticas capazes de permitir a emergência de novas formas de criação ou produção, e de pensar sua sustentabilidade sem pudores ou traumas.

Uma nova Funarte deveria inaugurar a reflexão acerca do sentido e da abrangência de suas ações.

Arrisco-me a contribuir com 10 sugestões:

1) Assumir a sustentabilidade (conceito político) como princípio em todos os programas. Incorporar a crítica aos paradigmas atuais de desenvolvimento econômico, apostando também em modelos alternativos;

2) Utilizar o Cultura Viva como campo de pesquisa para subsidiar a articulação de uma política abrangente e multidimensional de democratização das artes;

3) Compreender os programas já existentes como ambiências dessa política mais abrangente, porém pensando com muita clareza a distinção e a interdependência entre o que é frente de articulação de uma economia para as artes, o que é proteção e ampliação do patrimônio simbólico nacional e o que é ampliação das perspectivas de acesso;

4) Abrir o foco, hoje mais centrado em produtos e serviços culturais, abarcando com mais ênfase o estímulo aos movimentos, processos e efeitos de participação, produção e criação artística;

5) Constituir programas transversais, a exemplo do próprio MinC, que interseccionem as estruturas já existentes e organizadas em modos artísticos, as quais, por sua vez, precisariam ser mais flexibilizadas e/ou diversificadas;

6) Abrir frentes potentes de democratização dos meios de produção e circulação, muito além do domínio da profissionalização;

7) Incorporar um programa avançado de pesquisa acerca do impacto das novas tecnologias e debruçar-se sobre o desenvolvimento de políticas consistentes para a democratização do cyberespaço como ambiente de produção e fruição artística;

8) Assumir a concertação como frente maior de trabalho. Além da manutenção do esforço com as câmaras setoriais, constituir outros mecanismos de participação cívica que abordem a questão das artes sob outros ângulos, buscando pactos não apenas setoriais. Procurar somar todos os segmentos da sociedade na construção e articulação de uma política majoritária para as artes;

9) Propor um movimento cooperativo organizado, envolvendo Terceiro Setor, outras esferas governamentais e iniciativa privada, em que seja possível o alinhamento de premissas e a geração de sinergias;

10) Ampliar a noção de espaços culturais, evoluindo da idéia de centros de atendimento cultural para a de células de participação e concertação, cooperadas por todas as comunidades.”

Como diz o título, está aqui uma boa oportunidade para re-construir a Funarte.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

7Comentários

  • Lther Blisset, 7 de outubro de 2008 @ 6:30 Reply

    demoro…há tempos essa situação era nitidamente percebida, especialmente no sesc de “arte e tecnologia” que caia junto o resto embolorado

  • Leny Bello, 7 de outubro de 2008 @ 6:39 Reply

    Poderíamos esperar uma mudança geral – e igual – nas demais atitudes vergonhosas a que vimos assistindo? Tomara…

    Leny Bello – pianista
    OMB 33.281/RJ

  • Maria Inês, 7 de outubro de 2008 @ 12:46 Reply

    Venceu a hipocrisia.

  • Marcelo Oliveira da Silva, 7 de outubro de 2008 @ 14:02 Reply

    A matéria vende uma coisa no título, mas entrega outra no conteúdo. Nas faculdades de jornalismo isso se chama “contrabando”. Não há qualquer detalhe ou preocupação de ponderar sobre a procedência ou não das acusações feitas ao ex-presidente da Funarte. Não tenho qualquer simpatia ou antipatia pela pessoa em questão, mas me choca a facilidade com que se acusa e denuncia sem a mínima preocupação de fornecer argumentos concretos (que dirá dar ao acusado um espaço para defender-se) na mídia brasileira. Esperava outra coisa da mídia cultural, que seja pelo idealismo de tantos que coexistem numa atividade sabidamente carente de remuneração, mas a julgar pelo artigo este site não é exceção.

    Do jeito que está colocado o assunto no site, parece que há um veredito e uma condenação. E um ex-colaborador posa de exumador do cachorro morto, desfiando o previsível “eu já dizia”. Se isso não fosse suficientemente triste, o que se segue foi decepcionantemente pouco científico. Se as sugestões parecem sensatas, houve antes um festival de platitudes e uma ideologização francamente juvenil do que seja a realidade econômica do setor cultural em um país como o nosso, nascido colônia e lutando com sucesso, mas também com muito trabalho, para consolidar-se num bom patamar de desenvolvimento humano. Digo platitude porque a o caráter decididamente pontificador daqueles argumentos não conhecem segundas hipóteses ou visões. Fica parecendo que basta acabar-se com o liberalismo e outras doenças do capitalismo para que então floresça a fina flor da cultura. Por favor, um pouco mais de luz, um pouco menos de certezas, e decididamente muito mais cuidado com a necessidade de ser justo, com as pessoas e com as idéias.
    Marcelo Oliveira da Silva, jornalista, coordenador de comunicação da Secretaria da Cultura de Porto Alegre

  • Leonardo Brant, 7 de outubro de 2008 @ 15:47 Reply

    Marcelo, muito obrigado pela crítica. O fato é que somos tendenciosos, como todos os outros, porque somos seres humanos. E humanos não são imparciais. Por outro lado, temos consciência de sermos humanos e reconhecemos nossas fragilidades. Por isso é importante deixar o seu comentário registrado, para que o leitor saiba julgar onde há manipulação, onde há verdade. Eu continuo à procura da verdade absoluta, mas por enquanto só conheço a minha verdade. Agora conheço a sua. Elas não são universais, nem pretendem ser. A função de publicá-las é, sobretudo, aprender com a verdade dos outros. E quero continuar aprendendo com as suas. Continue nos observando e apontando nossas imprudências. Elas são fundamentais para atingirmos este objetivo.

    Outro fator que gostaria de ressaltar. Não me sinto jornalista. Sou um blogueiro, um ser humano que tem idéias e quer dialogar. Nada mais. Portanto essa ética jornalística, corporativa, moral e protecionista, não me diz respeito. Busco uma ética universal. Estou longe dela, mas busco incessantemente.

    Sugiro que você caminhe um pouco mais sobre o blog. Aqui temos matérias contra, a favor, da direita, da esquerda, da situação e da oposição. E tem um olhar sobre isso tudo, que pretende articular e dialogar com todos eles. Um olhar que não é absoluto, nem imparcial. Mas posiciona e sobretudo questiona.

  • Zezito de Oliveira, 7 de outubro de 2008 @ 18:49 Reply

    Leonardo,

    O texto do editorial está bom e coloca questões bastantes pertinentes, entretanto se a nova gestão da Funarte se pautar pela linha que você defende e que tem a minha concordância, logo surgirão as criticas porque no fundo os velhos modelos de realizar a gestão da cultura ainda encontra bastante ressonância.
    Sobre a questão da demissão do Presidente da Funarte, é importante ouvir a outra parte. Sugiro uma entrevista com o Frateschi na próxima edição.
    A titulo de colaboração, sem tomar partido na contenda, segue uma noticia que capturei no clipping DUO

    07/10/2008
    Frateschi atribui saída à articulação do MinC
    Correiro Braziliense – Da Redação

    O presidente da Fundação Nacional das Artes (Funarte), Celso Frateschi, pediu ontem, em caráter irrevogável, a exoneração do cargo. O estopim teria sido parecer técnico dado ao projeto de captação de recursos pela Lei Rouanet ao Ágora, grupo de formação do ator e diretor e atualmente gerido pela coreógrafa Sylvia Moreira (mulher de Frateschi) e pelo diretor Roberto Lage. Segundo reportagem do jornal O Globo, o documento foi aprovado em dois meses, tempo considerado recorde, já que, na época (entre outubro e dezembro de 2007), os pedidos de patrocínio estavam tramitando lentamente por conseqüência de recente greve dos servidores da Funarte. “Percebo uma articulação contrária à minha permanência no cargo. Na dinâmica da política, não há coincidências. Há oportunidades. Os chamados agentes políticos, ligados ao poder público ou à sociedade civil, sempre se defrontaram com uma encruzilhada. Ir pelo caminho da ética, da esfera pública ou pelo outro caminho. Neste caso, não há a terceira margem do rio.”

    Numa carta de seis páginas, Celso Frateschi deixa claro que não pediu demissão por conta da matéria de jornal. Ao contrário, aponta um painel de conspiração para a sua saída. “Declino da presidência da Funarte, evidentemente não pela matéria de O Globo, pois na minha longa vida pública, já enfrentei outros processos difamatórios que se mostraram vazios, como esse que está em curso. Saio porque se caracterizou uma articulação espúria que eu não tenho o menor interesse de enfrentar”, avisou.

    A cópia do documento interno da Funarte foi entregue para a redação do jornal. Segundo Frateschi, tanto ele quanto a assessoria da Petrobras enviaram diversos documentos e declarações que demonstravam que outros projetos tiveram a mesma agilidade, por conta da contratação de pareceristas. “Aceitei assumir a presidência da Funarte por acreditar na possibilidade de contribuir na construção de políticas públicas para a área cultural. Não vim para essa missão participar de brigas intestinas, pois acredito que o país espera e precisa de respostas concretas para estimular o nosso desenvolvimento cultural. O movimento articulado de alguns funcionários e de alguns setores do Ministério da Cultura para desestabilizar minha gestão não encontrará nenhuma resistência da minha parte.”

    Frateschi é claro, no documento, quanto à falta de diálogo e sintonia com a atual gestão do Ministério da Cultura. Compara a Funarte à prostituta Geni, “da genial música de Chico Buarque”. Acusa os “dirigentes do MinC” de apartar a Funarte das discussões para a mudança da lei federal de incentivo à cultura, atribuindo que o órgão tinha problemas demais. A quantidade de projetos esperando parecer era uma delas. “Todas as propostas encaminhadas pela Funarte para alterações racionais da legislação, bem avaliadas pelos dirigentes do MinC, provavelmente sucumbiram pela pressão constante do passivo de projetos em análise na instituição”. Ressalta, ainda, a falta de eficiência do MinC em dar conta dos projetos aprovados. “É bom nem lembrar, para que a querida Geni não seja mais apedrejada, que todo esse maravilhoso sistema de financiamento (do MinC) não consegue fechar o circuito, ou seja, avaliar milhares de prestações de contas, ou seja, analisar de que forma o recurso público foi utilizado.”

  • Flavio Silva, 11 de outubro de 2008 @ 16:22 Reply

    Sobre a repulsiva entrevista de Frateschi a L. Brant,, é essencial observar que ele se recusou a dialogar com a direção anterior, antes e depois de sua posse, e com os funcionários da Funarte, o tempo todo. A idéia de bolsas teria sido boa se tivesse sido bem montada, mas é totalmente absurdo atribuir duas bolsas de criação, erudita ou popular, para cada Estado, como se todos eles tivessem a mesma população, a mesma concentração de estabelecimentos especializados de ensino e de difusão. Essa crítica vale, também, para a adulteração do Projeto Pixinguinha, inventada pela malfadada dupla Frateschi/Braz, que obriga os músicos a circular no Estado em que vivem, em vez de abrir-lhes a possibilidade da projeção nacional, como acontecia na versão original.
    No caso das bolsas de música erudita, deixou de ser pedido o documento mais importante: uma partitura do proponente, mais importante, para a avaliação de seu mérito, do que um currículo recheado de diplomas e de. No caso artigos das bolsas de música popular, o resultado final deve ser entregue:
    1) em partitura para no mínimo quatro instrumentos diferentes, ou em melodia cifrada; não é aceita partitura para piano ou para violão. Ora, para a apreciação de uma obra de música popular, a instrumentação não tem a menor importância: cada gravação ou apresentação pública demanda um novo arranjo, instrumental, harmônico e/ou melódico. A partitura para piano ou violão, ou a melodia cifrada são mais do que suficientes para a apreciação;
    2) ou, ainda, em CD. Essa alternativa foi proposta por mim, visando compositores que não sabem escrever música. Como essa especificação não foi informada, são inúmeros os casos de proponentes que acham que a obtenção da bolsa exige uma gravação insrumentada, com arranjo caprichado, quando nada disso é, realmente, importante.
    Não entro em mais detalhes sobre as trapalhadas desses editais para não alongar demasiado esse texto. Mas é essencial repetir que os inacreditáveis atrasos e acumulações de processos visando a Lei Rouanet e esperando apreciação na Funarte deveu-se à brutal centralização operada no Pronac/Funarte por Frateschi e seu acólito.
    O Projeto Pixinguinha era produzido no Rio, e os espetáculos cuidadosamente montados constituiam, por si só, uma mostra de como apresentar um show de música popualr. em todos o território nacional. É mais do que sabido que a seleção dos artistas era feita nacionalmente, mediante seleção de propostas recebidas de todo o país, sem o engodo de ‘cotas’ estaduais. A propósito, vale citar o poemeto irônico de Manuel Bandeira; “O poeta municipalestadual discute com o poeta estadual qual dos dois é capaz de vencer o poeta federal. Enquanto isso, o poeta federal tira ouro do nariz.” Pois o que importa, num concurso do porte do Pixinguinha verdadeiro, é a potencialidade de um músico se nacionalizar, e não o seu regionalismo ou estadualismo que não sai de onde está.
    Quanto ao Projeto Bandas, a entrega direta de recursos às bandas para que elas mesmas comprem instrumentos é um critério altamente duvidoso. Nas edições anteriores desse projeto, a Funarte comprava uma grande quantidade de instrumentos, a preço de atacado e mediante concorrência pública ou Edital, e eles eram enviados, pelo vendedor, às Secretarias Estaduais de Cultura para entrega às bandas de cada Estado, que ocorria em cerimônia com participação de cada Secretário, de representante da Funarte e de representantes das bandas contoempladas; ou seja: cada entrega possibilitava uma troca de contatos entre as bandas, as Secretarias e a Funarte, e isso deixa de existir quando cada banda recebe dinheiro para comprar instrumentos. Na última edição, ocorreu uma novidade: os mais de 2000 instrumentos de diversos tipos, adquiridos pela Funarte na forma referida, foram trazidos para o Rio de Janeiro e periciados, um a um, por instrumentistas categorizados, que fizeram pequenos reparos em pelo menos 20% desses instrumentos, sendo que alguns foram devolvidos ao fabricante para reparos mais substanciais. Foi possível, assim, definir uma série de aperfeiçoamentos que deveriam ser feitos em instrumentos de fabricação nacional. Depois da perícia, os instrumentos foram remetidos às Secretarias Estaduais, para entrega às bandas, na forma acima descrita. É claro que são onerosos, tanto o transporte dos instrumentos para o Rio de Janeiro e depois para os Estados, quanto os pagamentos aos peritos. Mas é duvidoso que as bandas possam comprar, diretamente, mais instrumentos do que os que elas receberiam através da Funarte, pois: elas comprarão no varejo, e não no atacado; as bandas interioranas, de cidades onde não há lojas de instrumentos, terão que se submeter a aceitar o que lhes for enviados por lojistas das capitais de seus Estados ou, mesmo, de outros Estados, e poderão receber instrumentos com defeitos de vários tipos. Acresce que, na nova modalidade, a elaboração dos contratos com as bandas foi confiada à Fundação Athos Bulcão, de Brasília, que cobra uma taxa de 12% sobre o valor do atual Projeto Bandas; antes, era a própria Funarte que realizava os contratos, sem esse gasto substantivo. Enfim, a Funarte fica sem nenhum mecanismo de controle sobre a qualidade dos instrumentos que adquire, de vez que é certo que as bandas, em sua esmagadora maioria, não terão condição de avaliar corretamente essa qualidade; sem esquecer a perda de contato entre bandas, Secretarias Estaduais e Funarte, que era de regra no modelo original.

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