Px Silveira faz a crítica do recente editorial publicado no jornal O Estado de São Paulo sobre a Lei Rouanet: “o jornalão paulista, em sua rota de transatlântico, incorre no erro de comparar bens materiais com bens simbólicos, afirmando, com todas as letras, que se os incentivos franqueados à cultura fossem propiciados às outras áreas, como a saúde e a engenharia, por exemplo, teríamos o hospital de um particular construído pelo dinheiro público, a estrada de uso particular construída pela dinheiro público, e assim por diante, não ficando ninguém para pagar os impostos”

Um editorial do Estadão soa como o próprio nome faz sugerir: aumentativo! Mesmo se as verdades que dele emanam sejam miúdas e inversamente proporcional ao tom solene e absolutista em que são proferidas.

Esse parece ser o caso, diria, do editorial sobre o incentivo à cultura, a lei rouanet e outras apontadas como necessárias pelo setor. Ao ressoar a voz de um único ponto de vista, no caso o do empresário Y. Sarcovas, o jornalão paulista, em sua rota de transatlântico, incorre no erro de comparar bens materiais com bens simbólicos, afirmando, com todas as letras, que se os incentivos franqueados à cultura fossem propiciados às outras áreas, como a saúde e a engenharia, por exemplo, teríamos o hospital de um particular construído pelo dinheiro público, a estrada de uso particular construída pela dinheiro público, e assim por diante, não ficando ninguém para pagar os impostos.

Esse raciocínio é linear e de uma simplificação surpreendente para um jornal como o Estadão, que assim ignora que a lei de incentivo à cultura beneficia o investimento na construção de bens simbólicos. Estes, ao contrário dos hospitais, das estradas, das escolas, o estado não consegue produzir, portanto tem que achar meios de fomentar a sua produção.

Outra verdade que fica oculta na sombra do “ão” é que as empresas, os produtores, os artistas e os fornecedores das atividades culturais em geral, incentivadas pela lei, descontam e pagam todos os tipos de impostos, que são vários, gerando com isso mais riquezas que retornam ao caixa do governo.

Também sou daqueles que acham que temos que mudar parâmetros e evoluir na área do incentivo à cultura, mas essa postura, por vezes e por diferentes protagonistas, parece ser apenas dissimulação. No que se refere à lei Rouanet, é patente que temos hoje um novo contexto cultural que ela própria ajudou a formatar. Sendo assim, diante de seus primeiros resultados, ela agora tem que evoluir e se adequar.

Mas não precisamos partir do zero e negar o muito que nela existe de positivo, demonizando um instrumento pioneiro de fomento à cultura brasileira, que tantos resultados tem apresentado em sua quase duas décadas de existência.

Há o caso da França, por exemplo, em que o orçamento anual concedido ao incentivo fiscal da cultura não pode ultrapassar 20% do orçamento de seu respectivo ministério. No caso do Brasil, seria positivo observar também certo limite, mas seria este nosso ministério capaz de ter um orçamento 80% maior que o limite de captação outorgado à lei Rouanet, que no ano passado ficou na casa do R$1,2 bilhão?
Para quem não sabe, o orçamento do Ministério da Cultura, para o mesmo período, foi algo em torno de R$ 405 mi, sequer a metade. Enquanto essa relação (desigual) de orçamento (minguado) durar, ainda será a lei Rouanet e, por extensão, os 1.500 empresários, em média, que a usam anualmente, quem darão as cartas na definição da maioria dos projetos culturais no nosso país. Nada mais democrático, poderíamos dizer.

O que não se pode é nivelar por baixo e pretender reduzir o orçamento da lei ou mesmo extingui-la, só porque a máquina não consegue acompanhar seu desenvolvimento. Afinal, era isso que queríamos o tempo todo de sua existência: atrair a atenção do mercado e fazer da cultura uma boa relação de custo benefício para as empresas, sem falsos pudores.
Se é só a lei que funciona (bem ou mal) no investimento à cultura, é sinal que alguma coisa está errada. Embora caldo do mesmo tacho, não procurem o erro onde as ações estão borbulhando. Mais fácil achar no lado apático e administrativamente lento, frio e demasiadamente pesado, que é representado pelo governo cultural.

Debater é muito bom. Mas exige-se transparência de intenções e clareza de idéias. E sobretudo, para realmente pensar “ão”, deve-se aproveitar os avanços que nos trouxeram até aqui, para que possamos somar e avançar para outros contextos almejados.

Px Silveira


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Executivo do Instituto ArteCidadania e Coordenador do Porto das Artes, em Goiânia, é autor dos filmes “Nove minutos de eternidade”, “Bernardo Élis Fleury de Campos Curado, escritor” e “Amianto, I lobby you”, entre outros.

1Comentário

  • Carlos Henrique Machado, 8 de maio de 2008 @ 11:29 Reply

    Uma coisa, PX Silveira, que tem que ser levada em conta, é a questão mais importante, que é: nesses anos todos, a Lei Rouanet tem de fato a adesão dos artistas brasileiros? Sabemos que não tem, principalmente dos independentes. Mais ainda, quantos, efetivamente, sabem da existência da lei? Por isso, a classificação de Geni que Brant fez, não cabe neste caso, pois como vamos apedrejar algo que nem sabemos que existe. porque a lei, além de tudo, percentualmente, é inexistente diante da demanda das várias formas de expressão cultural no Brasil. Acho que a discussão tem que estar carregada de um senso comum, pois trata-se de uma lei, de uma questão pública, de interesse do país, não de classe A ou B. O melhor caminho para discutirmos a lei, é termos a coragem de trazer à luz as suas deformidades e acertos e tentar um aprimoramento. A discussão, como num cabo de guerra, levará sempre, possíveis aliados à lógicas completamente antagônicas. Por quê? Porque se uma lei dessa se mantém por obra de um discurso momentâneo, na prática, continuará sendo apedrejada, pior, pela própria maioria da classe artística que tem conhecimento dela. Veja bem, estamos assistindo a uma adesão quase que total da grande mídia no linchamento do governo Lula, desde o primeiro dia do seu mandato, tanto no primeiro quanto no segundo. Cria-se um clima de escândalo e parece que toda aquela grita reflete o sentimento da sociedade. Aí, os números reais aparecem, Lula se reelege e vai ficando cada vez mais forte, ou seja, os escândalos não representam o pensamento da maioria do povo brasileiro. Está aí, PX, a grande questão do erro estratégico da nossa ilustre oposição. A Lei Rouanet tem problemas graves, e isso tem que ser admitido logo. A questão é, como torná-la mais digestiva, democrática, fluida e, principalmente, REPRESENTATIVA! Todas essas questões que você coloca, passam quilômetros de distância da realidade do cotidiano de um artista e a lei. Ele mesmo, o artista, é o primeiro a apedrejar a lei. Como não se faz revolução sem o povo, sem a adesão do artista, a lei, mais cedo ou mais tarde, irá para a degola. Acho que a discussão tem que se ampliar, e muito. A briga é da lei com ela própria.

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