O futuro da indústria fonográfica é tema de pesquisa e debate, de uma forma mais “calamitosa”, desde o surgimento do Napster e o compartilhamento peer-to-peer. Dali pra cá, foram inúmeras reportagens, artigos, teses e discussões para tentar entender e remediar uma situação que só tendeu a crescer do início de 2001 até os dias atuais: uma clara redução nas vendas de discos.

Tanta discussão, no entanto, não vislumbrou nenhuma saída definitiva para os donos de gravadoras e para o seu faturamento, mas facilitou de certa forma o contato direto do artista com o público e deu a chance para que esta indústria repensasse seu papel e encontrasse novas maneiras de fazer negócio.

Nos últimos 10 anos, a situação apertou para as majors. Algumas fecharam as portas – caso da Abril Music – , outras se uniram para ganhar força, como fizeram a Universal e a Polygram, a Sony e a BMG.

De acordos com dados da APCM (Associação Antipirataria Cinema e Música), só no Brasil, 65% do mercado fonográfico foi absorvido pela pirataria, causando a perda de mais de 80 mil empregos formais e uma queda de mais de 50% no faturamento do setor.

A maior vilã desse cenário é a rede e a possibilidade do compartilhamento, que criaram a cultura da difusão gratuita. Mas é claro que há quem pense diferente.

O pop sem emprego

A liberdade proporcionada possibilitou o surgimento de projetos como a MPD. Essa é a sigla para Música Pop Desempregada, nome sugestivo e auto-explicativo que reúne vários artistas independentes em Portugal. Artista que não têm lá muito interesse e esperança no aspecto lucrativo de um projeto musical.

A MPD foi criada no início de 2010, fruto da criatividade de Hugo Gomes e Emanuel Botelho – músicos também conhecidos pela alcunha de “Os Yeah!” -, que na época quiseram criar um projeto marginal ao mercado.  “Os músicos amadores estão quase completamente excluídos da indústria discográfica. Mas a MPD também não se pretende incluir nela”, esclarece Botelho.

A MPD se tornou uma netlabel, ou uma gravadora virtual, que deixa todo o processo a critério dos músicos, auxiliando quando são requisitados e reunindo em uma plataforma todos os trabalhos feitos. O selo pode cuidar desde a arte da capa até a assistência na edição do disco. Tudo de maneira colaborativa, de acordo com a vontade do artista. “Conversamos com os músicos acerca das opções estéticas quando estes nos pedem a opinião, estamos disponíveis para criar as capas do trabalho, se o músico não quiser ter essa responsabilidade, e até já ajudamos na masterização de alguns temas a pedido dos artistas”, explica o co-fundador da MPD. Hoje, o portfólio da netlabel conta com 34 EPs, das mais variadas acepções.

A internet é a plataforma utilizada para divulgar e armazenar seus discos, e segundo Botelho, ela também contribuiu para diminuir um pouco a ganância das majors, que promoveram a estagnação e a replicação de fórmulas estéticas gastas e aborrecidas, principalmente durante a década de 90, época de ouro da vendagem de discos. A pirataria ajudou a democratizar o cenário ao dar voz às pequenas gravadoras.

Pensando alternativas

Para reverter essa situação, a indústria tem feito tentativas de acerto e erro. Foi na busca por esse novo modelo de negócios que surgiu a Phonobase Music Services. Criada em 2007 pelo empresário Juliano Polimeno, a empresa surgiu em meio às tentativas furadas do mercado de voltar a lucrar como na década passada. Formado em Ciências Sociais pela PUC de São Paulo e com uma banda amadora no currículo, Polimeno passou um semestre estudando o mercado e pensando maneiras de criar uma solução que beneficiasse público e artista.

A lógica da Phonobase é um tanto quanto contrária à das gravadoras convencionais. Para começar, a alcunha de gravadora não reflete todas as atribuições da empresa. Além do processo relativo à produção de discos, a Phonobase também é responsável pelos trâmites que envolvem os direitos autorais das composições, do marketing específico do artista e do agendamento e da produção de apresentações, ou seja, a companhia cuida de todo processo necessário para um artista se inserir no meio artístico.

“Não acredito na ideia de que o artista tenha que cuidar de tudo”, declara Polimeno.  Seguindo essa lógica, a companhia vê no artista um parceiro e não um contratado, como o CEO da Phonobase faz questão de esclarecer. Isso significa que é o artista que escolhe trabalhar com a empresa.

Atualmente, quatro artistas fazem parte da carteira da Phonobase: Cérebro Eletrônico, Luísa Maita, Fábio Góes e Passo Torto. Todos eles utilizam os serviços da companhia, que também atua na área de marketing digital e como consultora.

Sobre uma solução para essa derrocada da indústria, Polimeno afirma que “é necessário que o público volte a pagar pela música”. Na era do compartilhamento gratuito, essa é uma decisão polêmica, mas que Polimeno defende sem medo. “Público e artistas adotaram a ideia de cobrar pela música é uma coisa ruim, mas é necessário dinheiro para fazer o lançamento de um artista, sustentar a estrutura de um show”.

De fato, é quase impossível para uma artista sozinho se lançar e conseguir administrar todas as fases de uma produção. Como um artista se sustenta  se sua arte não lucra? Isto é o que Polimeno defende. O artista afinal não é um fornecedor gratuito do público.

De acordo com ele, a grande dificuldade hoje é a falta de um sistema eficiente de cobrança de downloads. “Deveria existir algo no sentido de incluir o preço na contas de internet ou de celular”, afirma.

Para ele, outro sistema que necessita de mudança é a Lei de Incentivo à Cultura, que atualmente privilegia projetos e não a infraestrutura do setor. “Esse dinheiro deveria ser investido em casas de shows, em equipar teatros, não para artistas aumentarem o seu lucro líquido, que é o que acontece”, explica.

Atualmente, a equipe da Phonobase conta com quatro pessoas, cada uma cuida de uma das áreas do core business da empresa. Outros serviços, como a área jurídica, são terceirizados. “O projeto ganha o bastante para conseguir se sustentar”, afirma o CEO. O que, em tempos de pirataria e trocas gratuitas, já pode ser considerado um caso de sucesso.

 


author

Jornalista, foi repórter do Cultura e Mercado de 2011 a 2013. Atualmente é assessor de comunicação da SPCine.

1Comentário

  • Gil Lopes, 17 de dezembro de 2011 @ 15:03 Reply

    Para além da intenção de entender o que se passa deve haver um pouco mais de rigor e profundidade nas análises. Não dá pra insistir na tese de descobrimentos inesperados, de genialidades interferindo no processo de produção, circulação e distribuição de riquezas que envolvem tanta gente, tanto dinheiro e o modo de vida das nossas sociedades. É muita ingenuidade intelectual insistir em superficialidades. A indústria da música no mundo fez a opção pelo digital, isso hoje é claro, e se preparou para isso. A nova ordem estabelecida pelo avanço tecnológico, que é resultado de INVESTIMENTO, de uma vez por todas, tratou de finalizar o meio anacrônico abandonado. A pirataria teve um papel, e ainda tem, o de impossibilitar qualquer recaída no modo de produção vencido.
    A indústria da música simplesmente não investiu mais nada, nem um centavo, no velho meio concentrando toda sua força e capacidade de resistência no estabelecimento da Nova Ordem. Paralelamente observamos um avanço colossal na presença da música anglo americana nos mercados de shows e apresentações ao vivo em todo mundo, derrubando as hegemonias locais. A única música com investimento e geração de riqueza suficiente para continuar investindo ocupou em toda parte o mercado de shows.
    Gradativamente a Nova Ordem vai se impondo legalmente e as legislações são revistas e adaptadas para dar sustentação ao mercado digital, único meio de circulação e produção de riqueza para a música contemporânea. Os impecílios e ideologias contrárias são vencidos sistematicamente.
    Não houve aproximação do artista durante este período de reorganização, ao contrário, muito pelo contrário, o artista se distanciou como nunca do público, seja pela falta de investimento em seu trabalho, pela falta de locais de consumo de massa, pela ausência de remuneração e mercado, enfim, o que se viu nesse período de transição foi o desestabelecimento da relação entre o artista e o público, a apropriação oportunista de pseudo artistas de um espaço em gestação e a pirataria desenfreada, a que desrespeita o direito e a propriedade do artista e portanto do conteúdo.
    Observamos uma concentração do capital proprietário do conteúdo, não se verifica um crescimento do capital independente das corporações, os independentes são absolutamente irrelevantes no mercado global comparado com as majors, que agora são três megacorporações, registrando-se portanto uma radical oligopolização do segmento.
    O que se chama de derrocada da indústria equivale a mal juízo, análise apressada, superficial e desinformação, a indústria da música foi pioneira na decisão do caminho virtual de circulação e se organiza gradativamente ampliando seu espectro global de atuação e exploração mercadológico. O superlucro dos anos 90 financia a viragem que assegura concentração de poder e riqueza por longo tempo. O resto é conversa fiada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *