O mundo mudou e veremos nas próximas semanas o desdobrar da crise financeira. É difícil dizer se a situação vai melhorar após as inúmeras reuniões dos países ricos, dos emergentes e dos outros. Também não se sabe se as indefectíveis profecias dos economistas de sempre serão melhores ou piores que as de hoje. Mas, está claro que a cultura brasileira e o novo ministro da Cultura têm uma oportunidade espetacular de ajudar o Brasil a manter o seu crescimento e, especialmente, o processo de ascensão social de camadas significativas da população. Por esse motivo, desprezando-se por hipótese todos os elevados benefícios que a cultura proporciona ao País, a classe cultural deveria dar ao novo ministro apoio e suporte para suas ações. E toda a sociedade pode e deve se envolver com essa questão. Quando o ministro vai ao Congresso e aos seus colegas de ministério solicitar reforço de orçamento, está na verdade buscando recursos de investimento, e não autorização para gastar mais. As razões e os números são claros e exuberantes:

Em uma crise sem precedentes nas finanças, no sistema bancário e com as mudanças radicais no clima do planeta, o Brasil tem a riqueza cultural, das artes, da produção artística. É como os economistas chamam os bens, os assets.

As últimas pesquisas do IBGE mostram que a cultura no País assumiu uma importância de 6% a 7% do PIB. O PIB nacional está hoje em torno de R$ 2,3 trilhões e precisa crescer em torno de R$ 110 bilhões para manter o ritmo, as políticas sociais, a confiança no governo e nas suas instituições. Algumas medidas para manter o crescimento podem ser tomadas no âmbito do Ministério da Cultura:

1) Criar fomento regular no mesmo valor da Lei Rouanet. Portanto, abrir editais para que as empresas de produção cultural se candidatem a captar R$ 1 bilhão em 2009 nas áreas de cinema, teatro, dança, museus, artes plásticas, novos valores, pesquisa de linguagem, música, literatura, etc.

2) Desburocratizar os mecanismos de aprovação de projetos na Lei Rouanet (vale lembrar que a Lei Rouanet deu uma contribuição imensa para a formalização do setor. Inúmeros profissionais abriram empresas e hoje operam de maneira regular, pagando seus impostos e sentindo-se cidadãos).

3) Liberar o dinheiro do Mais Cultura para deixar os equipamentos estaduais e municipais em condições de receber os espetáculos e seus patrocínios.

4) Ampliar o projeto “Ponto de Cultura” em pelo menos 10% para fomento em regiões com pouco investimento e/ou com dificuldade para receber investimentos da Lei Rouanet.

5) Fomentar as exportações brasileiras no ramo do entretenimento com maior controle da arrecadação de música no exterior, fomentar as exportações do audiovisual, estudar a redução de impostos para exportação e desburocratizar a exportação das artes plásticas.

6) Investir no Patrimônio Histórico e Cultural para incentivar o turismo local e internacional.

7) Investir nos museus do País para melhor cuidado do acervo e funcionamento aos sábados, domingos e feriados.

8) Reduzir ainda mais a burocracia e os impostos para editoras de livros e gravadoras de CDs e DVDs.

9) Introduzir o mais rapidamente possível o ensino de música nas escolas primárias para a melhoria e aprimoramento do desenvolvimento escolar e, conseqüentemente, da educação no Brasil.

10) Continuar lutando para que o orçamento da cultura chegue a R$ 1 bilhão, para poder implementar e fomentar a política pública desejada pelo presidente, ministros e governos estaduais.

Estas medidas podem contribuir para um crescimento do PIB da cultura em mais de 5%, dando uma contribuição imediata para a manutenção do crescimento e do PIB nacional. A cultura e a construção civil são dois setores intensivos em mão-de-obra e serviços, permitem contratar trabalhadores com todos os níveis de qualificação e gerar renda imediata.

Esta é uma pauta sobre a qual todos nós, lutadores da cultura, lutadores por um Brasil melhor, interessados na promoção social e no bem-estar do povo brasileiro, deveríamos refletir. Dar apoio ao novo titular da pasta da Cultura é dar apoio ao Brasil, é pensar em soluções no lugar de amargar a crise. É procurar caminhos e trilhá-los. Afinal, como disse Emily Dickinson, a grande poetisa americana, “sem saber quando virá o amanhecer, eu abro todas as portas”.

kicker: Além de seu valor intrínseco, a cultura é intensiva em mão-de-obra

SERGIO AJZENBERG* – Sócio-diretor da Divina Comédia, Comunicação, Arte e Entretenimento


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3Comentários

  • Carlos Henrique Machado, 13 de dezembro de 2008 @ 21:27 Reply

    O Minc sempre teve apoio da sociedade em seu discurso de democracia cultural.

    As críticas vieram da não implantação de tais medidas anunciadas no atacado.

    Quanto à Lei Rouanet, os seus benefícios para a democracia cultural nas proporções apresentadas, é uma acinte.

    Pelos dados da Folha de São Paulo, somente 3% dos proponentes captaram recursos que equivalem a 50% de toda a verba destinada à produção cultural brasileira. Este assombro não pode de maneira nenhuma continuar.

  • Carlos Henrique Machado, 17 de dezembro de 2008 @ 14:06 Reply

    Uma sugestão
    Os bancos envolvidos com a cultura brasileira e com reais preocupações com a democracia cultural, poderiam adotar um simples critério: devolver em percentuais sobre seus lucros em investimentos em cultura nas cidades em que atuam com suas agências. O gerente regional de cada banco tem, com certeza, mais possibilidade de se interar sobre as manifestações culturais das comunidades onde atuam e lucram do que o comando de um centro cultural distante.

    Seria um grande passo da desburocratização que poderia, inclusive, servir de exemplo ao MinC. Neste caso, beneficiariam expressões como, grupos amadores de teatro, escolas de arte, folias de reis, jongueiros, bandas de música, grupos de dança, documentários e música. Enfim, toda uma gama de manifestações artísticas seria contemplada e a visibilidade do banco junto à comunidade, com certeza, estaria garantida pelo grau de participação e integração da instituição com a sociedade.

  • Rubens, 18 de dezembro de 2008 @ 18:03 Reply

    Toda vez que é questionado a respeito da crise mundial financeira, o presidente Lula alardeia sobre a necessidade de se manter o consumo para a economia continuar girando. Pois bem, é nesse momento que o governo federal poderá demonstrar toda a sua “robustez” que vem anunciando nos últimos 6 anos mantendo o setor cultural ativo, para assim continuar com todos os serviços diretos e indiretos que as empresas do setor cultural oferecem para os consumidores nas execuções de seus projetos.
    Nesse sentido, concordo com o autor do artigo, que prega uma participação mais ativa do governo federal, no sentido de disponibilizar mais verba para o setor que sempre fica a mercê dos interesses de empresas privadas que sempre fazem o papel do estado quando o assunto é cultura.

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