Nada pode ser tão especialmente brasileiro em nosso sentimento do que quando pronunciamos a palavra Pixinguinha. Pixinguinha é a lenda e a nossa verdade. É o sincretismo da espada católica em defesa da cruz com o guerreiro São Jorge transmutado no sentimento único de Ogum.

A extraordinária fusão é o próprio Pixinguinha, uma coisa de fazer inveja, doce, terno e complexo, uma entidade brasileira livre para produzir uma maravilha atrás da outra. Pixinguinha arrumou um espaço único entre a cruz e a espada, chamou as instituições para o terreiro num campo aberto, único e ecumênico, o que fez dele um gênio com leitura própria do Brasil, como aqui é citado por Mário de Andrade quando o mestre do modernismo ouvia encantado um dos muitos clássicos de Pixinguinha, “Urubatã”.

“Disco admirável. Riqueza e beleza de combinações instrumentais. Alfredo Viana é o próprio Pixinguinha. O título “Urubatã” é digno de nota. Urubatã é um deus do catimbó, cuja melodia registrei no nordeste. Pixinguinha, macumbeiro contumaz carioca, denominando uma obra sua com o nome de catimbó… A melodia recolhida por mim é completamente outra.” (Mário de Andrade).

Pixinguinha é o mais popular e o mais extraordinário compositor da música popular brasileira. Mas um dado especialmente fundamental faz de sua obra representante dos santos de todos os nossos altares, é o prazer que sentimos quando tocamos qualquer uma de suas obras. Não conheço nenhum compositor que sinta mais prazer, até mesmo de suas composições, comparado ao prazer que sentimos quando tocamos uma obra de Pixinguinha, ela é mágica e hipnótica. Poderíamos sim ficar o dia todo brincando de improvisar e nos extasiando com as múltiplas formas harmônicas, rítmicas e melódicas que uma única música de seu vasto repertório nos propicia.

Pixinguinha é mais que extraordinário na criação, ele é acolhedor, deixa que todos falem quando executam a sua música em qualquer sotaque, em qualquer andamento. É uma coisa única no mundo. Sua música é rica porque é generosa e pode nos trazer a definição de que o choro é a música das massas em toda a sua forma estrutural.

Pixinguinha dá a dimensão do Brasil, da criação e da transformação natural improvisada, prazerosa. Não dá pra imaginar alguém, amarrado ao pé da mesa, tocando a obra do mestre. Pixinguinha nos obriga a balançar os ombros, os quadris, a cabeça, mas, sobretudo, os olhos que mantemos fechados seja para ouvir, seja para executar o seu universo que é o nosso próprio.

Pixinguinha é mesmo este, Urubatã, Ogum, São Jorge que, fundidos em uma só entidade, todos os dias nos faz ficar de joelhos ao ouvir ou a tocar as suas ecumênicas orações e inventarmos mais umas fresezinhas de acordo com os nossos pecados.

Hoje, 23 de abril, é o Dia Nacional do Choro – Hoje é dia de Pixinguinha de Todos os Santos.


Bandolinista, compositor e pesquisador.

3Comentários

  • Alberto Santos, 24 de abril de 2010 @ 19:27 Reply

    Oxalá todos fossem como vc, meu caro.
    Salve Pixinguinha, Salve a Cultura Verdadeiramente Brasileira.

    Ah, e continue enxergando borboletas em meio ao lodo dessa sociedade doente e oportunista.

    Cordialmente

    Alberto

  • gil lopes, 25 de abril de 2010 @ 1:37 Reply

    salve Carlão, grande texto! Pixinga é tudo isso, é nós! e é por isso que o Rio de Janeiro continua lindo…viva Pixinguinha gênio da raça!

  • Pedro Valente, 26 de abril de 2010 @ 23:44 Reply

    Prezado Carlos, o que também me impressiona em Pixinguinha é sua capacidade de reinventar-se como músico ( nas composições, orquestrações e instrumentista ) nos mais de cinquenta anos que atuou na linha de frente da nossa prestigiosa música popular brasileira. Parabéns pelo artigo.

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