Como se não bastassem as travas contra a imaginação que uma certa categoria de livros paradidáticos vem causando às crianças, agora chega o Conselho Nacional de Educação (CNE) para extremar o politicamente correto com um parecer que recomenda a suspensão de Monteiro Lobato dos ambientes escolares. A alegação é que a literatura do autor do Sítio do Picapau Amarelo, sobretudo o livro “Caçadas de Pedrinho” apresenta expressões preconceituosas com as quais a baixa qualidade dos professores brasileiros não estaria preparada para lidar.

A junção certamente irrefletida da pobreza analítica do tema com o tratamento desrespeitoso dado às pessoas que ensinam neste País, para poder justificar o afastamento da obra de Lobato das bibliotecas e salas de aula, reflete a vulnerabilidade da clareza conceitual que ronda o âmbito das nossas políticas públicas para uma educação antirracista. Qualquer educador com o mínimo de sensibilidade sabe o quanto existe de oportunidade pedagógica nas contradições explicitadas em situações conflituosas como as que regem a relação da boneca Emília com a Tia Nastácia, que é a sua mãe de confecção.

No anseio de corrigir uma irracionalidade de cunho étnico, modelada em três séculos de escravidão do Brasil colonial, os promotores da igualdade racial extrapolam muitas vezes os limites da razoabilidade. Atacar um clássico da literatura, como se houvesse um dolo, uma intenção de ofensa em suas palavras, transforma o ativista em déspota. Dessa forma, mais do que o sentido específico do parecer do CNE, o que chama a atenção e preocupa é o fenômeno do destempero incutido nesse ato de exceção que atinge a mais livre das expressões estéticas, que é a literatura.

Esse tipo de movimentação, que faz parte de um pacote de atitudes segregacionistas importadas dos movimentos sociais estadunidenses, onde o racismo é institucionalizado, aponta para o risco de engessamento da pedagogia em nome da idealização de um comportamento destituído de preconceitos entre os seus diferentes grupos sociais. O ataque às obras do Sítio demonstra que essa reconstrução ideológica, que em um primeiro momento parece utópica, tende mesmo a degringolar para a distopia, para o pesadelo da apartação lastreado em um processo discursivo incoerente.

Por sorte o fato envolveu a figura do escritor Monteiro Lobato, que já está calejada de sofrer esse tipo de ataque, pelos mais distintos motivos, embora sempre com um incômodo comum: sua literatura infantojuvenil desacomoda por ser autêntica, sincera e transformadora. Esses atributos são insuportáveis para quem arvora do status de detentor da moral da vez. Foi assim quando o Visconde de Sabugosa descobriu petróleo no quintal da Dona Benta, o que contrariou o monopólio da indústria petrolífera estrangeira, e pode estar sendo assim, caso por trás dessa tentativa de banimento escolar do célebre autor brasileiro, haja o dedo das multinacionais que avançam no mercado editorial no País.

Não custa nada desconfiar. Afinal, a história da queima de livros, inclusive os de Lobato, tem sua gênese em solo político e comercial. A professora e pesquisadora mineira Angelina Castro, autora do livro “Educação, ética e estética na obra infantil de Monteiro Lobato” (Tradição Planalto, 2010), traz à memória vária das razões que levaram à retirada das obras do Sítio das escolas, entre elas as cenas de antropofagia em “Hans Staden” e o questionamento do descobrimento do Brasil em “História do mundo para as crianças”. Curiosamente, as perseguições anteriores ao livro “Caçadas de Pedrinho” foram feitas por incômodo à crítica que a obra faz à política e aos processos burocráticos brasileiros.

Enquanto de um lado o parecer do CNE orienta que “Caçadas de Pedrinho” “só deve ser utilizada no contexto da educação escolar quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil” (Parecer 015/2010, pág. 2), o que no dito popular seria como recomendar a morte imediata da vaca para acabar com os carrapatos, Angelina é de opinião que a polêmica atual sirva exatamente para pôr de lado essa noção preconceituosa contra a liberdade literária e abra caminhos para que uma reforma cognitiva propicie o espírito observador e crítico de que tanto carece a nossa escola.

Em que pese à existência natural de expressões de época, a atualidade da obra de Monteiro Lobato é impressionante. A cada dia nos aproximamos mais do Sítio do Picapau Amarelo, tomando como referência a intenção literária do autor na criação do Brasil ideal. O exemplo mais presente dessa característica é a eleição de Dilma Rousseff para a presidência da República. Como assim? Na literatura de Lobato, o Brasil ideal está desde o início comandado pela lógica do poder feminino, na figura da Dona Benta; enquanto no Brasil real, somente agora vamos experimentar pela primeira vez na história da República o País ser dirigido por uma mulher.

O Brasil está precisando mais de literatura que instigue a pensar do que de pesquisadores obtusos e burocratas que querem impor suas razões cartesianas ao mundo escolar. E tem mais: essa conversa de que educadores e crianças não estão preparados para lidar com situações literárias que podem ser embaraçosas a determinadas identidades mais parece aquele discurso do Pelé de que o povo não sabe votar. A falta de interação entre os órgãos de educação e cultura não só deixa o equipamento escolar à mercê do mercado, como distancia a educação da função simbólica da nossa vida cultural.

As orientações do CNE para que as obras que apresentam possibilidades de “representações negativas sobre a cultura popular, o negro e o universo afro-brasileiro” (p. 5) sejam rejeitadas ou obrigadas a ter notas explicativas à luz dos estudos atuais e críticos, configura-se como uma imposição desnecessária, considerando o quanto esse tipo de restrição à criação literária abre de precedente. Rute Albuquerque, coordenadora do Programa de Educação do Núcleo de Estudos Negros, de Florianópolis, procura contemporizar, colocando-se ao mesmo tempo a favor do parecer e a favor de Lobato. Seu argumento é que a leitura deve atender acima de tudo à interpretação do que por vezes pode estar disfarçado por adornos criativos.

A escritora gaúcha, Lígia Bojunga, se pronunciou sobre o caso, chamando a atenção para o contrassenso que ele traz com relação aos avanços dos estudos literários sobre a noção do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão em um livro. Ela lamenta que, como está acontecendo atualmente com relação à obra de Monteiro Lobato, de vez em quando educadores de todas as instâncias manifestem desconfiança da capacidade que os leitores têm de se posicionarem “de forma correta” diante do que lêem. Essa liberdade do leitor está associada ao seu universo de conhecimento, aos saberes que embalam suas crenças, ao seu modo de vida e ao seu grau de escolaridade e acesso à informação.

Os livros de Lobato estão entre os que educam pelo viés da cultura, por isso possibilitam um constante exercício do contraditório e dão espaço para a imaginação no processo cognitivo. O autor primou em sua literatura pelo exercício do pensamento e do diálogo e não por discernimentos de empréstimo, pretensamente sistematizados em conteúdos previamente estabelecidos como corretos. No Sítio do Picapau Amarelo, assim como nas escolas do Brasil ideal, ensinar a pensar é mais importante do que ensinar pensamentos.


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8Comentários

  • Gláucia Machado, 21 de novembro de 2010 @ 21:01 Reply

    Parabéns, Flávio, pela excelente análise.
    Pergunto se podemos pedir que a escola ensine a pensar…
    parece que a escola existe para adestrar para o mercado editorial.

    Queremos liberdade de leitura e bibliotecas diversificadas!

  • Renata Celani, 23 de novembro de 2010 @ 13:57 Reply

    Caro Flávio,

    O parecer do CNE não recomenda "a suspensão de Monteiro Lobato dos ambientes escolares", como você diz, e sim a publicação de uma nota, junto ao livro Caçadas de Pedrinho (nos exemplares que forem distribuídos a escolas), destacando o teor racista no tratamento dado à Tia Nastácia por alguns personagens do livro. A nota tem como objetivo suscitar um debate nas escolas a respeito da questão.

    Vale a pena ler o parecer.

    Um abraço, Renata

    • Flávio Paiva, 25 de dezembro de 2010 @ 12:03 Reply

      Óbvio que li todo o parecer antes de fazer o artigo, prezada Renata. Tive apenas o cuidado de não ficar preso à forma literal da recomendação, ao chamado texto da lei. Afinal, é no espírito da lei que a intenção se expressa…

      • Renata Celani, 4 de janeiro de 2011 @ 21:52 Reply

        Reitero que o parecer não recomenda a suspensão do livro, conforme você destaca no primeiro parágrafo do seu artigo. A interpretação que você dá ao 'espírito da lei' é uma, mas a recomendação expressa pelo CNE é outra. Creio que seria fundamental apresentar aos leitores de sua coluna mais subsídios referentes ao texto do parecer, a fim de fundamentar o debate sobre a questão de forma mais justa e adequada. Um abraço, Renata

  • Patricia de Freitas, 23 de novembro de 2010 @ 14:37 Reply

    Concordo plenamente, Flávio.
    Vivemos uma época que considero, no mínimo, contraditória: uma "luta incansável" pelo politicamente correto e a sociedade nunca esteve mergulhada em tanta hipocrisia. A começar pela maneira míope e distorcida com que tratam a educação, chegando agora ao ponto de censurar um escritor que embalou gerações com suas deliciosas histórias e ricos personagens.
    Aqueles que tiveram o prazer e o privilégio de ler as histórias do Sítio, repletas de simbolismos e imaginação, foram crianças mais criativas, com maior repertório cultural, capazes de distinguir ficção e realidade, o certo do errado, diferenças culturais ao longo de épocas distintas.
    O preconceito, a intolerância e outras formas de opressão derivam de ações que se disfarçam de politicamente corretas, mas que na verdade, servem apenas para contribuir com esse processo de educação alienante e raso que temos atualmente.

  • Carlos Henrique Machado Freitas, 23 de novembro de 2010 @ 20:59 Reply

    É, são essas coisas inexplicáveis do Brasil radical. Dois fatos em um só marcam a guerra mais suja, a campanha mais sangrenta que exterminou vinte milhões de índios e sustentou a mais longa e cruel escravidão dos negros aqui no Brasil.

    De repente, Ali Kamel, Dora Kramer, Demetrio Magnoli, lançam livros, escrevem editais e artigos afirmando que, apesar dos 380 anos de escravidão oficial que dependeu da Lei Áurea para abolição da escravatura, nós nunca tivemos uma política racista. Aliás, o conceito raça, agora, para os novos integralistas do Brasil é coisa separatistas.

    No Brasil, o cinismo é, de todas a mais forte das religiões. A singela explicação de Demétrio, por exemplo, que tenta criar esquemas de difamação às cotas para negros e índios nas universidades, segundo eles privilegiados, é que a escravidão existia não por preconceito racial, mas por questão cultural, tanto que alguns negros, quando podiam, compravam também escravos e os mantinham cativos. Demetrio só esquece de dizer, com certo despiste, que existiam sim negros que escravisavam, mas o que nunca existiu no Brasil foram brancos escravizados, seja por brancos ou por negros. E toda essa panaceia com direito à mídia, como o seu livro “Uma Gota de Sangue” não teve tanta polêmica quanto à questão de Lobato que, por sinal, tem sido atacado e, na maioria das vezes, por gente que não tem a mínima noção de quem foi Lobato, ao ponto de chamá-lo de racista e eugenista.Vai entender.

  • Edna Apparecida Soares de Carvalho, 3 de dezembro de 2010 @ 17:22 Reply

    FLÁVIO PAIVA

    Amei o seu pronunciamento. Parabéns. Nos Natais de antigamente eu sempre ganhava os livros de Monteiro Lobato, de capa grossa que aguçavam a minha curiosidade e despertavam a vontade de pensar, de querer mais.

    Muito tempo depois escrevi uma poema e novamente nele apareceram as obras de Monteiro Lobato e as personagens carismáticas :Dona Benta e Tia Anástacia .

    Monteiro Lobato merece o maior destaque na literatura brasileira.

    Edna Soares de Carvalho

  • Francisco Neri, 17 de dezembro de 2010 @ 13:40 Reply

    Parabéns pelo artigo, caro Flávio. Como disse a Rita Albuquerque, "a leitura deve atender acima de tudo à interpretação do que por vezes pode estar disfarçado por adornos criativos", mas ainda assim, julgar a obra de um autor do quilate de Monteiro Lobato com o argumento de que seus livros dão margem à interpretações racistas e preconceituosas, chega a ser exagero. Significa, antes de tudo, tirar do leitor o prazer e a liberdade de refletir e questionar. Como você bem disse, a literatura é mais livres das expressões estéticas.

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