O financiamento estatal de projetos é uma das bases da política cultural brasileira. Independente da área de atuação, seja nas artes ou no desenvolvimento de propostas sociais, as dificuldades para implantar sistemas sustentáveis de negócios no meio cultural são conhecidas e um dos grandes desafios na hora de estruturar uma proposta é que ela sobreviva à intervenção estatal.

Foto: Rob PongsajapanOs pesquisadores André Martinez, Minom Pinho, Claudia Taddei e Daniela De Rogatis começaram em 2010 a desenvolver uma teoria onde o projeto passa a ser concebido como um organismo vivo. Para ampliar conceitos como Economia Criativa e Economia Verde, trouxeram à tona a dinergia, proposta desenvolvida por György Doczi, onde padrões são criados pela união dos opostos, fazendo-os convergir de forma harmônica.

Em artigo publicado aqui no Cultura e Mercado, em 2012, Minom explica o conceito e os objetivos do método dinergético. “O planejamento dinergético é inclusivo e não deixa de lançar mão dos instrumentos tradicionais de análise e planejamento, mas se apropria deles em diálogo com outras disciplinas. São novos padrões de pensamento e ação. Razão e intuição. Ciência e arte. Isto e aquilo. Lado direito e esquerdo do cérebro. Concreto e abstrato. Tangível e intangível. Singularidade e diversidade. Linear e complexo. Os opostos gerando o equilíbrio”.

Sob essa perspectiva, a intenção é que a idealização de um projeto passe de uma construção linear para um pensamento mais complexo. “Temos que ter a capacidade de desenvolver e aplicar métodos que respeitem da melhor forma possível os fluxos que eles próprios geram. Eu penso em imitar a vida de alguma forma, e a partir disso eu consigo fazer a gestão dos resultados que o meu projeto gera”, defende Martinez, que ministra o curso Inovação em Projetos Culturais no Cemec entre os dias 20 e 22 de junho, onde explora com profundidade esses conceitos.

Segundo os pesquisadores, um dos problemas na hora de idealizar uma proposta criativa é quando os conceitos de sustentabilildade e inovação se guiam unicamente pelo viés econômico. “Tratar elementos intangíveis exclusivamente como objetos mercadológicos é uma espécie de esterilização que rouba a fertilidade criativa e desvirtua o sentido que move os empreendedores”, garante Minom em seu artigo.

Quatro são os elementos essenciais para se aplicar o método dinergético a um projeto cultural: sentido, propósito, método e aprendizado. Os quatro elementos, juntos, misturam razão, ação, pragmatismo e intuição para dar à proposta o fluxo que mantém o empreendimento vivo. “Quando compreendemos que empreender é aprender e não só desenvolver, criamos espaço para o surgimento de novos pontos de vista, novos paradigmas. Passamos a gerir uma curva de aprendizagem social com um enorme poder de transformação/inovação”, explica Martinez na apresentação de seu método.

Diferencial – Na Jornada Projetos Culturais, apresentada por Cultura e Mercado no Cemec entre os dias 2 e 5 de junho, a museóloga Daniele Torres abordará o tema “Gestão de Projetos”, onde focaliza desde a criação até as ferramentas utilizadas para garantir uma boa prestação de contas e organização nas questões burocráticas.

Daniele diz que na gestão dos projetos, que vai da concepção à prestação de contas, existem padrões nos quais eles devem estar formatados. No entanto, é nos detalhes que deve estar o diferencial. “O que eu costumo recomendar é criar o diferencial, se colocar no lugar do advogado do diabo. No caso de uma apresentação para um patrocinador, é sempre bom fazer uma boa apresentação visual. Quando eu fazia a seleção de projetos, sempre me chamava a atenção quando eu recebia um projeto com uma caixa diferente, uma cor diferente. Obviamente aquele acabava ganhando alguns pontos. Aquilo já tem uma inovação, digamos assim”, defende.

Para ela, os conceitos de inovação e sustentabilidade devem perpassar toda a proposta, incluindo desde o planejamento até o controle do projeto e a prestação de contas. “Toda ação cultural tem que ser bem planejada. Depois tem que fazer um bom monitoramento, uma boa realização, e o pós, a renovação do projeto, a transformação do projeto depois de realizado”, afirma.

Sob outra perspectiva, dos financiadores, as grandes empresas têm trazido cada vez mais para dentro dos planos de marketing as iniciativas culturais. Se antigamente as verbas destinadas ao financiamento de projetos eram vistas de forma mais secundária, hoje elas entram no escopo em paralelo às verbas de publicidade.

Kluk Neto, que na mesma jornada apresentará um módulo sobre marketing, garante que nos últimos anos as políticas culturais estão mais intrínsecas nas campanhas de marketing das grandes empresas. Antigamente, conta, as agências de publicidade denominavam todas as ações que não fossem veiculação em mídia como ações below the line. Esse termo, até depreciativo, foi aos poucos caindo em desuso e outras expressões como “Comunicação 360°”, “Ações integradas de marketing”, “Marketing Holístico”, “Marketing 3.0” e afins passaram a fazer parte do dia a dia dos profissionais de marketing nas empresas. “Isso demanda uma mudança de paradigma nos gestores das verbas de comunicação das empresas, abrindo oportunidade para que as ações de marketing por meio da arte e da cultura ganhem espaço no mercado”, constata o economista e pesquisador da área.

Mas se de um lado empresários começam a ver a necessidade das ações culturais dentro de seus planos de marketing, de outro, a fatia de financiamento para ações culturais está sempre defasada em relação à quantidade de propostas que chegam aos financiadores. Sendo assim, ainda que difícil, é uma necessidade alcançar conceitos como inovação e sustentabilidade nos projetos culturais.

*Atualizado em 27/5


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Repórter do Cultura e Mercado.

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