A Torre de Babel do I Encontro Nacional de Produtores Culturais, Profissionais do Marketing, Publicitários, Advogados, Contadores e Afins
Tive a oportunidade, no dia 31/10, de participar do “I Encontro Nacional de Produtores Culturais, Profissionais do Marketing, Publicitários, Advogados, Contadores e Afins”. O que me atiçou a curiosidade, em primeira instância, foi a vasta gama de categorias profissionais incluídas no título, especialmente tudo o que se enquadraria na categoria “afins”. Diversidade, aliás, que também estava representada na mesa, composta por artistas como Graça Berman, Hugo Possolo e Magda Pucci, produtores culturais como o veterano Pedro Bianchi, livres-pensadores e propositores como Leonardo Brant, publicitários como Marcos Le Pera, representantes do MinC como Sérgio Mamberti e Élder Vieira ou da APETESP (Paulo Pélico) e ainda do SESC, na pessoa de Rosana Paulo da Cunha (cuja situação, caros leitores e correligionários de batalhas culturais, vale sem dúvida um voto de desagravo no site do SESC mais próximo de vocês) e até um contabilista, Joaquim Carlos Monteiro de Carvalho. Pois bem, no breve debate que se seguiu, não faltaram defesas acaloradas da política federal de cultura, questionamentos igualmente contundentes à mesma política, discussões acerca do papel das empresas vis-à-vis o setor cultural (das mercenárias às desenvolvedoras ao mesmo tempo de seus negócios e do país) e do que cabe aos artistas e produtores vis-à-vis as empresas, oportunidades de projetos na área publicitária e dicas do universo contábil. Nos segundos que antecederam os dez minutos com que fui aquinhoada para minha exposição, diante de uma platéia tão variada e conhecedora de suas áreas de atuação, hesitei entre falar de políticas públicas, de marketing cultural e de economia da cultura. E, por absoluta e total convicção de que é impossível pensar em um desses temas sem falar dos outros, no frigir dos ovos acabei pincelando os três.
O resultado de tamanha torre de Babel não poderia ter sido mais alentador. Houvesse esse encontro ocorrido há alguns anos, acho muito pouco provável que a mesa tivesse chegado a algum entendimento e a platéia não tivesse se aborrecido antes do intervalo. Mas foi com um sorriso nos lábios que vi perguntas de profissionais das áreas mais diversas sendo dirigidas a profissionais de outras áreas, com toda a naturalidade. No cerne disso tudo, a visão de que a transversalidade da cultura constitui, de fato, uma língua franca. Nada mais coerente do que ver pessoas que, como nós, defendem o estímulo à diversidade cultural, encarar a diversidade de pontos de vista profissionais como complementares, benéficos e dignos de uma cultura que é muito maior do que a soma das nossas partes. Que progresso galopante! Eu me lembro dos olhares curiosos que encontrava há apenas vinte anos, quando entrei na faculdade de economia e fiz meu primeiro estágio na área cultural. Durante o dia meus colegas de trabalho se perguntavam como uma pessoa tão interessada em cultura podia estar estudando economia. À noite, os futuros economistas me perguntavam como era possível que eu não tivesse escolhido trabalhar em um banco ou órgão público. Hoje, quando falo de economia da cultura, a reação não é mais de surpresa ou incredulidade, mas sim de enorme interesse. Terá sido em parte conseqüência da globalização, que nos incluiu de chofre nos embates multilaterais acerca da inclusão ou não de produtos e serviços culturais na categoria de mercadorias comuns? Será um reflexo do processo de democratização que atravessamos nessas duas décadas? Ou ainda um traço do debate que se estabeleceu, especialmente nos últimos dez anos, entre os setores público, privado e a classe cultural, até em virtude das leis de incentivo à cultura, entendidas às vezes como instrumentos de política cultural e em outras ocasiões confundidas com a própria? Provavelmente seja o resultado de tudo isso e de muito mais. Hoje, porém, é inegável que esse caleidoscópio da cultura, no qual os diferentes agentes da sociedade se compõem com representantes das mais variadas formações profissionais, vem formando imagens surpreendentes.
É claro que muitas articulações e diálogos ainda hão de vir ou se consolidar. Algumas são mais reconhecidas, como a necessidade de promover um alinhamento visceral entre as políticas cultural e educacional, entre os programas de cultura e de turismo ou de compreender a própria economia da cultura, a começar pelo levantamento de números atualizados, após dez anos de estiagem. Outras associações, porém, têm despertado menos atenção. Dentre elas, urge aprofundar, por exemplo, a discussão acerca das relações íntimas entre cultura e meio ambiente (basta ver a similaridade entre o texto da Convenção pela Biodiversidade e o da Convenção pela Diversidade Cultural, assinada mais de uma década depois), de modo que a diversidade de uma reforce a outra, afaste-a do risco da extinção e promova a inclusão socioeconômica das comunidades tradicionais. O que resta, porém, é a certeza inabalável de que somente o florescimento de uma língua franca na Torre de Babel em que nos encontrávamos nos fará caminhar nessa direção a passos suficientemente largos para sermos, de fato, donos do nosso destino.
Ana Carla Fonseca Reis