Atuar em rede já faz parte do hábito cultural de muitos artistas, projetos e contextos culturais, dos mais diversos, independente de onde estão situados – se centrais ou periféricos, se desta ou daquela área artística – ou submetidos a não menos metáfora da rede que a internet nos impõe. Sim, muitos podem alterar o teor deste último verbo, afirmando que estar conectado não é só uma imposição, é uma necessidade, uma realidade e uma escolha consciente de estar no mundo.
Mas, passada algumas experiências, das quais aqui relataremos, e centralmente apoiada no novo projeto do Acervo Mariposa chamado Rede Dança em Vídeo, abrimos aqui um espaço de relato e diálogo para, em rede, repensarmos como esse hábito toma-nos sensorialmente, intelectualmente e muda, sim muda muito, nossa percepção de atuação profissional nas artes. Nosso estudo de caso aqui é o campo da Dança, aquele que tem pouco público, pouca captação, é quase sempre esquecido quando nomeado ao lado das outras artes; mas eminentemente uma área de conhecimento, ou seja, de produção, criação, circulação de bens culturais, sejam àqueles do entretenimento ou da produção cênica, esta preocupada com formação de público, com a história e memória cultural a qual o corpo está implicado.
E por falar em Acervo Mariposa…
Acervo Mariposa é o programa cultural de gestão de vídeos de dança atento a formas de circulação e democratização de bens culturais nascidos da prática profissional da dança. Sua missão é a efetivação de um patrimônio que seja coletivo, tornar a história, presente, através do acesso e articulação de vídeos de dança, que são um dos rastros mais efetivos que a dança pode marcar a história cultural.
Criado em 2006, teve patrocínio para realizar um ano de ações culturais e educativas pelo Brasil afora (Petrobras, 2008-2009, pronac 068277), agora, em 2011, tem o patrocínio da VIVO através do ProaC ICMS, programa de dedução fiscal do Governo Estadual de São Paulo, para realizar o Rede Dança em Vídeo. Este é um projeto de construção de uma rede de artistas, grupos e companhias de dança que doam e recebem vídeos de dança, fazendo-nos conhecer e reconhecer semelhanças, diferenças e idiossincrasias da produção cênica da dança paulistana. Mais do que um mapa, faz-se um ato de cidadania, pois ao reconhecer, obriga-nos a participar. Pois, qual tipo de compromisso a rede implica?
Metáfora como realidade
A rede não é uma novidade daquelas a que nos referimos para fazer legitimar nossos textos culturais. Nem vale mesmo a pena rastrearmos na história seu surgimento (a não ser em contextos feitos para isso; com isso, não negamos essa possibilidade, apenas escolhemos não fazê-lo aqui), como prova intelectual. Atuar em rede é uma realidade imune a qualquer discurso, inclusive superficial, e é mesmo uma constatação. Tidas como aglomerações que tomam a diversidade como padrão positiva de troca e convivência, as redes são fato econômico e social da contemporaneidade. Inclusive frente a evolução tecnológica, prescindir dela não seria mais possível.
Se mesmo queremos insistir em remontar a necessidade de viver em rede, podemos tomar nosso corpo como uma rede complexa de sinais, indicações, novas rotas e novos significados que são montados, desmontados e refeitos, a todo tempo. Com isso, pareceria natural agirmos em rede, aceitando o que não é comum, nem nosso próprio, mas da coletividade, do outro. Pois, sabemos que não é bem assim.
Categorias, hierarquias e modos de funcionamento repartido são sim formas de organização, tão naturais como a rede é, e a mestiçagem de possibilidades de colocar lado a lado o que é diferente, pouco ou muito semelhante, é que é o grande barato (dispomos aqui de uma gíria, o grande lance, a grande sacada).
A metáfora da rede como um emaranhado de diferenças onde nos situamos, de algum jeito seja ele qual for, é uma realidade mas não significa que é mesmo espontâneo, confortável, um dado natural. Aqui, a cultura da rede é um exercício de cidadania, e como todo exercício não se pode excluir o erro, as tentativas e, portanto, estratégias diversas que, nem por serem outras distintas daquilo que eu ou nós podemos chamar de rede são menos rede. Será mesmo?
Rede como não realidade
A rede funciona por sua conta e risco; sim, claro, é feita por indivíduos, não tem um fantasma que diz quem manda, quem obedece ou quem dita as regras. Ah, claro, regras também existem. Não falamos de um informe (sem forma determinada), de uma coisa. Falamos de algo existente, organizado, fluido que se faz ou com certa previsibilidade ou não, como nenhuma predicabilidade, mas se realiza, acontece. Essa variação, quase frouxa, permite que a rede se configure, a cada instante, de uma maneira, como um flash mob (acontecimento social ou performático que aparece e desaparece rapidamente), uma TAZ (zona autônoma temporária, definida por Hakim Bey) ou uma multidão operante e organizada, com certa identidade, ainda que múltipla e híbrida. Sim, é possível identificá-la.
Mas há algo nela que não a defina? Algo que escapa no sentido de fazê-la perder sua maior definição? Quando rede não é rede?
Antes de tentar – vejam, tentar – responder ou gerar novos questionamentos, preciso – vejam o verbo, é urgente – explicar porque esses parágrafos.
Então, antes de tudo, era o corpo
O Acervo Mariposa, de novo, atua como um programa cultural de ações definidas para difusão de vídeos de dança; e antes mesmo, atua como um programa de pesquisa, de gestão e de reflexão de como a dança se faz no Brasil, inclusive diante do contexto acima colocado. Toda equipe (hoje somos Amanda Villani, Jaqueline Vasconcellos, Nirvana Marinho e Talma Salem) está implicada nisso. Portanto, nossa relação com acervo, memória, patrimônio, história não é casual, nem incidental, como não é para nenhum artista. Mas trabalhar em rede; isso já é outros quinhentos (outra gíria).
O artista da dança reivindica uma áurea (ups, falei) de autoria, uma vez que, de fato, sua ocorrência de criação artística se dá no próprio corpo. Quase assim: “de mim para mim mesma, no meu corpo”. Essa característica é interpretada de várias maneiras, e não dissemos aqui que nenhuma está acima de nenhuma outra. Apenas, nos colocamos a dizer que a arte da dança é um dado da cultura e a cultura é um dado da coletividade.
O corpo que dança não é menos coletivo porque assina um nome (Fulano de Tal), nem uma dança é de outra pessoa que não àquela que dança mesmo, que investiga isso no seu corpo. Complicado? Não, é complexo mesmo. Falamos aqui de uma arte que necessita encontrar meios de se tornar rede.
Rede é rede
Quando criamos um projeto chamado Rede Dança em Vídeo, estamos empenhados em redesenhar a rede de danças cênicas (denominação que circunscreve a atividade profissional e comprometida com o conhecimento, e não aquela de entretenimento, onde esses dois aspectos são prescindíveis) de São Paulo, o que envolve profissionais, pessoas, corpos, danças, autorias e subjetividades. Tais tantos são pertencentes da história da dança paulista, que é de dar orgulho e foi referência por muito tempo para todo o país. E, nos perguntamos, como colocarmo-nos em conexão, em rede? O que nos liga?
Quando a dança é propriedade, é restrita ou está para poucos, sua patente não permite colocar-se em rede; quando o sujeito não tem agenda para estar com seus pares, sua falta de tempo impede novas conexões na rede; quando a compreensão de rede é pautada em certa e confusa desconfiança ou mesmo indiferença, também fica difícil estar e se sentir pertencido à rede.
Rede é metáfora, realidade, mas é, sobretudo, sensação, sentido, percepção; uma necessidade humana de estar com o outro, de dialogar, sem perguntar antes quem é você, mas sim se interessar pelo outro. Falamos de um projeto, como tantos outros que encerraremos citando, em que sua ação primordial é estar com o outro. Seu corpo, no do outro. Sua dança, com o outro.
E os outros em rede
Rede Dança em Vídeo é um piloto nascido em nossa casa (o Acervo Mariposa está sediado em São Paulo) – aliás, acompanhe nosso lançamento que acontece dia 27 de outubro no Espaço Cultural Vivo, em São Paulo.
Mas tanto o projeto como o próprio programa cultural como um todo vem inspirado por outros tantos projetos e a eles caminha, entrelaçando nós; poderíamos não mais acabar o artigo, citando com três pontinhos: Conexão e Interatividade, Dimenti, Salvador; Red Sudamericana de Danza (www.movimiento.org); Enartci, Ipatinga, Minas Gerais; Recordança, Recife, Pernanbuco; PID, Plataforma Internacional de Dança, Salvador, Bahia…. Quem mais se sente em rede?