São Paulo tem uma imensa diversidade cultural, mas ainda nos falta identificar isso na cidade

“Como é São Paulo?”, perguntou-me o recepcionista do hotel na China, enquanto eu fechava a conta. Questãozinha difícil para responder em dez segundos, já pensando na fila atrás de mim. Voltei para casa buscando a identidade da cidade, esse quebra-cabeças formado por tantas imagens, dos mais diversos povos de fora e daqui, raças distintas misturadas em um caldeirão de esperanças de todos os tamanhos e ordens. Como sintetizar essa riqueza de influências, essa diversidade efervescente e ritmada 24 horas ao dia? 

“Se você quiser conhecer uma cidade, deve andar olhando cinco metros acima do chão.” Lembro-me das palavras de um amigo urbanista, enquanto paro em plena Praça da Sé, marco zero de São Paulo. Fico observando os transeuntes. São avalanches de paulistanos, por nascimento ou circunstância, que chegam e saem por todos os lados, em passos lépidos, olhando para baixo ou para frente, sem se permitir o tempo de ver nada. Olho para cima. Vejo uma profusão de cariátides, esculturas, rebocos antigos e me pego sorrindo. Conheço poucos lugares que representam tão acintosamente a convivência entre valores estéticos e valores econômicos. Se São Paulo fosse uma pessoa, acho que seria uma executiva poliglota e polivante, com um coração onde cabe o mundo e, à noite, não resiste a comer uma pizza, pegar um cineminha ou cair na balada. E é ao soltar o cabelo e tirar os óculos que ela escancara sua beleza. Os prédios comerciais transmutam-se em pérolas arquitetônicas de todas as décadas, as ruas e avenidas transformam-se de vias de circulação em um palco de luzes, restaurantes, barzinhos e personagens da fauna urbana. Mas por que será que tendemos a enxergar apenas a executiva ocupada entre a teleconferência e a caixa de mensagens?

Richard Florida, um dos grandes estudiosos da economia criativa, defende que a vantagem competitiva de uma cidade se apóia sobre três Ts: tecnologia, talento e tolerância. Eu adicionaria um I: identidade. Não se pode respeitar e defender o que não se conhece. São Paulo esbanja os três Ts mas, ao contrário de outros pólos criativos mundiais, como Nova York e Londres, ainda é vista por nós brasileiros essencialmente como um local de trabalho e consumo. Fico assustada ao pensar que esse desconhecimento da cidade, esse microcosmo do Brasil e do mundo, segue um paralelismo muito próximo com o que acompanhamos na pasteurização dos conteúdos de televisão e cinema, para me ater ao mais óbvio. Conhecemos de cor as crises de depressão das nova-iorquinas carentes e defendemos posições aguerridas quanto à invasão do Iraque pelas tropas dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, negligenciamos solenemente o valor da nossa diversidade cultural e ignoramos com descaso assustador os insultos morais, mentais e econômicos que as danças da pizza simbolizam magistralmente. Do mesmo modo, reconhecemos fotografias do Big Ben e ficamos enlevados pelas cenas do Central Park, mas não divulgamos que São Paulo abriga a segunda maior população indígena do país (atrás apenas de Manaus) e a maior floresta urbana do mundo (a Cantareira), além de desabrochar em um festival de dimensões estonteantes a cada florada dos ipês, quaresmeiras, paineiras e outras maravilhas da flora urbana.

Diante desse contexto, é um grande alento encontrar pessoas como Vera Lúcia Dias, que reconhecem na identidade cultural nosso bem mais precioso. Trazendo no currículo experiências na Secretaria da Cultura e no SESC e formada em turismo, ela é uma das precursoras do turismo cultural paulistano. Desde 1998 organiza passeios pelas ruas da capital, revelando um pedacinho da cidade aqui, uma história secular ali. Quando começou a divulgar os roteiros, percebeu que os habitantes nem sempre sabiam onde os locais propostos ficavam. Passou então a tirar fotos, para poder fazê-los ver o que passava desapercebido, restituindo ao olhar parte de suas referências. O Anhangabaú recupera a aura mágica de um vale encantado e cada bairro explode em suas cores próprias, em sua identidade inestimável para formar o caleidoscópio da cidade. Apesar das dificuldades, resgatar a identidade da cidade e desfraldá-la a todos e a nós mesmos é um manancial de satisfações. A maior delas? “Quando a pessoa, mesmo o morador de São Paulo, diz que está se sentindo um turista. Aí eu sei que ela nunca mais olhará a cidade do mesmo jeito.”

É por meio de iniciativas como essa, repetidas isoladamente em tantas cidades do Brasil, que nossa identidade cultural nos faz reencontrar nosso norte, apontando para onde quer que queiramos, sem nunca esquecermos de quem somos.

www.saopaulocafeturismo.com.br

Ana Carla Fonseca Reis


Economista, mestre em administração e doutora em urbanismo, autora dos primeiros livros brasileiros em economia da cultura, economia criativa e cidades criativas. É consultora e conferencista em 29 países e sócia-diretora da Garimpo de Soluções.

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