Não há dúvidas de que o Brasil vive uma época histórica, com chances concretas por um conjunto de potencialidades de não só se emancipar imperativamente como antecipar seu desenvolvimento apontando para um futuro onde o país será um dos principais protagonistas na geopolítica global. Com isso, a nossa linguagem, a nossa forma de ser, a nossa cultura, sobretudo os sons das nossas criações que já são alvo de uma sólida posição entre um clube restrito das nações que ostentam as principais linguagens musicais, vão nos cobrar as criações contemporâneas, o ineditismo do nosso repertório, seguindo o caminho pré-determinado pelo próprio desenvolvimento do país na aldeia global. Pois, é justamente aí que coincide a história de uma biografia da cultura corporativa que, se colocarmos às claras, comparada às criações anteriores, encontraremos uma massa de críticas.
É nítida a apologia a um neo-banho de civilização com o segmento que mais recebeu investimento via Lei Rouanet e o que mais tem servido à imagem das campanhas institucionais tanto do Estado quanto do mercado corporativo, as orquestras, sobretudo as mirins que recebem sempre o apelo fácil da inclusão por esta forma de instituição.
Não quero aqui abrir muito essa questão, até porque não temos números dessa inclusão que, em períodos subseqüentes, uma criança que há oito anos ingressava nesse universo dos anjos, esteja hoje sobrevivendo ou pelo menos ainda incorporada numa dessas grandes propagandistas do neo-civilismo. Quero me ater ao compositor que, no mínimo, deveria ser o grande extrato desse projeto que nos prometia, com as orquestras de Querubins e Serafins, os novos talentos, imaginando eu ser esses os seguidores dos nossos grandes criadores. Porém, o que assistimos? Um deliberado esvaziamento da cena cultural brasileira dos compositores contemporâneos. E digo, existem muitos atualmente no Brasil e com capacidade de nível universal de expressar, em suas criações, vários universos de sons que tão ricamente soubemos, através de fusões, fomentar ao longo da nossa história.
A composição brasileira sempre foi tão importante que até mesmo D. João VI fez um enorme investimento num dos nossos pioneiros nessa forma de composição brasileira, o genial Padre José Mauricio Garcia, que sempre se manteve dialogando com os chamados mundos erudito e popular. No entanto, com a larga exposição de novos aparelhos musicais apresentados pelas damas de honra em vários municípios, instituições e fundações como uma espécie de remontagem do pequeno jornaleiro, vemos que esse sistema simplesmente desapareceu com o que deveria ser o grande protagonista de uma época, seu criador.
No Brasil não houve um período sequer em que não fôssemos marcados por magníficas obras de grandes compositores a partir da orquestra imperial, seguidos de saraus como os de Chiquinha Gonzaga e Joaquim Callado que desembocavam em grandes concertos como foi o caso de “Lundu Característico” de Joaquim Callado, apresentado nos principais espaços de um Brasil ainda império. Assim também foi com Carlos Gomes, Nazareth e, depois, com os nacionalistas como Lourenzo Fernandez, o próprio Villa Lobos, nosso maior gênio, seguido de Mignone, Guarnieri, Jobim, Guerra Peixe, Radamés, Moacir Santos, entremeados pelas músicas de João Pernambuco, Pixinguinha, Garoto, Baden, entre outros grandes criadores.
O Brasil sempre manteve essa dinâmica, mas da era Collor até os dias de hoje, com a instalação do pensamento neoliberal que ganhou o campo da cultura, o criador, o compositor foi sendo destituído da função máxima de representante de uma geração.
Seria esta somente mais uma esquizofrenia do conceito corporativo de cultura que vem se instalando no Brasil durante esses últimos anos? Claro que não. O Estado não soube proteger seus criadores, saltou essa lição do passado. O máximo que vemos é uma espécie de tripa curadora. Alguém que o Estado ou o mercado corporativo contrata em terceirizações que, por sua vez, quarteiriza as chamadas comissões curadoras para os editais que vão pipocando nessas panelas em que se transformou esse viciado sistema. Ninguém tem responsabilidade, ninguém quer arriscar sua capacidade gestora.
Pois bem, se temos uma época histórica na vida social e política do Brasil, temos também reciprocamente uma absoluta ruptura em nossa capacidade de nos apresentar como nação autônoma, pois nunca importamos tantas partituras, tantos espetáculos com tanto investimento público para nos devolvermos à pedagogia colonialista.
A música brasileira é uma expressão que se confunde com o seu povo que é a sua música firmada pela percepção de seus criadores que correspondem à toda a massa de valores e experiências feitas durante a nossa história pela consciência ou inconsciência do cidadão brasileiro.
Sempre soubemos dos difíceis e espinhosos caminhos que os criadores, sobretudo os originais enfrentaram. Mas temos sinceramente que repudiar esse pastiche de releituras, de obsessivas buscas por uma cultura de aparências pelo conceito técnico e buscar a justiça ao que inflama uma sociedade que sempre foi, no nosso caso, as nossas novas criações.
Só há motivação dentro do universo da cultura, só há desenvolvimento de um projeto nacional quando é permitido à sociedade revelar seus criadores. A ideologia que simplesmente teorizou a cultura celeste universal que espalhou a imagem de uma sociedade organizada pela inclusão através das orquestras como um quadro de deslumbramento, não conseguiu materializar o ângulo deste trabalho que é verdadeiramente a criação digna dos novos representantes da nossa música.
Nisto não há diálogo com o resto do mundo como querem nos fazer crer os neocivilistas, há sim uma postura servil de importar modas, estilos, conceitos, estéticas através da importação de partituras, espetáculos para, contraditoriamente, esmagar a nossa pluralidade e nos jogarmos a uma criminosa unicidade transnacional de fora para dentro, como é a globalização da cultura corporativa que contaminou e muito o pensamento do Estado brasileiro.
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