O artigo “O Brasil precisa de um modelo de desenvolvimento cultural”, de Vitor Ortiz, publicado quinta-feira passada em Cultura e Mercado, traduz bem o sentimento geral da nação cultural. O que aconteceu com a “Política Gil”? Onde estão seus formuladores, gestores, defensores, articuladores? Cadê a Ancinav, o Sistema Nacional de Cultura, as mudanças na Lei Rouanet, as Câmaras Setoriais, a TV Pública? De onde vem e para onde vai o Mais Cultura? E o pior de tudo: cadê o Ministro?

Um barco à deriva. Esta é a sensação de todos que trabalham no setor cultural. Um discurso bonito e envolvente, mas sem articulação, comando, sem ação programática consistente. O que será desse projeto de política pública que enfrentou a Rede Globo, as majors norte-americanas, encantou o Brasil e conquistou adeptos pelo mundo? Sem a figura forte do Gilberto Gil, esse discurso mostra-se cada vez mais claramente retórico e vazio. 

Qual o projeto de poder existente hoje no MinC? Quem são os artistas, produtores, partidos, agentes públicos e privados, intelecutuais, organizações, funcionários de carreira, grupos, setores que o sustentam? Onde está a equipe que formulou o do-in antropológico, comprou briga de cachorro-grande, entorpeceu a produção cultural com algo novo e paradigmático? Onde estão Rizério, Roberto Pinho, Paulo Miguez, Sérgio Xavier, Sá Leitão, Orlando Senna, Marcio Meira, Antonio Grassi e tantos outros que formaram o dream-team da política cultural brasileira? 

Está claro que não existe mais projeto para a cultura brasileira. Não existe sequer para a Lei Rouanet, quanto mais para a Cultura. A agenda cultural do Brasil não pode mais girar em torno da sustentabilidade de um grupo isolado, que tenta se manter no poder a qualquer custo. Está na hora de vermos o maior e mais valente ministro da cultura que o Brasil já teve reassumir o comando ou entregar a batuta ao presidente Lula, que é astuto o bastante para não deixar os avanços e conquistas caírem em mãos aventureiras e despreparadas. 

E precisa fazer isso a tempo de vermos brotar qualquer institucionalidade aos programas até aqui formulados, sob o risco de termos nos sacrificado em vão. Passamos por um recente processo de desmanche das estruturas consolidadas pela gestão de Francisco Weffort, mas não temos nada de concreto (programas, projetos de lei, orçamento) no lugar.


Pesquisador cultural e empreendedor criativo. Criador do Cultura e Mercado e fundador do Cemec, é presidente do Instituto Pensarte. Autor dos livros O Poder da Cultura (Peirópolis, 2009) e Mercado Cultural (Escrituras, 2001), entre outros: www.brant.com.br

6Comentários

  • Adroaldo Bauer, 23 de julho de 2008 @ 11:02 Reply

    Para ser direto, Vitor :
    O Brasil precisa de um OUTRO modelo de desenvolvimento cultural, que não esse aí dominado pela especulação financeira e de mercado dos de cima e de sempre.
    A Política Gil foi derrotada pelas agências de interesse em reprodução da exploração social também no mercado da cultura.
    Os seus formuladores, gestores, defensores e articuladores ou foram para casa ou estão contando as horas para entregar as chaves, porque não fazem publicamente nada que seja digno do nome de, ao menos, um processo. Protengem-se nos tachos.
    Já vimos esse filme em Porto Alegre.
    Quem criticar entrega a cabeça ou entregue o cargo antes para criticar.
    O responsável coletivo pela crítica desapareceu.
    Um partido que não tem estratégia pública (que a recebe com o financiamento) não terá programa público, não envolverá a sociedade, sequer sua parcela de representação.
    O ministro brilha. É uma estrela maior que o cargo, embora não seja maior que qualquer artista brasileiro sem chance do proscênio, e nem penso que queira ser maior que alguma outra pessoa.
    Mas brilha arretado o ministro.
    Um barco à deriva, rio à baixo não é um barco à deriva, é uma nau de insensatos com dire~ção certa para o desastre, que a cachoeira está proxima e não da pé nas sete quedas até chegar a um dos sete mares, porque a IV Frota vem chegando e isso nem é assunto de cultura, dizem, porque a primeira dama do nosso cinema e teatro acha que se deve entregar os negócios pros sócios majoritários já: “como fizeram com o México”, diz sobre o Brasil Central a estrela da Central do Brasil. que horror!
    Os salva-vidas já foram distribuídos, eu não pegeui qualquer e os botes não são pra toda as classes.
    Não é apenas na cultura que não há um programa conseqüente. Há diversos programas de outros em desenvolvimento noutras esferas, só não há nelas um programa único de artistas, intelectuais e produtores brasileiros que precisem de programa, os milhões dos de baixo, porque para os de cima, o surrado farinha (ou farias?) pouca meu pirão primeiro, é de bom tamanho.
    A Rede Globo fez de novo todos de bobo, e venceu mais uma partida desse interminável campeonato iniciado na década de ’60 em que escala o time, governa a federação, o quadro de juízes e refaz as regras porque cuida do território certo da mudança: a cabeça do brasileiro, medicada com placebos pelos astros e atrizes globais: haja doriador, dordeamor, calmacalmasô, adordoador… à espera do próximo carnaval.
    Convenhamos que a figura forte de Gil começou a enfraquecer-se quando assumiu e a disputa se instituiu na base mesma do mandato dele.
    Os que tu chamaste pelo nome que se apresentem: esqueceste ainda alguns, que continuam lá, em moitas ou de acordo com o que se passa, ou são “espiões de um outro projeto que farão para o quarto milênio” porque estratégia é palavra que nunca pronunciaram, que só pensam em transição imediata, muita vez do nada para lugar algum, porque a vida é breve.
    Vai ver o Barça e o Real Madrid não liberaram o time dos sonhos.
    Então, de acordo: está nítido que não existe projeto para a cultura brasileira.
    Algum amigo do presidente deverá assumir a direção objetiva das coisas, porque, sabe-se há muito, não existe copo vazio.

    Adroaldo Bauer Spíndola Corrêa,
    escritor, poeta e jornalista.
    Porto Alegre

  • Wilson Merlo Pósnik, 23 de julho de 2008 @ 11:05 Reply

    Não acho que se tratava de um ‘dream team’. Tinha altos e baixos. Mas apenas um discurso envolvente, que saiu do ar. Internamente, o MinC era e é palco de conflitos abertos, de pessoas e grupos, que se anulam. E o Ministro nunca foi afeito a administrar positivamente, essa conflagração permanente. Já falei por aí que se trata apenas de um ‘Weffort com viola’. Por isso, as boas cabeças, aos poucos foram saindo. Tenho tentado suscitar discussões sobre políticas públicas de cultura, numa perspectiva republicana, através de um blog. Sem nenhuma repercussão. O estado em geral e também o brasileiro, está definhando – mas nunca foi ente presente na área. A sociedade é que tomou para si, a iniciativa e sempre resolveu a questão. Por isso, como sempre tenho dito por aí, é preciso inventariar a capacidade instalada da sociedade, para ao mesmo tempo mobilizá-la na melhor solução da questão cultural. Com a indução supletiva, transparente e democrática, do aparelho de estado. Que por si só, sem nenhuma presença no imaginário coletivo e num círculo vicioso, eternamente sem recursos, nunca vai ser capaz de romper esta inércia. Portanto, a estratégia que tenho sugerido é, muito resumidamente (1) inventário participativo, com todos os entes integrantes da área ou potencialmente agregáveis, em bases territoriais bem definidas, (2) formulação de políticas públicas complementares ao esforço da sociedade, reforçando-lhe a capacidade instalada, (3) aplicação dessas políticas, numa perspectiva emancipadora e (4) avaliação dos resultados, para instrumentar novas etapas de intervenção, de modo a sucessivamente, promover o desenvolvimento cultural sustentado. Aguardar o despertar dos políticos, com sua crise de representatividade, é desperdiçar o potencial de algumas gerações.

  • maria mara, 24 de julho de 2008 @ 14:27 Reply

    Bom, acho que o pessoal da turma Gil está se reeeeprogramando, reeeeepensando, reeeeepaginando…Tanto a fazer neste país diverso culturalmente!! Mas a cara do Ministerio da Cultura é a cara do Governo atual!

  • Arnaldo Godoy, 25 de julho de 2008 @ 12:23 Reply

    Caro Brant,
    Em nome de quem falas tu?
    Certamente não é em nome dos milhares de Pontos de Cultura; certamente não é em nome da diversidade cultural dos quilombolas, dos congados, dos indígenas; certamente também não é em nome de uma institucionalização do Ministério que está em fase de implantação, do Sistema Nacional de Cultura, do Plano Nacional de Cultura, e de um debate vigoroso, por que não dizer guerra, em relação ao fomento e financiamento da Cultura.
    Evidentemente, nada está pronto. Mas já se percebe o alicerce sólido das Políticas Públicas da Cultura. É preciso ter prudência e modéstia. Paciência e perseverança não significam apatia e imobilismo, mas cuidado com a coisa pública e evitar o açodamento que tem levado durante muito tempo as políticas públicas beneficiarem grupos e interesses de poucos.

    Arnaldo Godoy
    Vereador PT/BH

  • Leonardo Brant, 25 de julho de 2008 @ 18:01 Reply

    Caro Arnaldo,
    Falo em meu nome, de mais ninguém. Pelo que eu saiba, vivo numa democracia e posso pensar e escrever o que bem entendo, inclusve defendendo ou contrariando interesses de terceiros. E os meus próprios, por que não? O que não posso fazer é evocar o interesse público quando apenas estou defendendo o meu. Isso eu não faço e não fiz neste texto. Minha análise não é e nem quer ser isenta, como também a sua não é. Cuido deste espaço há 10 anos. Ele é público e aberto, inclusive para nos criticar, como vc acaba de fazer. Tenho o maior interesse os assuntos pautados em seu comentário. Quero discutir a verdadeira situação dos grupos de cultura popular, dos quilombolas, das tribos indígenas participantes do Cultura Viva. Sou entusiasta do programa, sempre fui e sempre serei. O programa é exigênio, é a melhor coisa que aconteceu nos últimos tempos na política cultural brasileira. Mas está ameaçado por sérios problemas de gestão pública e embates internos de poder. E os quilombolas não têm nada a ver com isso, mas s(er)ão vitimados se não houver uma cobrança pública. E é isso que estou fazendo. Sei que pessoas ligadas ao poder não gostam muito disso, mas continuarei fazendo, como fiz nas gestões passadas e continuarei fazendo nas próximas.

  • Marcos Moraes, 26 de julho de 2008 @ 17:11 Reply

    Bom, lá vai mais uma leitura, agregando algo ao texto do Vitor: ao final do primeiro mandato Lula / Gil estávamos num processo de crescente mobilização do setor cultural. Os resultados práticos ainda eram e seguem sendo modestos mas haviam avanços e principalmente começava a haver um debate mais qualificado, com certos consensos e outros disensos produtivos. As informações e opiniões circulavam como nunca antes. Creio que isso se deve em parte a um amadurecimento da sociedade, em parte a uma política de apoio à essa mobilização, que interessava ao proprio Minc, para fortalecer suas lutas dentro de um sistema político (executivo, legislativo e judiciário nacionais) que não compreende a importância da cultura no mundo moderno e não captou a mudança de paradigma no planeta. Assim, foram formadas as Câmaras Setoriais, foram estimuladas as discussões para a adesão ao protocolo do SNC, foram feitos fóruns, Conferências municipais, estaduais e a Conferência Nacional de Cultura em Brasília, que apontavam caminhos, cobravam ações, fortaleciam aquelas que iam na direção daqueles consensos. Sei de varias pessoas que votaram na reeleição de Lula por causa da pauta cultural e apoiavam a continuidade da gestão Gil por sentirem que os processos estavam amadurecendo. Ora, a gestão reeleita deu uma guinada nisso tudo: cortou algumas cabeças que se destacavam e começou a jogar areia no processo de mobilização. Parece que parte do discurso do primeiro mandato, a favor da contínua mobilização e da construção de políticas públicas de Estado, emudeceu. Já não era tããão interessante aquela mobilização toda. Com isso se cortou parte dos canais da sociedade que estava engrossando o esforço de gente séria e competente do Minc para estabelecer pontas-de-lança nas questões que requeriam uma mudança efetiva de paradigma na forma de tratar a cultura publicamente no país. O Gil, que talvez fosse o “Lula do Lula”, seguiu a maré geral do conformismo e talvez inadvertidamente colaborou para reforçar o reacionarismo que acompanha nosso atual cinismo frente às políticas públicas. E agora, José?

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