Criando novos modelos diferenciados de negócios e gestão para a música do Brasil, uma necessidade social.

Mesmo as camadas mais inteligentes dos povos não europeus acostumaram-se a enxergar-se e as suas comunidades como uma infra-humanidade, cujo destino era ocupar uma posição subalterna pelo simples fato de que a sua era inferior à da população europeia. (Darcy Ribeiro)

Quando nos referimos aos países hegemônicos como primeiro mundo, e ao nosso como terceiro mundo estamos apenas reproduzindo a lógica da dominação que, junto com seus espelhinhos, trouxeram conceitos e preconceitos de tal forma introjetados que nem damos conta.

Quando nós mesmos, músicos, dizemos que a classe é desunida e desarticulada e por isso está na lamentável situação em que se encontra, estamos apenas reproduzindo esse discurso que poupa os reais responsáveis por essa situação: o poder público que direciona políticas através de editais e verbas privilegiando o poder econômico, e não o mercado de trabalho para o músico e as entidades de classe, que são omissas ou cooptadas.

Músicos eram considerados vagabundos, malandros, desocupados. Quando ironicamente passam a ser a alma da festa, entram pela porta dos fundos e comem na cozinha, locais dos trabalhos “subalternos”, desvalorizados em relação aos locais “nobres”. Nas casas com música ao vivo, ainda hoje essa situação se mantém porque são roubados pelos proprietários, que não lhes repassam integralmente o couvert artístico. Assim como trabalham de graça nas feiras e festivais de música, quando todos os outros profissionais são pagos, e o que é pior, com dinheiro público.

A baixa auto-estima do artista é fundamental para manter as coisas como estão. E a naturalização dos conceitos também. Como disse o filósofo Antonio Negri: “Todos os elementos de corrupção e exploração nos são impostos pelos regimes de produção linguística e comunicativa: destruí-los com palavras é tão urgente quanto fazê-los com ações.”

Tratar a arte como cadeia produtiva é o primeiro conceito a ser questionado. As análises e modelos da economia que são utilizados para as atividades industriais e comerciais, em geral, não são adequados às artes, por tratar-se de outra natureza de mercadoria e função social.

A arte da música não é um simples elo de uma cadeia produtiva. A arte da música é a razão de ser de todas as atividades do mundo da música. A obra de arte é um produto que não tem valor utilitário, mas valor simbólico, e o simbólico é um dos ingredientes da fórmula humana. É uma necessidade social. A produção da obra de arte não depende só de treinamento e vontade, mas de talento, vocação e dedicação. Para uma atividade diferenciada o modelo deve ser diferenciado.

Esta é uma proposta de modelo para se pensar a atividade musical a partir de sua origem, a criação. Pensando a música como sistema e não como cadeia.

Definições

MÚSICO PROFISSIONAL BRASILEIRO são compositores, letristas, instrumentistas, arranjadores, regentes e cantores nascidos no Brasil ou naturalizados, que recebem remuneração pelo seu trabalho.

SISTEMA CRIATIVO – O Sistema é criado a partir de um núcleo vital sem o qual ele não existe. Como o sistema solar.

NÚCLEO CRIATIVO – composto pelo músico profissional brasileiro. Sem o compositor não há obra. Sem o intérprete não há comunicação da obra

O NÚCLEO CRIATIVO é autopoiese. Poiesis em grego quer dizer poesia, criação, produção. Autopoética= autoprodutor. Todo músico é indiscutivelmente produtor musical porque produz a obra. Esta categoria vem sendo confundida com produtor industrial e comercial, que são de natureza técnica, não personalizada, que o artista pode ou não também ser, caso tenha acesso aos meios de produção e circulação.

Todas as atividades da economia da música derivam do NÚCLEO CRIATIVO. Os detentores dos meios de produção e circulação da obra musical organizados como pessoa jurídica, invertem as relações fazendo crer que são “produtores do artista” quando na verdade todo artista é naturalmente autoprodutor.

Para aquele que se dedica integralmente à produção da obra de arte na sociedade mercantilista, sua produção precisa tornar-se uma mercadoria para que dela advenha seu sustento.

Todo artista é pessoa física e é dessa condição que realiza como autor e/ou intérprete a produção da obra musical. O que ele pode fazer é contratar profissionais ou empresas especializados em indústria e comércio para obter mais ganhos com seu produto.

O Estado brasileiro privilegia a pessoa jurídica nos encargos sociais, obrigando a pessoa física tornar-se jurídica. Para essa realidade é necessária a criação de figura jurídica exclusiva para o NÚCLEO CRIATIVO similar ao MEI: microempreendedor individual.

Com os avanços tecnológicos muita coisa mudou. Antes, o NÚCLEO CRIATIVO precisava de: editor da obra, gravadora, distribuidor, empresário, produtor, divulgador. Hoje, o compositor pode autorizar a gravação e receber seus direitos autorais diretamente, isto é, sem editar a obra. Os intérpretes podem gravar em estúdio caseiro ou alugar estúdio. A venda do fonograma pode ser direta. Os intérpretes podem ser seus próprios empresários, divulgadores e produtores.

O compositor produz a obra. O intérprete instrumentista e/ou vocal produz a comunicação da obra por meio de execução ao vivo e/ou gravação.

Uma forma mais justa e orgânica é possível para o mundo da música. Baseados na recente vertente chamada Economia Criativa, estamos criando novos modelos de negócios e gestão a partir da ótica do NÚCLEO CRIATIVO. E com os valores éticos de solidariedade, cooperação e justiça vamos construindo um novo mundo possível, a CASA do MÚSICO.

* Publicado originalmente no site ViaPolítica.


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Ana Terra é escritora e compositora.

8Comentários

  • gil lopes, 8 de julho de 2011 @ 3:10 Reply

    Ana, vamos usar o vernáculo com rigor, hoje o compositor e o intérprete tocam para o banheiro, para as atividades graciosas, hoje não há nada. Essa história de que agora o compositor pode, o intérprete isso e aquilo já não convence mais ninguém. As subjetividades já estão compreendidas, a questão agora, depois de mais de 10 anos de debacle na Música Brasileira, a questão é objetivíssima. De que maneira vamos novamente produzir riqueza com a Música Brasileira, como vamos nos colocar diante do avanço extraordinário da música importada em nosso mercado, qual a resposta que podemos dar a isso, o que queremos com nossa música? O que fez a pujança da música brasileira foi a imensa economia que se construiu com ela, isso foi demolido, o que fazemos? Música exótica não nos interessa, temos um imenso mercado de música , como vamos dispor dele para o conteudo nacional? Essa é questão num mar de Rock in Rio e SWU. Diversos demonstrativos de vantagens não convencem ninguém, encher a hotelaria é nada se comparada a hegemonia que a música brasileira tinha no mercado interno e as repercussões econômicas que isso proporcionava. Um festival importado não produz as vantagens necessárias para uma sociedade que quer se afirmar. Vmaos ser rigorosos Ana.

    Mais uma reflexão: só não tem intermediação o que não vale nada…o mundo é velho …a novidade tecnológica ainda é excludente, nossa capacidade de produzir direitos simplesmente já não existe mais, estamos por fora, nem Itunes a Música Brasileira tem, não está no mercado, não há para consumo, não há direitos não há nada, só pirataria e importados…é isso e a gente tem que olhar para o que é de fato. Estamos na lona, sob o ponto de vista da afirmação cultural estamos derrotados.

  • Vinicius Pereira, 13 de julho de 2011 @ 10:17 Reply

    Eu vivo de música instrumental brasileira. Faço parte de uma banda chamada Projeto Coisa Fina, somos 13 músicos e tocamos a obra do maestro Moacir Santos e de outros grandes compositores brasileiros que julgamos merecem ser redescobertos como o JT Meirelles e o Mozar Terra.

    No começo mal conseguíamos espaço para tocar. Muito pouco público nas apresentações, praticamente nenhum dinheiro.

    Nos unimos a outras 9 bandas (“big bands”) e fundamos um coletivo, o Movimento Elefantes. Através do coletivo conseguimos estabelecer parcerias com diversas empresas que se interessaram pela nossa causa, a difusão da música instrumental para sopros produzida no Brasil, e hoje contamos com serviços que antes jamais imaginaríamos ter acesso, como assessoria de imprensa, que simplesmente transforma a vida de qualquer trabalho. Insere no mercado….. agrega valor……

    O jargão é velho mas a coisa é um fato: a união faz a força.

    Quem ainda não descobriu a força dos coletivos precisa se antenar. Quem ainda não é cooperativado ou não pertence a nenhuma organização de músicos unidos devia dar uma sondada nas que estão surgindo, nas que já estão estabelecidas, o cenário da música em São Paulo está mudando. A coisa está voltando a ficar bonita para quem não está sozinho.

  • gil lopes, 13 de julho de 2011 @ 14:05 Reply

    Há sempre um alento é verdade, mas é preciso mais do que se consolar. A música brasileira depois de tantos conseguimentos e afirmação, perdeu sua capacidade de geração de riqueza por conta da desmobilização da sua indústria no país. Essa situação ocorreu quando a música brasileira era líder no seu próprio mercado e se encontrava entre os 10 maiores mercados de música do mundo. A consequência dessa desmobilização é a redução da sua capacidade de projetar novos artistas, a ocupação contínua e expressiva do mercado nacional pelo produto estrangeiro, a derrocada da arrecadação de direitos substituída pela liderança da arrecadação para o estrangeiro, menor presença nos comerciais televisivos, ausência de renovação.
    Os novos meios de circulação apresentam a música brasileira de modo irrelevante e marginal e não há consciência nacional para produzir uma resposta a este estado de coisas. Impera a pirataria e a circulação sem regulação impedindo qualquer movimento na direção do estabelecimento de uma economia. O ambiente portanto não incentiva novos compositores, cantores, artistas em geral nem a cadeia de produção complementar. E o pior de tudo, não há nenhum movimento ou reflexão no sentido de recuperar a capacidade de produção e distribuição da música brasileira, só aventuras pessoais ou iniciativas anacrônicas. É a maior derrota cultural no Brasil contemporâneo.

  • Vinicius Pereira, 13 de julho de 2011 @ 15:47 Reply

    Gil, se você fosse um artista, saberia que o que nos motiva não é dinheiro. O “estabelecimento de uma economia” nunca incentivou a produção artística. Quem incentiva a produção artística é a beleza, a vida.

    Artista é quem faz arte. Quem vende disco é “arteiro”, fantoche da indústria. É raro vermos um artista ganhando dinheiro. Com direitos autorais então… dá pra contar nos dedos. A maioria esmagadora dos artistas ganha o suficiente para suprir suas necessidades e seguir vivendo, traduzindo o que vê em arte.

    O artista está se unindo a outros artistas, criando coletivos, encontrando novos meios para divulgar sua arte, pirateando o seu próprio disco, distribuindo nas redes sociais, está em contato direto com seu público e não precisa mais de uma indústria que nunca se importou com a arte, e sim com a viabilidade econômica de seus produtos.

    Antes da internet, dos coletivos, o artista dependia da indústria. Agora a indústria que vá produzir sapatos, chicletes ou entretenimento.

    Você está enganado Gil. A derrota não é cultural. É industrial.

  • gil lopes, 14 de julho de 2011 @ 17:11 Reply

    quem disse que o incentivo é a beleza? As vezes é a negação dela…quem disse que o incentivo é a vida? Pode ser a morte. Se artista é quem faz arte, o que é a arte? E Duchamps, existiu? E o que é a indústria? Indústria cultural existe? Picasso com certeza pode ser um artista? Deixou uma fortuna de herança. Existem artistas ricos? Muito ricos? Ricaços? Ter ou não ter dinheiro tem alguma coisa a ver com arte? Mas o que é a arte? Quem depende do que?
    Não faltam cursinhos para responder a essas questões, às vezes é bom frequentá-los, abre a cabeça…Ferreirão diz: se o assunto é cultura, onde está o cheque?

  • Vinicius Pereira, 14 de julho de 2011 @ 18:53 Reply

    Na carteira de quem dá o curso.

  • Maria Alice Gouveia, 18 de julho de 2011 @ 8:11 Reply

    Vinicius Pereira: você não está pensando em Chico Buarque, por exemplo quando diz que artista não ganha dinheiro,não é? Chico passa metade do ano em seu apartamento em Paris e no entanto é visto por tantos como um grande talento da música popular brasileira, a ponto de só agora ter descoberto ´que há pessoas que não gostam do seu trabalho.
    Na outra ponta da escala – a música clássica – temos John Neschling – também ganhando aí seus cem mil por mês quando trabalhava na OSESp. Pode ter certeza, essas pessoas ganham muuuuuito mais do que quem dá cursinho para artista, ensinando como planejar minimamente o seu trabalho. O pessoal do Brega no Pará já mostrou isso e não por acaso acabou comprando casa no Morumbi. A cada um de acordo com sua ambição, disposição, vontade e sorte. Quem quiser ganhar dinheiro pode. E quem não souber, não ganha. É assim que as coisas funcionam.Mérito artístico tem pouco a ver. Aliás, também o gosto é uma decorrência da formação.

  • gil lopes, 18 de julho de 2011 @ 14:25 Reply

    Ninguém sabe o que motiva a arte e o artista, muitos se estimulam ao perceberem que podem ganhar a vida fazendo arte, que há portanto uma economia que gira em decorrência da sua obra. O Estado não deve desconhecer isso, a capacidade de geração de riqueza de cada segmento artístico e da sua importância transcendental para a Nação. Além de ocupar e capacitar pessoas, a cultura é a consciência do País e sua representação. No Brasil ainda não afirmamos a nossa cultura que sobrevive ao lado da cultura estrangeira importada que chega afirmada pela globalização. Temos portanto que definitivamente assumir que há um confronto cultural, e tomar partido. Como de resto ocorre em qualquer país do mundo contemporâneo. Cultural em última análise é confronto, a boa luta. Fomos antropofágicos na semana de 22, mais de um século depois e diante do país que construímos, o que temos a dizer? O mundo espera saber o que temos a dizer caso contrário ficaremos calados batendo palmas. Como diz Mautner ou o mundo se brasilifica ou fica nazista. O que será a brasilificação do mundo, precisamos responder a isso, precisamos dos instrumentos para refletir e definir o que é isso. Precisamos pensar sobre como seremos vitoriosos.

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