“Penetrando no Nordeste, vamos encontrar uma população extremamente miserável, mas que encara a vida com muita filosofia. Muito magros, esses homens parece que se confundem com a natureza que os rodeia. Estamos no Ceará. Lá se canta de uma maneira diferente, utilizando uma espécie de quarto de tom especial. O canto parece sempre desafinado. Se fizermos ouvir a um cantador um acorde perfeito, ele não perceberá a perfeição. E não gostará do acorde, mas se afrouxarmos um pouco a afinação, então ela ficará contente. O que quer dizer que essa gente está mais próxima da natureza, do mundo físico, do que das convenções musicais. Tudo isto, todas estas observações me inspiram reflexões profundas. E é por este motivo que eu escrevo música dissonante. Não escrevo dissonante para parecer moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é a consequência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil”. (Villa Lobos).”

Este depoimento do grande maestro, se refletido com honestidade, o mundo idealizado por Ruy Castro e cia estaria implodido. E se compreendêssemos que a cultura de uma sociedade não anda aos saltos, com essa pérola de depoimento de Villa Lobos, entenderíamos melhor que o humano, mais do que o “requinte”, andou pelas ruas da zona sul do Rio de Janeiro na década de 60.
 
Talvez o frasco perfume francês não seja assim tão francês. A colônia barata trazida das nossas próprias escolhas na busca das dissonâncias não é algo relacionado a nutrição mediana e todo o seu ganho proteico. Talvez os carboitratos mínimos exigidos para a sustentabilidade do homem brasileiro, nos tragam pistas mais consequentes do que uma história bossanovística cercada de personagens que circulam entre a fantasia e o delírio bairrista .
 
Fico feliz com essa nova postura anunciada por Liliana Sousa sobre o Itau Cultural, na busca por uma identidade maior com a sociedade. Quero crer que essa será cada vez mais a direção para as instituições buscarem a marca na sociedade e não imporem a ela qualquer forma de padrão, até porque, corre-se o risco de chegar com o discurso atrasado como esse da “Bossa Nova” das distintas dissonâncias do “Desafinado” e seus ouvidos privilegiados de percepção complexa, caindo no obscurantismo .
 
Há uma urgência de vida ou morte hoje no mundo cultural brasileiro, salvar as classes das próprias classes, temos que devolver a estes seres o direito sagrado de serem reais, o que desde já digo, é tarefa para titãs, porque com o grau de contaminação midiática que as classes média e alta sofreram das instituições que dirigem seus comportamentos em busca de um lugar ao sol, a empreitada será dura, é encrenca na certa e sem hora para acabar!

“Ela (a música) terá que se elevar ainda a fase que chamarei de cultural, livremente estética, e sempre se entendendo que não poderá haver cultura que não reflita as realidades profundas da terra em que se realiza. E então a nossa música será, não mais nacionalista, mas simplesmente nacional.” (Mário de Andrade).


Bandolinista, compositor e pesquisador.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *