Nesta segunda e terça-feira (2 e 3/7) aconteceu, em São Paulo (SP), a segunda edição da Conferência Crowdsourcing – Co-criação e colaboração. Reunidos na Fecomércio, especialistas de diversos lugares do mundo falaram – e aprenderam mais – sobre o que tem sido feito quando o assunto é envolver a multidão, especialmente em ações empresariais.

Cheguei lá na primeira palestra da tarde de segunda-feira, que aconteceu via Skype com Jeff Howe, professor de jornalismo na Northeastern University, autor do livro ”O poder das multidões” e ninguém menos que a pessoa que criou o termo “crowdsourcing”, em 2006. No mesmo dia, um artigo publicado na revista Wired e um blog lançaram a palavra ao mundo.

Muito simpático, Howe explicou que, naquela época, “a molecada não produzia conteúdo”. Segundo ele, a criação coletiva tinha mais a ver com a tecnologia.

Mais tarde, Paulo Alvim, gerente da Unidade de Acesso à Inovação e Tecnologia do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), afirmou que a interação com conteúdo surgiu a partir das redes sociais. “Internet e conectividade não são suficientes para o crowdsourcing”, disse.

Rodrigo Maia, do Catarse, concordou que a tecnologia tem papel fundamental, mas que a questão agora é achar soluções, usando essa tecnologia como catalisador de uma mudança de comportamento. “É um mecanismo de conexão entre as pessoas. Uma plataforma que cria um espaço para que elas possam pensar coletivamente, se coordenar e viabilizar uma série de coisas”, disse, enfatizando durante toda sua apresentação que mais importante que conseguir dinheiro é conseguir impactar o ambiente onde as pessoas vivem.

André Torreta, fundador d’A Ponte Estratégia, consultoria que trabalha inovação e co-criação, arrancou risos da plateia ao dizer que co-criação é a coisa mais antiga do mundo. “Adão e Eva iniciaram isso. Durante milhões de anos, essa era a forma de produzir. E foi assim até Henry Ford, que resolveu criar um carro de um único jeito e dane-se o cliente. Aí foi criado o anti-mundo, onde você não perguntava o que as pessoas queriam”, explicou.

Para ele, ter a percepção de que o coletivo é melhor que o individual não tem nada de moderno. “A discussão não é se existe ou não colaboração, mas o que vamos fazer com isso a partir de agora.”

Mas voltando ao Jeff Howe… ele disse que o termo “crowdsourcing” não é bom nem ruim, que implica ameaça e promessa. “A grande regra não é perguntar o que a comunidade pode fazer por você, mas se perguntar o que você pode fazer pela sua comunidade”, ensinou para a multidão presente na sala.

Também lembrou que o crowdsourcing vem de baixo para cima. Quando uma multidão se junta e faz uma tarefa, e cria novas ideias, isso é crowdsourcing. “Demoramos 20 anos para saber o que fazer com a internet. Devemos demorar mais 20 pra saber o que fazer com o crowdsourcing. Não espero ver modelos maduros antes disso”, alertou.

Mas já tem muita gente tentando chegar lá. Desde empresas que buscam alguma solução para um desafio, passando por quem precisa de financiamento para um projeto, até quem simplesmente quer mais conhecimento sobre algum assunto.

Empresas – “Seus clientes sabem muito mais sobre o seu produto do que engenheiros”, afirmou Howe. Por isso, conquistar a colaboração ativa é outro desafio.

Luis Alt, sócio-diretor da live|work, consultoria global de inovação e design de serviços, afirmou que, ao criar contextos para experimentação, é possível ter feedback tanto dos clientes quanto dos funcionários. Mas lembrou que abrir a participação requer uma capacidade de filtro muito grande. “As empresas às vezes ganham um problema quando fazem isso. É melhor mil informações relevantes de 10 pessoas do que 10 informações de mil pessoas.”

Ele também alertou que a multidão é imprevisível, instável e agressiva, por isso, crowdsourcing tem que ser um processo muito bem pensado e estruturado. “De que maneira vou extrair boas ideias da multidão? Como vou guiar as pessoas neste processo?”, ele sugere se questionar.

Mas é possível guiar a multidão? Uma das mesas da conferência trouxe especialistas para falar sobre as melhores práticas de gestão das comunidades. “Não acredito em gestão de comunidade, mas em relação com a comunidade e participação da comunidade. Eu posso gerenciar o que é meu. A comunidade é, por definição, coletiva”, abriu a discussão Daniel Weinmann, sócio na Engage e no Grupo Comum.

Para ele, trabalhar em comunidade é mais efetivo se o seu papel é de equalizador de poder. “É um trabalho complexo, mas quando você internaliza essa visão, o fluxo de inovação, de valor agregado, vai ser menos limitado”. Ou seja, quanto mais distribuído o poder, mais fluido o valor agregado. “Os negócios hoje já são redes de relacionamento. Então se começarmos a pensar que a equalização de poder pode ser um papel fundamental, acho que a gente tem muito a ganhar. Os melhores gestores de comunidade que eu conheço fazem esse papel muito bem”, completou.

A questão que Weinmann sugere se fazer é: “Que promessas você faz e como negocia a sua participação na comunidade?”

Reafirmando o que muitos disseram durante o evento, Carl Esposti, fundador do www.crowdsourcing.org – o maior site sobre crowdsourcing e crowdfunding do mundo -, disse que, antes de começar um modelo colaborativo, é preciso entender qual é o seu desafio e a sua necessidade. “Crowdsourcing tem a ver com participação aberta, é uma filosofia de desagregação. A composição do processo é mais difícil de implementar, porque requer que as pessoas venham fazer as coisas. Por isso é preciso definir se você quer ou precisa de uma micro tarefa, de um especialista ou de ideias”, explicou.

Ele definiu crowdsourcing como “um modelo online para resolução distribuída de problemas, produção e formação de capital”.

E, apesar do seu colega Jeff Howe achar que o modelo ideal ainda vai demorar, Esposti é mais otimista com relação ao seu entendimento. “As pessoas estão se familiarizando com isso em menos tempo do que demorou para entenderem a terceirização.”


Jornalista, foi diretora de conteúdo e editora do Cultura e Mercado de 2011 a 2016.

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